Sábado, 31 de Outubro de 2020
hotelaria em crise

Tropical Hotel vai a leilão pela terceira vez

Sem perspectiva, 380 ex-funcionários ainda lutam para receber verbas rescisórias do maior complexo hoteleiro da região



tropical_FC9BAEFB-6597-42CC-9E3A-F3AEF136B59D.JPG A piscina Vitória-Régia, palco de eventos grandiosos nas últimas décadas e que recebeu hóspedes célebres , hoje está suja e abandonada como toda a estrutura do hotel, fechado há 1 ano e 3 meses. Fotos: Aguillar Abecassis/Freelancer
25/08/2020 às 07:30

“Eles ainda me devem, mas não consigo falar mal do Tropical Hotel”. A frase do ex-funcionário Bello Silfran, 54, é um pouco do sentimento de alguns dos 380 trabalhadores que  tiveram a oportunidade de fazer parte do maior complexo hoteleiro que já existiu na região.

O ‘palácio no meio da floresta’, como era conhecido entre os turistas antes do desenvolvimento do bairro Ponta Negra, está fechado desde maio de 2019. De lá para cá, os ex-funcionários tentam na justiça receber verbas rescisórias e direitos trabalhistas.



Nos próximos dias, a 4ª Vara Empresarial do Tribunal de Justiça do Estado do Rio de Janeiro (TJ/RJ) deverá determinar data para a realização do terceiro leilão do hotel.

O primeiro ocorreu no dia 16 de dezembro de 2019. Na ocasião, a empresa amazonense 'Nyata - Soluções em Pagamentos' deu lance de R$ 120 milhões, mas não depositou a caução (garantia legal) de 5% de R$ 6 milhões, do valor estimado do hotel, avaliado em R$ 182,1 milhões.

O segundo leilão ocorreu no dia 11 de fevereiro deste ano. O maior lance foi do empresário Otacílio Soares de Lima, que não pagou o valor proposto de R$ 260 milhões.

Com desqualificação do vencedor, quem passou a ter o direito de arremate foi a paraense Geretepaua Engenharia, esta, de acordo com os autos da 4ª Vara Empresarial do TJ/RJ, “explicou que as alterações econômicas trazidas pela pandemia covid-19 tornou sua proposta insustentável”.

A terceira proposta era de duas empresas, a Nyata Serviços Financeiros Ltda - que já havia participado do primeiro certame - em parceria com a Agropecuária Brilhante Ltda. Estas, assim como o primeiro proponente, não honraram seu lance.

Falência

O hotel entrou em decadência a partir da falência do grupo Viação Aérea Rio-Grandense, mais conhecida como Varig, decretada em 2010. O pedido foi feito pelo próprio administrador e gestor judicial do grupo, Licks Associados, que alegou que a Varig não tinha condições de pagar suas dívidas.

Ainda que o grupo fosse provedor da rede Tropical de Hotéis, o ex-funcionário do setor financeiro, Gerson Almeida, 56, garante que a unidade em Manaus sempre foi sustentável.

O Tropical Manaus Hotel foi inaugurado no dia 26 de março de 1976 pelo então presidente Ernesto Geisel. Neste mesmo dia inaugurou também o Aeroporto Internacional de Manaus - Eduardo Gomes.  As duas obras foram criadas a fim de desenvolver a região Amazônica.

A estrutura do hotel passou por uma reforma em 1988 e hoje é composta por mais de 600 quartos, podendo abrigar, no mínimo, 1800 pessoas tranquilamente.

