Segunda-feira, 17 de Junho de 2019
Manaus

Trabalho dos carregadores da área portuária de Manaus é revelado em livro

Professora doutora da UFAM, Elenise Scherer, expõem o sofrimento oculto dos carregadores portuários



1.jpg Trabalho é revelado em livro
30/11/2013 às 08:15

Apesar de ser estratégico para o comércio e a circulação de mercadorias, o trabalho dos carregadores das áreas portuárias de Manaus e de cidades do interior do Estado têm características de duro, penoso e ignorado pela sociedade e governantes. Sob o título “Trabalho Ocultado: os carregadores e transportadores do Roadway e da Estação Hidroviária de Manaus”, a professora doutora Elenise Faria Scherer, da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), lançou, na última quinta-feira, um livro destinado a chamar a atenção para essa categoria que, na cabeça e nas costas, carrega as bagagens e mercadorias que chegam e são enviadas de barco.

Após dois anos de pesquisa somente no Roadway, no Centro, Zona Centro-Sul, a professora esteve também no porto da Manaus Moderna, na mesma zona, no Porto da Panair, no bairro da Colônia Oliveira Machado, Zona Sul e no Porto da Ceasa, na Zona Leste. Pelos levantamentos feitos por ela, no Roadway eles são em torno de 60, em idade de 30 a 62 anos. O que ela chama a atenção é para as condições de trabalho consideradas difíceis, principalmente porque se modificam em face do ciclo hidrológico, ou seja, com a enchente e vazante do rio Negro. “Em geral, eles usam o carrinho para transportar as mercadorias e bagagens, mas ao deixar essas encomendas dentro dos barcos, não têm alternativa, pois eles são obrigados a carregar na cabeça e nas costas debaixo de chuva ou de sol”, relata Elenise.

Esse processo torna-se mais difícil na época da vazante porque os barcos que atracam na praia ficam mais longe. “Então, eles são obrigado, na maioria das vezes transportarem as mercadorias e bagagens nas costa e na cabeça”, ressalta.

Ocultados

De acordo com a autora da pesquisa, a justificativa do título está no fato de eles existirem econômica e socialmente, apesar de serem fundamentais na cadeia produtiva portuária. “Quando digo que ninguém os reconhece, estou falando do Estado brasileiro, com suas instituições, sobretudo. Alguns morreram no trabalho. Como eles não contribuem com a previdência, não sonham com a aposentadoria, como muitos trabalhadores ligados a informalidade”, comenta a professora, citando que eles, no entanto, esperam pelo Benefício da Prestação Continuada (BPC) quando completarem 65 anos.

Todos têm famílias, são religiosos, têm filhos e vivem nos bairros distantes, na periferia da cidade, explica ela, destacando o fato de a renda deles depender do movimento do dia. Cada transporte custa em torno de R$ 5,00 a R$ 10,00. Eles tem uma tabela de preços, e os ganhos diários depende do quanto eles transportam diariamente e alguns chegam a transportar mais de 100 quilos. “Muitos vieram do interior do Estado ou do vizinho estado do Pará. E também, aprenderam com seus pais, a fazer os carretos”, citou Elenise, para quem apesar da promessa de revitalização do porto nunca chegar, esses trabalhadores se viram para ganhar, na força e na coragem, o pão de cada dia.

Obra considerada magnífica

Ao destacar como magnífica a obra da professora Elenise Scherer pela atualidade e oportunidade de mostrar a vida e o trabalho de uma categoria que foi muito marginalizada, o presidente da Força Sindical e secretário do Trabalho do município, Vicente Filizzola, disse que a obra merece uma leitura especial e atenta.

“Nós que vivemos num estado onde todas as cidades nasceram na beira do rio, temos essa situação em muitos lugares e podemos buscar mudanças”, afirmou ele, lembrando que algumas modificações foram operadas nessa atividade, nas áreas de portos alfandegados, mas ainda assim há muito ainda a ser feito. Para ele, a partir dessa publicação, os carregadores, existentes em todo o Amazonas, deixam de ser ocultos e podem ascender a categoria de trabalhadores reconhecidos.


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