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Manaus
35 mortos

Um ano após ‘Fim de Semana Sangrento’, famílias de vítimas relembram chacina

Série de mortes ocorrida em julho ano passado ainda é motivo de insegurança para aqueles ligados às vítimas. Segundo secretário de segurança, maioria dos casos foram elucidados, porém 14 ainda estão em investigação 24/07/2016 às 05:00
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Martins Santos, lembra do irmão de criação de Rodrigo Anderson (vítima), e diz que está difícil morar próximo ao local do crime (Foto: Winnetou Almeida)
Kelly Melo Manaus (AM)

Mesmo tendo passado um ano da “chacina” que ensanguentou as ruas de Manaus, em julho de 2015, as lembranças da barbaridade ainda não foram superadas pelas famílias e vizinhos das vítimas. Nas ruas, a sensação de insegurança ainda é presente e forçou a maioria a mudar os seus hábitos por conta do medo que os assombra até hoje.

As ruas Nunes Cardoso e Sobrinho Maranhão, no bairro São Francisco, na Zona Sul, foram um dos palcos da tragédia. Na noite do dia 18, os primos Rodrigo Anderson de Carvalho, 26, e Paulo Nazareno de Souza Filho, 32, conversam na esquina, quando homens armados e em motocicletas chegaram e atiraram em direção deles. “Eles chegaram dizendo: ‘perdeu, perdeu’ e descarregaram as armas. Ouvimos muitos tiros e todo mundo ficou em pânico”, relatou a mãe de “Paulinho”, a dona de casa Neide Araújo, 56.

Com os olhos marejados, a dona de casa lembra de como o filho era carinhoso e trabalhador. Para ela, o trauma até hoje não foi superado. “Tenho de sair de casa a noite e até cogitei sair daqui e ir morar em outro lugar. Mas como a situação está difícil para pagar aluguel, acabei ficando por aqui mesmo”, contou ela que mora a poucos metros do local onde viu o filho ser assassinado.

O industriário Martins Pontes dos Santos, 39, primo e irmão de criação de Rodrigo Anderson, diz que é difícil continuar morando no mesmo endereço e afirma que mesmo assim, tem tentado levar a vida a diante. “Infelizmente a gente tem que encarar a realidade e continuar as nossas vidas. Mas o que nos revolta é saber que no meio dessas mortes, muitas pessoas morreram de graça como foi o caso do Rodrigo e do Paulinho. Ele não tinha envolvimento com crimes”, afirmou ele.

No início da semana, familiares e amigos das vítimas realizaram uma missa para homenagear Rodrigo e Paulo Nazareno.

Portas fechadas

A mesma sensação permeia na rotina de quem mora ou trabalha nas outras ruas em que pessoas, muitas delas inocentes, foram mortas naquele final de semana sangrento. A comerciante Lilian Silva, 50, afirma que, desde aquele dia, tem medo de manter a loja de portas abertas, na rua Gabriel Gonçalves, no Aleixo. O local também viu muito sangue derramado. “No dia seguinte, tinha muito sangue na calçada e eu tive que lavar. Fiquei muito assustada porque nunca imaginei ver uma situação dessas”, afirmou.

O sangue de que ela se refere era do dançarino Anderson Soares, que foi assassinado minutos depois de ter pedido algo para comer em uma lanchonete. “Ele era uma boa pessoa, não tinha problema com nada e é justamente por isso que a gente fica com medo e sem entender o que aconteceu”, reafirmou.

Segurança sob controle, mas ‘ainda não é o ideal’

Apesar do sentimento de impunidade e medo, para o Secretário de Segurança Pública, Sérgio Fontes, a segurança pública está sob controle, mas admite que ainda não no ideal. “As coisas não estão como deveriam estar, mas também não estão fora de controle. Às vezes essa sensação vem daquilo que a pessoas ouvem ou vêm na imprensa, ou nas redes sociais. Os nossos policiais tem muitas dificuldades, no entanto, eles cumprem muito bem o seu dever”, disse ele.

Ainda de acordo com secretário, a maioria dos casos foram elucidados após operação Alcateia, que prendeu policiais militares envolvidos em crimes de homicídios, e investigações realizadas pela Delegacia Especializadas em Homicídios e Sequestros (DEHS) e Distrito Interativos de Polícia (DIPs). No caso da DEHS, apenas cinco casos ainda estão sendo apurados, dos 14 que ficaram sob a responsabilidade dela.

“Não estamos escondendo nada das famílias ou da população. Mas é importante dizer que essas investigações estavam em segredo de justiça e só deu certo por causa disso”, salientou Fontes.

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