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Manaus
NARCOCRACIA

Traficantes expulsam famílias, incendeiam casas e executam para manter domínio

Usando táticas de terror, eles ameaçam e tomam imóveis para estabelecer novas bocas de fumo, além de matar quem é publicamente contra a venda de drogas 11/03/2018 às 16:31 - Atualizado em 11/03/2018 às 16:58
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No conjunto João Paulo, família foi expulsa e casa incendiada a mando da facção criminosa Família do Norte (FDN) (Foto: Winnetou Almeida)
Joana Queiroz Manaus (AM)

A sentença de morte virou pena decretada pelos traficantes de drogas que espalham o terror em toda a cidade de Manaus e desafiam as autoridades de segurança pública. Eles matam da forma mais cruel possível, expulsam famílias de suas casas, impondo, assim, o terror e o silêncio. Alguns que ousaram em não obedecer as ordens dos senhores do tráfico tiveram as casas incendiadas e outros foram expulsos.

No tribunal do tráfico, geralmente os crimes servem para mostrar autoridade de uma liderança, além de impor medo e respeito para que as regras não sejam infringidas. “Os traficantes entram, expulsam as famílias e nas casas delas colocam outras pessoas para fazer bocada, e essas pessoas pagam uma espécie de aluguel, que na verdade é uma permuta”, diz o delegado Guilherme Torres, diretor do Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO).

Conforme o delegado, as pessoas estão ficando reféns dos traficantes porque são ameaçadas de morte. Essa é a realidade de muitos moradores do conjunto Viver Melhor, Zona Norte, onde moradores já entregaram apartamentos, os quais que estão servindo de boca de fumo. De acordo com Guilherme Torres, no disque-denúncia 181 da Secretaria de Segurança Pública (SSP-AM) chegaram mais de 100 denúncias do tipo nos últimos meses.

Expulsas enquanto dormiam

No último 16 de fevereiro, um grupo armado invadiu uma residência na rua Juca, bairro João Paulo, Zona Leste, expulsou moradores e colocou fogo no local durante a madrugada. Segundo a Polícia Civil, os homens botaram para fora mãe e filhas que estavam dormindo e tacaram fogo em tudo. 

Conforme informações de policiais civis do 30º Distrito Integrado de Polícia (DIP), os cinco criminosos chegaram ao local e mandaram a dona da casa e as duas filhas dela, duas adolescentes, que dormiam, saírem imediatamente da residência. Se não obedecessem, elas seriam queimadas vivas.

Três dias antes, no mesmo bairro, uma casa nas proximidades também foi incendiada e sofreu perda total. A Polícia Civil acredita que os dois incêndios tenham sido cometidos por criminosos com envolvimento no tráfico de drogas. A moradora também preferiu não registrar Boletim de Ocorrência (B.O) por medo de represálias.

O delegado Rafael Guevara, titular do 30º DIP, disse que nenhuma das pessoas que tiveram as casas incendiadas foi à delegacia registrar o B.O. Mesmo assim os casos são investigados, mas a polícia tem dificuldade de apurar porque as pessoas ouvidas temem represálias.

Ordem de dentro da cadeia

De acordo com investigadores da Polícia Civil, a ordem para incendiar casas no João Paulo vieram de dentro da Unidade Prisional do Puraquequara (UPP), Zona Leste, de um traficante identificado como “Fernando”.

E esse tipo de crime não fica restrito à capital. Nessa semana, por exemplo, quatro pessoas foram mortas no município de Nova Olinda do Norte por causa do tráfico. Uma das vítimas, um homem, foi esquartejado e as partes do corpo foram espalhadas pelo ramal Curupira, onde ocorreu o crime. A esposa dele, com filho pequeno do casal, teve que buscar abrigo em Manaus, pois estava com medo ter o mesmo fim do companheiro.

