Publicidade
Manaus
Entrevista

Titular da SSP fala sobre o papel da polícia para conter os assaltos a ônibus

Para Sérgio Fontes o momento de instabilidade pelo qual passa o sistema demanda uma força tarefa composta por órgãos de diferentes esferas 21/11/2016 às 05:00
Show sergio fontes01
Para Sérgio Fontes, a situação pede uma ação conjunta que envolve outros órgãos além da Secretaria de Segurança Pública, como sindicatos e a prefeitura
acritica.com Manaus

Mergulhando em uma crise provocada, entre outros fatores, pela falta de segurança, o sistema de transporte público da capital atravessa momentos delicados, com assaltos diários  a ônibus- em média, dez por dia - violência contra motoristas, cobradores e usuários e transtornos a quem depende do serviço, que sofre com paralisações repentinas promovidas pelo Sindicato dos Trabalhadores em Transporte Rodoviário de Manaus (STTRM), em protesto pela falta de segurança para trabalhar. O reflexo disso tudo é o momento de instabilidade pelo qual passa o sistema, e que demanda uma força tarefa composta por órgãos de diferentes esferas, justamente a medida proposta pelo titular da Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM), Sérgio Fontes, nesta entrevista concedida com exclusividade ao A CRÍTICA.

A SSP-AM tem feito a sua parte para combater esse tipo de crime?
Sem dúvida nenhuma temos feito a nossa parte. Temos trabalhado desde o ano passado com inúmeras operações, efetuado as operações ostensivas e, só este ano, estamos com quase duas centenas de presos que estavam tentando assaltar ônibus, muitos deles menores de idade. Existem policiais Civis e Militar se dedicando, diariamente.  No entanto, nós reafirmamos, esse aumento de criminalidade não é “privilégio” do Estado do Amazonas, mas em todo Brasil, e ele tem relação direta com a crise e o desemprego.

Como a crise afeta a segurança pública?
A crise reduz os recursos da Segurança Pública. Estamos trabalhando hoje com recursos muito inferiores aos recursos dos anos de 2013 e 2014, quando não havia crise, praticamente a metade dos recursos que foram aplicados em 2014 estão sendo aplicados em 2016, com 30% de contingenciamento. Mesmo assim, estamos fazendo a nossa parte. Ocorre que existem outras linhas de atuação que têm o condão de diminuir esse tipo de crime, a segurança pública não é só polícia e a polícia só atua nas consequências e não nas causas. Procurando seguir essa linha de raciocínio, nós estabelecemos algumas metas que, parte depende da secretaria e parte não depende. E elas não são impositivas por motivos óbvios.

O fim da circulação de dinheiro nos ônibus é uma dessas medidas que não depende da SSP?
Essa é uma questão que precisa ser discutida e depende do exclusivamente do órgão concedente, que é a prefeitura de Manaus. Mas desde o começo, mesmo assim, baseados em experiências de outros Estados, nós colocamos um posicionamento de que não pode ter prejuízo para nenhum trabalhador, então, já no ofício enviado ao Ministério Público, nós sugerimos que o MP intermedie  essa questão porque nós acreditamos que vai reduzir, sim, o número de assaltos se não houver mais dinheiro em caixa. Nós percebemos que os ônibus, de maneira pejorativa, se tornaram um caixa eletrônico desses bandidos. O criminoso acorda precisando de dinheiro, pega uma faca e vai assaltar o ônibus, tendo o elemento surpresa e todas as possibilidades de fuga. Se a gente continuar insistindo só em operações, só em polícia, nós não vamos resolver o problema, por isso, fizemos essa sugestão para que o assunto seja discutido e analisado. E com a garantia do Sinetram e talvez do Ministério Público de que não haverá demissões. Essa questão de demissão é uma radicação do tema. O tema sequer discutido e proposto e já está sendo analisado de forma radical por alguns setores e isso é lamentável. O que todos nós queremos é que vidas humanas e o patrimônio de todo cidadão seja preservado. E como não foi nos colocado para debate não tivemos a oportunidade de contra-argumentar, ou seja, apenas divulgado que os trabalhadores seriam demitidos, isso é decorrente de uma desconfiança histórica de empregado e patrão. Justamente pensando nessa situação nós pedimos o acompanhamento do MP. Para que se a mudança ocorra sem prejuízo para os trabalhadores.

