Domingo, 21 de Julho de 2019
DENÚNCIA

Terapeuta é preso após manter casal sob tortura em clínica clandestina

Viciados em crack que há três meses estavam internados no local eram obrigados a ingerir Chá de ayahuasca e comida estragada. Um deles chegou a ser amarrado em formigueiro



paiva_ACBAFB68-AC3F-46D9-93CB-B44DC03AA169.JPG Foto: Divulgação
19/06/2019 às 07:23

Policiais Militares da 20ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom) prenderam na tarde desta terça-feira (18), Raimundo Paiva da Costa, de 50 anos, e Ana Carolina da Silva Souza, de 21 anos. Eles são suspeitos de manter uma clínica clandestina de recuperação de dependentes químicos na Avenida Floresta, antiga rua 25 comunidade São Sebastião, no bairro Tarumã-Açu, Zona Oeste de Manaus.

No local, o Instituto Vidas Libertas, eles mantinham em cárcere privado um casal que era submetido a vários tipos de tortura para se livrar das drogas. A mãe de Jean Patrício Matos Reis, de 39 anos, pagava R$ 6 mil por mês para que ele e Deuciane dos Santos Ladislau, de 33 anos, mantivessem tratamento no local.

Jean contou que, há 3 meses, um amigo indicou uma terapia alternativa que iria o libertar do vício das drogas. Ele e a mulher eram viciados em crack. Então o casal foi levado ao Instituto Vidas Libertas.

O local era apenas uma barraca coberta com uma lona e eles viviam em condições precárias. A comida era estragada, pois ficava mal armazenada. Esse Instituto Vidas Libertas segue a doutrina Espírita da União do Vegetal, portanto os dois eram tratados com o Chá de Ayahuasca, uma bebida milenar que é usada para fins religiões. Segundo o casal, com a bebida - feita à base de uma planta e que altera a consciência de quem consome - , eles ficavam muito mal, sofriam com vômitos e diarreias.

Eles eram obrigados a tomar um litro do chá por dia, divididos entre café, almoço e jantar. O chá faria parte do tratamento para libertá-los do vício.

Ainda segundo o casal, eles sofriam muita pressão psicológica e, caso descumprissem alguma norma do local, eram punidos com vários castigos. Jean contou que já foi afogado, acorrentado, amarrado em um formigueiro e era parcialmente enterrado, ficando apenas com a cabeça para fora da terra. Por conta disso pensou em fugir, mas era castigado toda vez que tentava e até ameaçado de morte.

Tentativa de fuga

Jean contou que na última sexta-feira (14), foi liberado para ir a casa dele. Lá ele entrou em contato com seu advogado, Alcio Luis Pessoa, e relatou os maus tratos. No sábado (15), o advogado foi até o local para pedir a liberação do casal.

Raimundo Paiva negou o pedido de liberação feito pelo advogado e disse que o casal precisava ficar mais três meses internado. Por conta disso, Raimundo obrigou Alcio, de 76 anos, a tomar o Chá de Ayahuasca. Isso, segundo Raimundo, seria para o advogado se libertar “desse pensamento” e porque ele também ficaria internado no local. No último domingo (16), a esposa e as duas filhas do advogado foram até o local e conseguiram libertar Alcio.

Fuga da esposa

Deuciane contou, que após a saída do advogado, ela foi castigada. Apanhou muito e foi obrigada a comer terra e a ficar por uma hora em baixo de um chuveiro. Na madrugada dessa segunda-feira (17), ela acordou, viu que todos estavam dormindo, e fugiu.

A mulher pegou uma quantia em dinheiro foi de ônibus para casa. Ela procurou o advogado para acionar a polícia.

Segundo o Tenente Mustafá, da 20ª Cicom, na tarde desta terça-feira (18), os policiais foram até o local e encontraram Jean amarrado por uma corrente, prenderam Raimundo e Ana Carolina, mas uma terceira pessoa que trabalhava no local conseguiu fugir. Todos foram levados ao 19º Distrito Integrado de Polícia (DIP) para prestar esclarecimentos.

Jean e Deuciane disseram que estão muito abalados psicologicamente com o caso. Questionados se ainda vão voltar para o mundo das drogas, eles disseram que não, que não querem mais passar por tudo isso novamente.

Terapeuta

Nas redes sociais, Raimundo Paiva da Costa se apresenta como Terapeuta Holístico, uma forma alternativa de tratar as pessoas. No site da Associação Brasileira dos Terapeutas Holísticos (ABRATH), consta o nome dele como Terapeuta Alternativo com habilitação em Hipnose Carreriana e Florais da Mata Atlântica. Mas no site também aparece a informação que sua habilitação está vencida e é exigida a renovação.

Segundo o delegado plantonista Ericsson Tavares, Raimundo e Ana foram presos por crimes de tortura, maus tratos, associação criminosa, sequestro e cárcere privado. No depoimento, Paiva disse que não havia nada de errado com o tratamento, pois a recuperação seria por uma forma religiosa, portanto não precisava de alvará para funcionar e nem de um curso específico na área.

Eles negaram a realização de tortura. Na quarta-feira (19), os suspeitos vão para audiência de custódia e ficarão à disposição da Justiça.

União do Vegetal se posiciona

Por meio de nota, o Centro Espírita Beneficente União do Vegetal informou que a entidade não tem e nunca teve nenhum tipo de relação com o Instituto Vidas Libertas.

Segundo o centro, a União do Vegetal faz uso do Chá Hoasca (também conhecido como Ayahuasca) exclusivamente em seus rituais religiosos e nunca em práticas terapêuticas.

Ainda o Centro Espírita Beneficente União destacou que Raimundo Paiva da Costa já frequentou a União do Vegetal, mas foi desligado dessa instituição religiosa em 21 de março de 2006. A organização disse também que Ana Carolina da Silva Souza não é e nunca foi associada à União do Vegetal.

Por fim, o centro completou que os fatos noticiados são incompatíveis com os ensinamentos ministrados pela União do Vegetal aos seus discípulos, alicerçados na doutrina Cristã e na prática do bem.

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