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Manaus
‘Consciência Negra’

Uma das mais antigas moradoras do Centro, Nazinha Spencer fala das dores da escravidão

Mais conhecida como ‘Nazinha’, a amazonense Maria de Nazaré Spencer, neta e filha de escravos barbadianos completou 91 anos de superação e coragem nesta terça-feira (1). 03/11/2016 às 09:31 - Atualizado em 04/11/2016 às 12:52
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Filhas, netas e bisnetas ao lado de 'Nazinha' no dia de seu aniversário (Foto: Márcio Silva)
Luana Carvalho Manaus (AM)

“Ainda existe muito racismo. Às vezes as crianças brincam na escola e brincando toda criança é rei. Mas quando brigam, começam os xingamentos: ‘esses negros’, ‘seus negrinhos’”, lembra Maria de Nazaré Spencer, mais conhecida como “Nazinha”, amazonense, neta e filha de escravos barbadianos. Ontem, quando iniciou o mês da Consciência Negra ela completou 91 anos de superação e coragem. “Eu tenho muita história para contar sobre minha vida”, respondeu antes de derramar lágrimas, mostrando no peito as marcas de queimaduras da infância.

Nazinha nasceu depois da abolição da escravidão, que no Amazonas aconteceu quatro anos antes da promulgação da Lei Áurea, em 1888, pela Princesa Isabel. No entanto, sentiu na pele e ainda sente, até hoje, o reflexo do racismo por causa da cor da pele. “Eu, quando era criança, fui criada como escrava. Eu comia numa cuia a sopa de osso. Tenho marcas. E tudo isso aqui em Manaus, nesta rua onde moro, a Frei José dos Inocentes”, relembra.

Nazinha foi criada por outras famílias e trabalhava para seringalistas desde criança. “É aquele negócio, meu pai me teve e abandonou minha mãe, negra e pobre. Não tínhamos nada. Por isso hoje para mim nada vale, o que eu cobro dos meus filhos, netos e bisnetos e de toda a juventude, é os estudos. A educação acima de tudo, que é pra saber dos nossos direitos”, afirmou.

Na infância, em uma época em que faltava pão, açúcar, carne e café, Nazinha dormia na fila das mercearias para comprar os insumos para os patrões e foi obrigada até a roubar carne. No entanto, hoje, conhecida como a rainha do bairro Aparecida, ela olha para o passado e diz que todo sacrifício valeu a pena.

“A vida continua. Faço parte da história do Amazonas e me valeu tudo. Hoje sou mãe de família, criei meus filhos lavando roupa para o Exército, vendendo peixe, miúdos, lavei muita roupa pra fora na praia de São Vicente, onde eu tive muitos amigos, hoje autoridades. Foram meus amigos que ajudaram muito na educação dos meus filhos”.

Desta forma ela criou 18 filhos, 20 netos, 48 bisnetos e agora aguarda mais um para compor a família. “Tive oportunidade de estudar, muito pouco, mas eu tive. No meu tempo, por ser pobre, eu não podia fazer, aí meus amigos fizeram uma cotinha para me preparar para primeira comunhão. Eu tive momentos de felicidade e graças a estes amigos pude dar educação aos meus filhos. Um dos meus filhos, inclusive, se formou em Medicina”.

'Dívida ainda não paga'

Mesmo depois de todo o sofrimento do passado, Nazinha, devota de Nossa Senhora Aparecida e a baiana mais antiga da escola de samba que leva o nome da santa, admite que ainda sofre preconceito. “Eu sinto o preconceito e racismo muito de perto. Muita gente usa a palavra negro da forma humilhante. Passaram-se tantos anos, mas na verdade, a dívida ainda é muito grande”.

Admiração de vizinhos e parentes

Na Frei José dos Inocentes, todos respeitam e admiram Nazinha. Uma das vizinhas, Aparecida Aguiar, 47, a quem ela carregou no colo, faz questão, todos os anos, de visitá-la no dia de seu aniversário “Ela é exemplo de superação, uma figura ilustre que merece todo o respeito do mundo”.

Aos filhos e netos, também ficou a admiração. “Minha vó é incrível e a história dela nos inspira todos os dias”, afirma a neta Suzana Lauana Spencer, 26.

 

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