A SSP-AM está convocando outros órgãos para discutir o assunto?
Esse é o nosso objeto, a segurança é muito solitária nesse tema e, na verdade, ela é apenas uma parte da solução. De que forma esse problema será resolvido ou amenizado? Ele vai ser amenizado com a implementação daquelas sete sugestões que foram dadas. Aumento de câmeras nos terminais e setores mais problemáticos, maior controle dos criminosos que são presos pela polícia por crimes violentos, com as tornozeleiras eletrônicas, criação de banco de dados específicos de bandido que cometem esse crime, a retirada do pagamento dos ônibus, que depende da Prefeitura e do Sinetran, e que acreditamos que vai funcionar sim. Quando alguém diz que não funciona é uma impressão, é empírico, e quando nós, Sistema de segurança Pública, dizemos que funciona, é baseado em exemplos que já foram bem sucedidos. Além disso, temos a proposta de bloquear mais rápido os celulares roubados, o que tira a força do celular ser um produto valioso para o roubo.

Muitos usuários criticam as operações policiais, alegando que causam transtorno aos usuários...
 A visão simplista que eu tenho observado de que operações policiais e de inteligências vão resolver o problema não é verdadeira. É bom que se diga que nesse tipo de crime não tem inteligência, o cidadão passa a mão numa faca vai e entra, não tem quadrilha organizada, não tem um líder, não tem uma organização criminosa, são vários usuários e pequenos criminosos que fazem isso, então não é tão simples de resolver.  As operações policiais, no meu entender, atrapalham a rotina do cidadão, mas elas são muito necessárias porque você entra no ônibus e se alguém tiver armado não tem como você garantir uma prisão segura, pode até ter uma troca de tiros e tal. Por isso, por doutrina, a Polícia Militar tira todo mundo de dentro do ônibus. Aí o cidadão está cansado, voltando pra casa, e todo dia ele ser retirado do ônibus pra ser revistado não é justo com o cidadão de bem, mas é a única maneira de fazer isso.

Qual o papel dos sindicatos de empresários e rodoviários nessas ações?
É obrigação da polícia, junto com outros setores da sociedade, inclusive os sindicatos, buscar outras soluções. Se você não admite nem discutir as soluções, fica difícil. Se você simplifica e coloca numa tábua rasa, numa janela estreita, uma coisa que é muito mais complexa, fica difícil de você resolver. Todo mundo hoje que não entende de segurança ou que quer entender começa dizendo que se resolve com inteligência, eficiência e eficácia, mas não é só assim, nós estamos vivendo uma crise em que você olha todo dia na televisão e vê o Rio de Janeiro, Rio Grande do Norte, Rio Grande do Sul. Lá, sim, tem o caos, nós estamos sob controle, as coisas não estão boas e agradáveis, mas estamos mantendo o controle, aumentando a opressão, diminuindo homicídios. O problema não foi criado pela polícia, esse problema foi criado por uma série de fatores e conjunturas que não vêm de agora, mas de muito tempo.

Qual o papel que a SSP pretende assumir nessa ‘cruzada’ contra os assaltos a ônibus?
Justamente o nosso papel é esse, indicar caminhos. Não é executar, execução não é uma atribuição nata da secretaria, a gente até faz, eventualmente, o que não é recomendado, mas nós aceitamos esse encargo por conta do número de policiais que nós temos aqui e eventualmente fazemos alguma coisa. A nós cabe apontar caminhos, fazer sugestões, justamente isso que estamos fazendo agora.

Publicidade
Publicidade