‘Metralhados’ e decapitados

Decapitação: essa é uma das punições para aqueles que tentam desafiar o poder do tráfico, seja com traição, dívidas ou em uma disputa por boca. Funciona também como recado para os demais criminosos. O Winchester Uchôa Cardoso, de 35 anos, conhecido como “Chester”, foi decapitado ao ser transferido para o Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), Km 8 da BR-174, em Manaus. Ele foi considerado traidor da facção criminosa Família do Norte (FDN) há dois anos e recebeu sentença de morte do crime por isso.

Neste ano, até o momento, a polícia registrou a morte de duas pessoas que tiveram as cabeças arrancadas. No último 7 de janeiro, um homem não identificado foi encontrado morto no igarapé do São Jorge, no bairro do mesmo nome, na Zona Oeste de Manaus. A cabeça do homem, encontrada horas depois boiando no igarapé, apresentava marcas de perfurações de tiro.

Weliton Lages Ferreira, 27, foi encontrado decapitado e com um braço arrancado, na travessa Tucano, avenida Uirapuru, Cidade de Deus, Zona Norte, no dia 14 de fevereiro. Policiais da 13ª Companhia Interativa Comunitária (Cicom) foram acionados. De acordo com os policiais militares, o corpo estava dentro de um saco de fibra e possivelmente a vítima foi assassinada em outro local e depois teve o corpo desovado ali.

Mulher de traficante

Quem se envolver com a mulher de traficante pode estar decretando a própria morte e da forma mais cruel possível.  Foi o que aconteceu com o lanterneiro Francisco Farias de Souza, de 49 anos, que no dia 10 de fevereiro, no sábado de Carnaval, foi morto e teve o corpo esquartejado. O cadáver foi identificado pelo irmão, Erivaldo Farias de Souza.

Outro meio comum entre traficantes para  colocar fim à vida de seus desafetos são as execuções sumárias. Pessoas que enganam os traficantes, que deixa de pagar dívidas também são obrigadas a pagar: se não têm dinheiro pagam com a vida. São executados com grande quantidade de tiros de forma a não escaparem com vida.

Conflitos, ameaças e mortes

De tanto denunciar os traficantes da rua onde morava, o comerciante Agripino da Silva Reis, de 72 anos, levou um tiro no momento em que pedia, mais uma vez, para que os criminosos parassem de vender drogas na frente da taberna dele, pois isso estava afastando os clientes.  O crime aconteceu em 2015. Agripino morava sozinho e quase todos os dias se desentendia com os vendedores de droga da rua do  Parque Riachuelo, Zona Oeste.

Em 2016, o também comerciante Lourival Mendonça, de 65 anos, foi obrigado a sair de sua própria residência na Cidade de Deus, na Zona Leste, após várias ameaças de morte, há dois anos. Ele, a mulher e os filhos deixaram a casa escoltados por policiais. Dias antes, quatro homens, sendo dois armados conhecidos traficantes da área, invadiram a casa do comerciante e tentaram matá-lo por não aceitar o tráfico na região. Pelo menos três casas já foram abandonadas no bairro após ordens de traficantes.

Opinião

Mauro Spósito, ex-superintendente da PF no Amazonas

“O Amazonas é o 12º colocado no índice de violência do Brasil, um pouco abaixo do Rio de Janeiro. O problema é que nós necessitamos de uma política de estado para o enfrentamento da questão da criminalidade e da violência, porque a violência atualmente já se tornou prato do dia. Aqui no Amazonas encontrar corpo decapitado se tornou tão rotineiro que os jornais não estão dando mais notícia a esse respeito. A todo o momento, nós estamos vendo pessoas decapitadas aqui”.

“Há 10 e 15 anos atrás se encontrasse um corpo decapitado aqui no Amazonas eram duas semanas de primeira página nos jornais, então a população está se acostumando com essa violência. No interior do Estado isso já está acontecendo também. Não tinha homens mais pacatos do que os homens do interior e os ribeirinhos. E hoje vivemos outra realidade. Mas essa realidade tem que mudar”.

Em números

Manaus está na 34ª posição entre as cidades mais violentas do mundo de acordo com ranking da organização de sociedade civil Segurança Justiça e Paz, do México, divulgado na última terça-feira (6).

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