Segunda-feira, 17 de Maio de 2021
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Vacinas para empresas do Polo Industrial de Manaus esbarram na escassez

Empresariado amazonense diverge sobre compra de vacinas para os funcionários, após autorização da Câmara Federal



DIVULGACAO-2-8_2AF1F5A5-3255-4210-8972-DD744A9C1B47.jpeg Foto: Reprodução/Internet
12/04/2021 às 09:21

Apesar da pressão de empresários por uma vacinação própria fora do Programa Nacional de Imunizações (PNI) que, inclusive, conta com o apoio dos presidentes da Câmara dos Deputados e Senado, fábricas do Polo Industrial de Manaus (PIM) enfrentam dificuldades na negociação direta com os laboratórios produtores de vacinas anti covid-19.

Desde janeiro, quando A CRÍTICA reportou uma movimentação do presidente da Federação das Indústrias do Estado do Amazonas (FIEAM), Antônio Silva, que chegou a anunciar contato com o laboratório americano Pfizer para a compra de cerca de 300 mil doses do imunizante, as negociações congelaram.



À época, conforme Silva, a negociação era liderada pela Confederação Nacional das Indústrias (CNI) e pela própria FIEAM. Silva mencionou que a Associação Brasileira dos Fabricantes de Motocicletas, Ciclomotores, Motonetas, Bicicletas e Similares (Abraciclo) e a Associação Brasileira de Fabricantes de Produtos Eletrônicos e Eletrodomésticos (Eletros) também estavam envolvidas na tratativa.

‘Não liderou’

Após a repercussão da declaração do presidente da FIEAM, a Abraciclo emitiu uma nota informando que a associação não lidera e nem liderou nenhuma negociação para a compra de vacinas contra o novo coronavírus. Nenhuma das fabricantes de vacinas contra a covid-19 aprovadas no Brasil planeja negociar a venda do produto para o setor privado. As farmacêuticas Pfizer, Janssen, AstraZeneca, Fiocruz e o Instituto Butantan destacam que têm contratos com o governo federal e priorizam o fornecimento de imunizantes contra o novo coronavírus para o setor público.

O diretor executivo da Associação Pan-Amazônia, entidade empresarial que possui 58 associados do comércio e da indústria local, Belisário Arce, afirmou que nenhum parceiro da Pan-Amazônia está negociando vacinas diretamente com laboratórios fabricantes, mas há duas vertentes no empresariado amazonense.

“Há aqueles empresários que realmente querem comprar para ajudar o esforço do governo. Mas há outros empresários com quem já conversei que eles acham que o correto é realmente ter uma fila única”, disse.

Arce declarou que não tem nenhuma informação concreta sobre movimentos de parceiros da entidade para obtenção dos imunizantes. No entanto, ele afirmou que conversou com uma grande empresa parceira da Pan Amazônia do ramo de saúde, que comentou que dada a grande demanda mundial nenhum laboratório produtor de vacina iria vender para entes privados, “com exceção da Sputnik V que havia previsão de compra pelo setor privado”.

O presidente do Sindicato dos Metalúrgicos Waldemir Santana disse que o próprio sindicato e o presidente do Centro das Indústrias do Estado do Amazonas (CIEAM), Wilson Périco, pretendiam obter vacinas necessárias para vacinar todo o pessoal que possuir plano de saúde do ramo da indústria. O quantitativo de vacinas, segundo Waldemir, seria na casa de 2 milhões de imunizantes, que metade seria doado ao Sistema Único de Saúde. De acordo com Santana, a iniciativa não se consolidou. Wilson Périco respondeu que o CIEAM apoiou o movimento do FIEAM noticiado por A CRÍTICA, mas “não progrediu”.

Na terça-feira, 6, a Câmara dos Deputados aprovou um projeto de lei que permite a compra dos imunizantes pela iniciativa privada. A proposta - que prevê a aquisição até de vacinas que não tenham aval da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) - ainda precisa passar pelo Senado e pela sanção presidencial.

A mudança libera a compra mesmo sem o consentimento da Anvisa, que faz análises próprias sobre segurança e eficácia de vacinas, ainda que elas já tenham sido aprovadas em outros países. Sob forte lobby de empresários e com apoio do presidente da Câmara, Arthur Lira, o texto anterior previa que a iniciativa privada pode comprar vacinas.

Empregados

Levantamento do Sebrae Nacional mostra que pequenas empresas concentram mais da metade (54%) da mão de obra formal no país. A Pnad Contínua do IBGE estima que, numa força de trabalho de 100,2 milhões de brasileiros, apenas 29,7 milhões são empregados com carteira assinada, 12 milhões estão no setor público.

‘Não traz grande efeito sob epidemia’

Para o epidemiologista da Fiocruz Amazônia, mestre em saúde pública, Jesem Orellana, a vacinação dos trabalhadores do Polo Industrial de Manaus não representa “quase nada” e que só seria interessante caso os familiares destes trabalhadores também fossem imunizados.

Jesem explica que a vacina só funciona se for popularizada, alcançando ao menos 70% do contingente populacional do Brasil. Enquanto, pondera Orellana, a vacinação priorizar apenas grupos de risco, a desigualdade vai ser aprofundada mantendo o círculo de infecção alto, atualmente registrado no país.

 "No controle da epidemia vacinar meia dúzia de pessoas não faz muita diferença", salientou. Ele destaca que a sinalização dos empresários de vacinar a massa trabalhadora a fim de retomar a produção de forma mais rápida, favorece apenas um grupo pequeno de trabalhadores, excluindo trabalhadores autônomos e ambulantes.

“Sem essa vacinação também levasse em conta os parentes dos trabalhadores custeado pela empresa, continuaria não resolvendo o problema, mas já se teria várias pessoas do mesmo domicílio protegidas contra formas mais graves e o óbito”, analisou.

Vacinação do PIM alcançaria só 2,3%

De acordo com dados da Superintendência da Zona Franca de Manaus (Suframa), no ano passado, o modelo registrou 100.512 trabalhadores, entre efetivos, temporários e terceirizados. Se todos esses trabalhadores estivessem vacinados, eles representariam apenas 2,3% da população do Amazonas, de 4,2 milhões de habitantes.

Se apenas a população de Manaus, que enfrentou dois picos de colapso no sistema de saúde e funerário, fosse considerada, o percentual aumentaria para 4,5%. O município de Manaus tem uma população estimada de 2,2 milhões, segundo Instituto Brasileiro de Geografia e Estáticas (IBGE).

Os dados do painel de vacinação covid-19 da Fundação de Vigilância em Saúde (FVS-AM) mostram que 641,6 mil doses foram aplicadas no Amazonas. 486,6 mil da primeira dose e 154,9 mil  doses da segunda aplicação. Todas as vacinas aprovadas no Brasil são aplicadas em duas fases. 15,2% da população do estado já recebeu alguma dose do imunizante. Enquanto que 11,5% foi imunizado com uma dose de uma das vacinas aprovadas pela Anvisa. O percentual de aplicação da segunda dose é de 3,6%. O Amazonas recebeu mais 53.750 doses de vacinas contra a Covid-19 na madrugada desta sexta-feira, 9, enviadas pelo Ministério da Saúde.


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