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Manaus
POLÍCIA

Falta de segurança e 'histeria coletiva' provocam linchamentos no AM, diz sociólogo

Especialista ouvido por A Crítica elenca fatores que estimulam o surgimento de mortes por violência coletiva 11/07/2018 às 18:47 - Atualizado em 17/07/2018 às 08:34
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Foto: Reprodução
Oswaldo Neto Manaus (AM)

Agredido e queimado em via pública, Gabriel Lima Cardoso, de 18 anos, foi a última vítima de uma atitude criminosa que revela a deficiência securitária do Estado e a capacidade humana em apoiar a atrocidade como o “bem comum”. Especialistas e autoridades ouvidos por A Crítica comentam sobre os riscos de novos casos, principalmente no interior do Amazonas, onde registros como o de Borba endossam estatísticas e não garantem a integridade de quem “aos olhos da sociedade” precisam pagar por crimes com a própria vida.  

Entre o povo árabe, pessoas eram apedrejadas e linchadas. Na França há registros de rebeldes guilhotinados como espetáculo para o público. Na Inglaterra, trens de enforcamento já foram atrações turísticas na Era Vitoriana, entre os anos de 1837 e 1901, quando a Rainha Victoria ocupou o trono britânico. “O linchamento faz parte do cotidiano e imaginário da sociedade há muito tempo”, destacou o sociólogo Luiz Antônio Nascimento, professor da Universidade Federal do Amazonas (UFAM).

O especialista diz que o linchamento é uma forma de expressão para a punição. Ele se encaixa num modelo de expressão de “massa”, pois muitos linchadores não são homicidas, mas se transformam em criminosos e perdem a identidade e ética moral. “É o ato de punir não só porque o crime foi causado, mas sim provocar sobre o corpo do outro a vingança pelo crime praticado levando em conta a ausência do Estado em coibir o crime”, explicou.

Histórico sanguinário no interior

Em 2017, uma mulher foi agredida e queimada em Novo Aripuanã após incendiar uma casa e matar duas pessoas. A delegacia chegou a ser depredada, e muitos populares se dividiram em fazer parte do ato criminoso ou sentir pânico pelas cenas compartilhadas nas redes sociais.

A Secretaria de Segurança Pública do Amazonas (SSP-AM) não possui números oficiais da quantidade de linchamentos no interior do Amazonas, mas o sociólogo argumenta que cidades inflamadas por conflitos agrícolas como Lábrea, Apuí e Manicoré apresentam situações extremas de violência coletiva, porém não atingem o grau de investigação. Em Manaus, o número de casos desde 2015 até maio de 2018 era 59 mortes provocadas por linchamento.

“Isso se dá em parte, mas não somente, por um descrédito em relação ao Poder Judiciário, descrédito do Estado. Quando o Estado não se propõe a punir com contundência crimes como infanticídio, violência sexual, essas coisas, em regra é uma forma que aquela sociedade tem para se vingar daquele crime”.

Ainda segundo o sociólogo, as redes sociais funcionam como meio para disseminar o sentimento de vingança, mas não podem ser classificadas como único elemento causador. Além disso, ele pontua o pré-julgamento automático da sociedade na hora de condenar um suspeito. “A culpa nesse caso se configura pelo fato dele estar sendo linchado, então a culpa não se dá num processo onde as pessoas se defendem, apresentam argumentos, os acusadores têm a possibilidade de reafirmar a acusação, e ao final condenar alguém. O linchamento ultrapassa tudo isso com conteúdo de barbaridade espetacular, antidemocrática e incivilizada, porque não permite que as pessoas se defendam”, explicou.

Ausência de policiamento

No momento do linchamento de Gabriel, sete policiais faziam a segurança do município. Segundo dados de 2016 do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), a cidade é habitada por 39.885 mil habitantes, ou seja, na “ponta do lápis”, seria um policial para 5 mil habitantes. Durante o linchamento, a Polícia Militar informou que 3 mil pessoas estavam em frente ao Batalhão da Polícia Militar para “assistir” ao crime.

De acordo com o promotor de Justiça de Borba, Leonardo Tupinambá, o contingente policial abaixo do esperado é apenas um fator que torna tal tipo de situação incontrolável. “Uma tragédia dessas é ocasionada por diversos erros. Envolve desde a estrutura precária do quartel até a ausência de armas não letais e bombas de efeito moral, para dissuadir a multidão”, explicou.

Para ele, o interior do Estado é massacrado pela falta de políticas públicas de segurança. “Estamos aqui falando de segurança pública, mas podemos estender para qualquer outra área: saúde, educação, saneamento básico. A estrutura do nosso Estado se resume a Manaus e alguns poucos municípios”, declarou Tupinambá, afirmando que um Inquérito Civil será instaurado para apurar a omissão em Borba.

Estado quer dar respostas

“Posso lhe afirmar que o município está calmo”, afirmou o delegado do Departamento de Policiamento de Interior (DPI), Mateus Moreira. Após o caso, 16 policiais civis e militares foram encaminhados para a cidade como reforço para evitar novos tumultos. Quatorze pessoas foram identificadas pelo linchamento através de imagens, mas ninguém foi preso por não ter ocorrido flagrante.

O delegado revelou que a polícia está fazendo policiamento ostensivo onde mora a família de Gabriel. Eles temem ser punidos pela população pelo crime que o filho estava respondendo. “Todas as pessoas que foram identificadas vão responder pelos crimes. Costumo ver as coisas da forma mais racional possível, mas aquilo foi um ato de selvageria, brutalidade extrema. Cansada da criminalidade, a população acabou extravasando de forma cruel”, disse.

As investigações apontaram que alguns envolvidos diretamente na morte de Gabriel eram “conhecidos” pela prática de delitos. Porém, a polícia acredita que mais de 3 mil pessoas apoiaram a atitude e viram o crime em tempo real. Ele nega que o município necessite de mais policiais, e acredita que o número não faria diferença diante do tamanho da revolta popular.

“Logicamente o Estado tem carências de diversas áreas. Não é o número ideal que gostaríamos de ter, mas em Borba tem o efetivo suficiente para as demandas locais. Foi um caso totalmente atípico, de violência abrupta, e mesmo com uma quantidade maior de policiais não teria impedido o resultado”, disse.

Moreira descarta ainda que o caso em Borba estimule a prática de linchamento no interior. “O que acontece vai ser totalmente o contrário. Instaurando um procedimento criminal e explicando as condutas de cada um, todos eles responsabilizados pela forma da lei , não vão servir de exemplo para mais atos”.

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