Segunda-feira, 29 de Novembro de 2021
ABANDONO REPETIDO

Trauma em dobro: crianças 'devolvidas' por pais adotivos revivem dor do abandono

Há casos em que o processo de adoção fracassa, causando mais um possível trauma aos pequenos



unnamed_70B71EA5-34CC-4C78-ABB5-846874703BE7.jpg
10/10/2021 às 08:30

A adoção é um ato por meio do qual uma criança ou adolescente consegue encontrar uma nova família, mas há também os casos em que o processo fracassa. O A CRÍTICA conversou com a juíza de Direito Rebeca de Mendonça Lima, titular do Juizado da Infância e Juventude Cível da Comarca de Manaus, e com a assistente social Folvy Magalhães, da Organização não Governamental (ONG) Casa Mamãe Margarida, para conhecer mais sobre casos em que o novo laço familiar é quebrado. 

Uma adoção fracassa quando não há adaptação total entre adotando e adotantes, segundo Lima. Há oito abrigos cadastrados pelo Conselho Municipal da Criança e do Adolescente (CMDCA) em Manaus, conforme informado pelo Tribunal de Justiça do Estado do Amazonas (TJAM). 



A assistente social Folvy Magalhães, 34, trabalha há 16 anos no abrigo Casa Mamãe Margarida, uma ONG situada no bairro São José Operário, na Zona Leste da cidade. Ela conversou com a equipe de reportagem na quinta-feira (30) a respeito do acompanhamento psicossocial comum às crianças e adolescentes que se vêem diante de um processo de rompimento com uma família que as adotou. A instituição é voltada ao acolhimento de crianças e adolescentes vítimas de abuso sexual. 

Sofrimento da transição 

No processo de transição da família de origem a abrigos, ocorre um processo de conflito psicossocial nas crianças relativo à mudança de ambiente social. “Elas deixam de ter uma vida individual para ter uma vida coletiva. A partir do momento em que uma criança vai a um acolhimento, ela tem o desenvolvimento fragilizado, porque ela para de ter uma vida individual e passa a viver uma coletiva”, disse a assistente social.

Assistente social Folvy Magalhães, do abrigo Casa Mamãe Margarida. Foto: Gilson Mello/Frelancer

Assistente social Folvy Magalhães, do abrigo Casa Mamãe Margarida. Foto: Gilson Mello/Frelancer

Manifestações comuns oriundas do sofrimento dessa transição são comportamentos de rebeldia e tristeza. O choro passa a ser um hábito comum para algumas. Em outros casos, há a estagnação no aprendizado escolar. 

Após o processo de adaptação à chegada aos abrigos e centros de acolhimento, há também os procedimentos de adaptação das crianças e adolescentes à adoção. Diante desses novos desafios, é comum que os abrigados manifestem receio de viverem novos traumas, quando se trata de crianças ou adolescentes que sofreram abusos nas famílias de origem, conforme Magalhães. “Tive um caso recente onde a criança me disse: ‘eu quero uma família, mas só com mulheres. Não quero a presença de nenhum homem’. Essa criança tem histórico de abuso sexual”, relatou. 

Quando há o rompimento 

A assistente social da Casa Mamãe Margarida afirmou, que, quando há casos de rompimento nos quais a família adotante quebra o laço de adoção estabelecido com o adotado, o motivo mais comum é uma incompatibilidade do perfil da criança/adolescente com o adotante. 

“A criança ou adolescente, muitas vezes, cria uma expectativa na qual quer apenas o lado bom do convívio familiar, sem lembrar que em qualquer seio familiar há a presença de regras. Do lado dos pais, é necessário que muitos compreendam que as respostas de afeto das crianças e adolescentes ocorrerão no tempo delas, que possuem uma história de vida. É preciso haver um trabalho psicossocial para alinhar os dois perfis. É preciso, sobretudo, que os adultos entendam esse processo”, disse. 

