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Manaus
MOBILIZAÇÃO

União de comunidade protege da poluição o único igarapé limpo de Manaus

Igarapé da Água Branca é considerado o único curso de água da capital que não foi atingido pela ação humana. Local recebe ações periódicas de conscientização e monitoramento 07/12/2018 às 19:38 - Atualizado em 08/12/2018 às 10:43
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Foto: Arquivo/AC
Karol Rocha Manaus (AM)

O Igarapé da Água Branca é considerado o último igarapé limpo existente na área urbana de Manaus e só mantém esse status graças a uma forte mobilização de vizinhos do curso d’água e da sociedade civil, que monitoram diariamente seus seis quilômetros de extensão, impedindo a entrada de agressores, além de promoverem ações periódicas de conscientização.

“Monitoramos todas as possíveis agressões que existem contra ele no que diz respeito a desmatamento. Sabemos tudo o que existe de ameaça, da nascente à foz, trecho que foi fotografado por satélite com o apoio do Sistema de Proteção da Amazônia”, explica o morador Jó Fernandes Farah, que também é presidente da organização não governamental (ONG) Mata Viva, que monitora as margens do igarapé com o apoio dos moradores desde o início dos anos 2000.

Para sustentar o título de último igarapé limpo da área urbana da capital, Jó Farah cita a pureza das águas, com a existência de organismos que só sobrevivem em ambientes completamente limpos.  “Nas águas do igarapé, temos camarão. Esse crustáceo só vive em áreas muito bem oxigenadas. E também há piabas nas águas. É impossível a existência delas em águas sujas”, afirma.

A Secretaria Municipal de Meio Ambiente e Sustentabilidade (Semmas) informou que não coleta amostras da água para a verificação de balneabilidade, uma vez que “o Água Branca é um igarapé que não tem esse tipo de uso, razão pela qual dispensa a realização das análises”.

O igarapé fica localizado em uma Área de Preservação Permanente (APP), tendo sua nascente nas matas do Aeroporto Internacional Eduardo Gomes. Ele deságua no igarapé Cachoeira Alta do Tarumã, que por sua vez deságua no Tarumã-Açu.

É preciso ter autorização para chegar lá. Para ter acesso ao leito do igarapé, que fica em uma área de preservação, na bacia do Tarumã, é necessário entrar em contato prévio com a organização – tudo para preservar o local e manter a pureza das águas.

“A visitação é liberada desde que seja feito um aviso prévio. Não podem vir mais de 15 pessoas por vez. Nós agendamos o dia de visita”, ressalta Jó Fernandes, acrescentando que os contatos podem ser feitos através de página oficial da ONG da Mata Viva no Facebook. 

“As mobilizações geralmente acontecem através da nossa rede social. É lá que publicamos e divulgamos tudo o que acontece no entorno do igarapé, as visitas, os animais que lá aparecem. Com isso, temos conquistado amigos e pessoas interessadas no cuidado ao meio ambiente”, afirma o morador.

Poluição denunciada

Por conta de um vazamento de óleo no igarapé, em 2017, a Polícia Civil indiciou um empresário e a associação de moradores de um residencial. A área mais afetada foi onde o igarapé deságua, um igapó.  A água contaminada não chegou às nascentes.

Projeto

Como forma de conscientizar a população para conservação do lugar, a Universidade Federal do Amazonas (Ufam) em parceria com Sistema de Proteção da Amazônia (Sipam) e ONG Mata Viva desenvolveu ontem uma atividade voltada a professores e alunos de escolas municipais da capital.

A ação, que contemplou a visita in-loco dos alunos da Escola Profº Pedro Diogo dos Santos Roque ao igarapé da Água Branca, é a continuidade de uma pesquisa orientada pela docente do Departamento de Geociências da Ufam Solange dos Santos.

“O projeto faz parte da continuação de uma pesquisa acadêmica que teve início em 2013, a partir de um trabalho de Iniciação Científica desenvolvido pelo Centro Regional de Manaus do Sipam. Na época foi feita a delimitação da APP do Igarapé Água Branca, autoria da aluna Randielly Soares. Em 2015, orientei a mesma aluna com foco na análise de imagens de satélite para verificar o grau de antropização (área modificada pelo homem) da área. Isso foi feito quando eu ainda atuava no Sipam”, disse.

Estímulos

A professora Solange dos Santos resolveu dar continuidade à pesquisa, agora, após se tornar docente da Ufam. De acordo com ela,  o projeto   estimula a conscientização ambiental nos alunos. “Através de visita guiada, apresento a eles o tipo de solo padrão de drenagem e aspectos geomorfológicos”, explica.

Solange acredita que, dessa forma, os alunos terão a possibilidade de observar in loco uma área ainda preservada. 

“Esses alunos são residentes dessa região, logo, se conseguirmos inserir pequenas mudanças de hábitos, como descarte de lixo no local correto, preservação da mata ciliar será um ganho e eles se tornarão multiplicadores dessas altitudes na área onde vivem”.  

 Participaram da ação de ontem, alunos entre 10 e 13 anos de idade. “Recebemos o projeto de braços aberto. Acredito que para eles, moradores dessas áreas, mostrar que ainda existe um igarapé limpo em Manaus e como devem cuidar e passar esse cuidado adiante é essencial para os alunos”, disse a diretora da escola municipal, Naomi Hattori.

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