Personagem: Funcionário do Tropical, Antonio Carlos Alves Normando

Atualmente, os responsáveis por vigiar a massa falida do Tropical Hotel são dois funcionários que trabalharam na manutenção. Um deles é Antonio Carlos Alves Normando, 57, conhecido como Carlão. Ele lembra exatamente do dia em que começou a trabalhar no local. Era 18 de julho 1990, uma quarta-feira. “Nunca baixaram minha carteira, então ainda sou funcionário”, diz. Ele entrou como mecânico e, nos últimos dias de funcionamento do hotel, era supervisor de manutenção. Carlão vê com muita tristeza o não-funcionamento da estrutura hospitaleira. Ele não gosta que digam que o local está abandonado, porque de fato não está. Ele e o outro vigia, conhecido como “Parente”, trabalham todos os dias para manter a estrutura longe de invasores e pessoas que possa depredar a estrutura. Prova do cuidado dos vigias é a suíte presidencial onde se hospedou o príncipe Charles à época de sua vinda. Ele abriu este quarto para a equipe de A Crítica.

A suíte de fato se mantém intacta. Na entrada, uma sala de estar e jantar com móveis luxuosos. Teto e escadaria espelhados nos levam ao segundo andar, onde tem bar, escritório, a suíte principal, closet e uma varanda com piscina. Enquanto visitávamos o local, ele contou que Donna Summer gostava muito daquele apartamento. Carlão tem esperança de que o complexo hoteleiro volte à ativa e que os políticos se engajem mais em resgatar este patrimônio histórico. “Nossos políticos estão muito omissos sobre o hotel Tropical. A cidade de Manaus tem muito a agradecer a esta estrutura, mas ninguém (políticos) vem procurar saber como está”, desabafou.

Tempos de glamour e celebridades

Entre as décadas de 1960 e 1980, a Varig foi uma das maiores e mais conhecidas companhias aéreas privadas do mundo. Nos anos 1980 o Tropical Hotel em Manaus acompanhou a ‘Era de Ouro’ da Varig.

Neste período, 70% dos hóspedes eram turistas estrangeiros. A maioria deles vinha por meio do “Brazil Air Pass”, um pacote da Varig que reunia os grandes destinos nacionais: Rio de Janeiro (a porta de entrada); Paraná (por conta das Cataratas do Iguaçu); Amazonas e Bahia.

O glamour do hotel na Amazônia atraiu grandes hóspedes internacionais como americano e fundador da Microsoft Bill Gates, o príncipe de Gales Charles e a princesa Diana, o ex-presidente americano Bill Clinton, além de atores famosos como Susan Sarandon, Charlton Heston, Olivia Newton-John, Arnold Schwarzenegger, entre outras celebridades.

“Não era prepotência nossa, mas considerávamos VIPs apenas nomes internacionais, para você ter uma ideia do alto nível dos hóspedes”, conta Bello Silfran, que foi gerente habitacional do hotel. Em sua carreira no Tropical, ele chegou a atender no mínimo sete reis e uma dezena de chefes de estado.

Funcionários têm boas lembranças

Apesar das dívidas trabalhistas que hoje são reivindicadas na justiça, a grande maioria dos funcionários só tem elogios ao hotel. Quando estava no auge de seu funcionamento, a empresa investia muito na capacitação dos colaboradores, oferecendo cursos de idiomas como inglês, italiano e francês.

“Tudo o que tenho e sou hoje se devem ao trabalho no Tropical”, compartilhou o presidente do SindHotel, Gerson Almeida.

A alta capacitação dos funcionários e a estrutura luxuosa fizeram com que o hotel tivesse a certificação de cinco estrelas.

“Na realidade cinco estrelas somos nós, os hotéis podem estar cheios, com os melhores materiais, mas se não tiver o profissional de alto nível que sabe cativar o cliente, se não tiver experiência, de nada vai valer, não tem cinco estrelas”, ressaltou o ex-gerente habitacional, Bello Silfran.

Hoje só ficam as boas lembranças. “A gente espera receber o que nos devem, mas esperamos também que o hotel volte a funcionar”, compartilhou Ivan Azevedo, 53, que era encarregado pelo setor barista do hotel.

“Eu costumo dizer que aqui eu trabalhei, morei e casei… Até me emociono. Faz parte da nossa história”, disse Ivan com lágrimas nos olhos.

Repórter de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.