É comum às famílias adotantes a crença de que amor e carinho serão suficientes para manter uma boa relação com os adotados. O que acontece, na prática, entretanto, é a existência de fases de boa e má convivência entre os adotados e os novos pais. Para que um vínculo duradouro possa surgir, é necessário que os adotantes persistam durante os momentos de conflito, ainda conforme Magalhães.

“Precisamos trazer o adotante à realidade. No início, são mil amores. Há a fase da paixão. Depois da primeira crise, surgem as reclamações. A paixão passa. Para se chegar ao amor de mãe e pai, é necessário passar por ela. Mas a vida não é só flores. Só se constrói um relacionamento forte depois que se passa por uma tempestade”, declarou a assistente social. 

Em meio a esse contexto, há também os casos de crianças e adolescentes portadores de transtornos mentais, como esquizofrenia, bipolaridade, Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH), etc. “Às vezes acontece muita frustração quando o adolescente apresenta algum comprometimento mental. Há pais que dizem: ‘eu quero, estou aqui disposto’. Mas, no andar da carruagem, se comportam com um: ‘ficou muito pesado, difícil. Não consegui, vou devolver’. Crianças e adolescentes com deficiência, de modo geral, são as que ficam nos acolhimentos. Geralmente, são os que permanecem mais tempo e demoram a encontrar uma família”, relatou Magalhães.  

Após rompimento com a adoção

Magalhães explicou, que, depois que ocorre o processo de rompimento com a família adotante e a criança/adolescente retorna ao abrigo, é feito um trabalho psicológico de criação de novas perspectivas. “É um projeto mais dolorido, porque um sonho foi destruído. Muitos adolescentes acabam querendo optar por independência, ou seja, morar sozinhos e começar a trabalhar”, disse. 

Na fase de transição à independência, há casos de jovens que passam a enfrentar ansiedade e problemas para dormir, segundo a profissional. “Depois que ocorre aquela euforia de ‘vou cuidar da minha vida’ e chegam a dormir sozinhas, à noite, após anos vivendo em um abrigo com um monte de gente, como dormir? Aí passamos a outra fase de acompanhamento para tratamento da ansiedade. Muitas chegam com aquelas dúvidas: ‘como vou me sustentar?’, ‘como vou ficar só?’. Então, a partir daí surge todo um processo, mas elas vencem”. 

Perfil do adotante

O perfil comum das pessoas que procuram adotar crianças ou adolescentes é o de indivíduos estáveis economicamente, de acordo com Magalhães. É comum, também, a presença de indivíduos que não puderam ter filhos e recorrem à adoção como meio de atingir esse objetivo. 

Segundo a assistente social, há também o desafio da adoção de crianças com idade tardia, a partir de seis anos de idade. A procura mais comum das famílias é pela criança mais nova possível. 

Para evitar rompimento 

Segundo a juíza Lima, é necessário que as instituições responsáveis intensifiquem o rigor da preparação das pessoas que pretendem adotar com o objetivo de evitar insucessos na adoção. “Quanto às crianças e adolescentes adotandos, há que os preparar bem à inserção em família adotiva, fazendo com que entendam o sentimento de pertencimento que devem ter junto à nova família”, afirmou.,

Juíza da Infância e da Juventude Cível de Manaus, Rebeca Lima. Foto: Junio Matos

Ela declarou, que, em dez anos à frente do Juizado da Infância e da Juventude Cível de Manaus, presenciou uma devolução de uma adoção que não deu certo. A instituição conseguiu que o adotando permanecesse sob a guarda da família biológica, mas sendo sustentada pela família que o adotou. Isso ocorreu porque os adotantes mudaram de ideia depois que o processo já havia transitado em julgado. “Nos demais casos, a adoção não foi concluída porque a desistência aconteceu antes da sentença de adoção, ainda durante o estágio de convivência”, disse a juíza.

 

News 6bf8d194 12ee 4a6c 8ab8 29658d0c6750 e69fe602 b00d 41db b967 4526a2cde395
Repórter de A Crítica
Jornalista graduado no Centro Universitário do Norte (UniNorte), que busca trazer um pouco de storytelling a todos os aspectos da vida, principalmente aos textos que levam sua assinatura.

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.