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Manaus
SISTEMA PRISIONAL

Trinta detentos do CDPM 2 seguem foragidos um mês após fuga por túnel

Apenas cinco fugitivos foram capturados desde o ocorrido. Investigações sobre a possível ajuda de servidores na fuga ainda não foram concluídas 14/06/2018 às 06:00
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Foto: Márcio Silva/Arquivo AC
Joana Queiroz Manaus (AM)

Trinta dias depois da fuga em massa do Centro de Detenção Provisório 2 (CDPM 2), no Complexo Penitenciário Anísio Jobim (Compaj), no quilômetro 8 da BR-174, apenas cinco dos 35 detentos que fugiram foram recapturados pela polícia. Entre os foragidos estão os aliados do traficante Gelson Carnaúba, que está associado à facção carioca Comando Vermelho (CV).

As buscas ainda continuam para prender os demais fugitivos, considerados de alta periculosidade. As forças de segurança, no entanto, não informaram como e onde estão sendo feitas essas buscas, se só na capital ou também no interior e fora do Estado, mas ressaltaram que tanto a Polícia Civil quanto a Militar estão envolvidas na captura dos fugitivos.

Até o momento, foram recapturados Alexandre Marques Nascimento, Carlos Alex Bruno da Silva, José Francisco dos Anjos Rodrigues, Manoel Junio Monteiro Bastos e Maruan Mota de Oliveira. Eles foram presos fora de Manaus e já foram levados de volta para a cadeia.

Os presos que fugiram são considerados pela Polícia Federal (PF) “a elite” de um grupo de criminosos dissidentes da facção Família do Norte (FDN), comandados pelo traficante Gelson Carnaúba. Na avaliação da PF os detentos ganharam as ruas com o objetivo de dominar o crime em todas as áreas da cidade. Após a fuga, outro fato que preocupa a PF, de acordo com delegado federal Caio Avanço, é saber que houve facilitação, o que mostra que “o grupo dissidente da FDN se infiltrou no Estado”. O próprio governo externou essa desconfiança e determinou apuração.

Medidas

Segundo secretário de Estado de Administração Penitenciária (Seap), Cleitman Coelho, a fuga dos 35 internos surpreendeu a secretaria, que dias antes tinha feito uma revista geral na unidade prisional CDPM 2 em que nada de anormal foi encontrado.

Perícias feitas no local mostraram fortes evidências da participação de terceiros, provavelmente de servidores da unidade prisional. Nessa quarta-feira (13), o secretário da Seap disse que não há dúvidas que os presos tiveram ajuda.

Logo depois da fuga, Cleitman Coelho determinou que fossem tomadas medidas. O túnel usado pelos presos para a fuga do CDPM 2, por exemplo, foi vedado e concretado.

A Seap também retomou a “Operação Cerberus” nas unidades prisionais, em parceria com a Secretaria de Segurança Pública  (SSP-AM), além de aumentar as fiscalizações e procedimentos de revista nas unidades prisionais, para evitar o registro de novas fugas.

Durante as revistas foram tiradas de dentro das unidades prisionais armas, celulares e drogas. Conforme o secretário da Seap, também foi feito o remanejamento de internos de uma unidade para outra.

Inquérito depende de laudos

Além da Polícia Federal, o governador Amazonino Mendes disse não ter dúvidas de que houve a conivência de administradores do sistema prisional do Amazonas na fuga do CDPM 2. Após a fuga, ele determinou a abertura de inquérito para investigar o ocorrido e anunciou que ia ser obrigado a demitir “muita gente”.

Procurada para informar sobre o andamento do inquérito determinado pelo governador, a Polícia Civil informou que o Departamento de Repressão ao Crime Organizado (DRCO) está investigando a possível facilitação da fuga do CDMP 2, ocorrida no dia 12 de maio. Conforme a PC, ainda estão sendo aguardados os laudos periciais para encerrar o inquérito e, assim, encaminhar o caso à Justiça.

A Seap, por sua vez, informou que o procedimento administrativo interno que investiga a participação de servidores na fuga também não foi concluído. Assim que ele for finalizado, ressaltou a pasta, os resultados serão apresentados e depois encaminhados ao Poder Judiciário e ao Ministério Público do Estado do Amazonas (MP-AM).

Para o governador, a fuga dos 35 presos do CDPM 2, que é administrado somente pelo Estado e não por empresas como outras unidade, é um “fato natural” em razão do péssimo cenário no sistema. “A coisa está acontecendo, ninguém se preparou e agora está acontecendo de maneira horrível”, destacou ele, no dia 14 de maio. Na ocasião,  o governador avaliou que o sistema prisional do Amazonas é “muito frágil e cheio de defeitos”.

Amazonino Mendes também anunciou que haverá mudanças nas unidades prisionais. “Muita gente. Vamos ter que tirar quem não merece confiança. Agora, como vou substituir esse pessoal? Como vou fazer? Concurso demora tempo e pessoa tem que ser treinada. É um serviço especializado”, disse. “A herança que pegamos é uma herança muito ruim, mas estamos enfrentando. Isso a gente resolve”, completou.

Meticulosos e discretos

De acordo com o secretário Cleitman Coelho, os 35 presos que fugiram CDPM 2 levaram dois dias para abrir o túnel usado na fuga. Eles cavaram 7,5 metros, guardaram o barro em duas celas e conseguiram escapar discretamente.

Informações colhidas com outros presos dão conta de que os fugitivos começaram a deixar a cadeia pelos fundos por volta das 20h de sexta-feira, saíram de cinco em cinco, e quando a fuga foi descoberta, no sábado pela manhã, eles já estavam longe.

Para o secretário da Seap, o que chama a atenção é que nem mesmo os agentes da Força Nacional que ficam no ramal que dá acessos aos presídios perceberam o movimento dos criminosos, assim como policiais militares, que também devem realizar rondas na área.

Seap planeja fazer presídio anti-túneis

Na última terça-feira (12), o Portal A Crítica mostrou que a Seap planeja a construção de presídios usando tecnologia que impede a abertura de túneis  e, assim, a fuga de detentos. A primeira delas será o Complexo Penitenciário Anísio Jobim 2 (Compaj 2). A unidade será de segurança máxima com capacidade para 900 presos. A nova penitenciária vai abrigar internos do regime fechado e será construída no terreno onde funcionava o regime semiaberto, no quilômetro 8 da BR-174.

A tecnologia que será usada na construção da nova unidade inibe a abertura de túneis para fuga e de “tocas”, uma espécie de esconderijo onde os presidiários guardam objetos ilícitos como armas, drogas, celulares e carregadores.

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