Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
AJUDA

Venezuelanos: semáforos e pedidos de emprego são estratégias de sobrevivência

Pegando chuva e sol, refugiados do país vizinho apelam para a compaixão em busca de novas oportunidades e de uma esperança de vida diferente para 2019



31/12/2018 às 16:29

Ninguém sabe a origem da ideia. Nem quem deu o pontapé inicial ou quem escreveu primeiro no pedaço de papelão e levou para o semáforo com uma mensagem pedindo ajuda. O instinto e necessidade de sobrevivência  dos imigrantes venezuelanos não permitem a descoberta. O que se sabe é que essa tem sido a melhor forma de não passar fome e a única maneira de renovar as esperanças para o ano que se inicia.

O que começou pequeno, com um ou outro caso vistos em pontos diferentes da cidade, tem ocupado as ruas de Manaus. Um dos principais pontos é o semáforo na Avenida das Torres, Zona Norte de Manaus, antes da saída para o Coroado e Avenida Ephigênio Salles. Todos os dias, um grupo de pelo menos 30 imigrantes se posiciona no local. A concentração na área acontece porque muitos que já deixaram a Casa de Acolhida, que recebe e abriga imigrantes na capital nas proximidades dali.

São pedidos de emprego, de ajuda com dinheiro, um trabalho qualquer e até mensagem sobre família. Qualquer coisa que chame atenção, que atraia o olhar de quem passa nos carros. “Nós, pais de família, não podemos deixar os filhos esperando. A gente tem que ir para rua procurar e é por isso que estamos aqu”, desabafa o venezuelano Yosmán Marquez, 24 anos, que há dois meses sustenta mulher e dois filhos com o que consegue no semáforo.

Diárias em obras, ajuda em frete, limpeza de terreno e diária de faxina. Qualquer oportunidade é bem-vinda. O problema é que a necessidade obriga, inclusive, a aceitar a exploração sem ter a quem reclamar. “Tem muita gente que nos ajuda e somos gratos. Mas tem muitas pessoas ruins também. Em todo lugar do mundo tem pessoas ruins. As pessoas querem se aproveitar do trabalho porque você está necessitando”, conta Yosman, que disse já ter trabalhado pesado em uma obra por dois dias e ter recebido R$ 20 por diária.

É verdade que ninguém é obrigado a ajudar. “Vai do coração da pessoa, se ela pode ajudar, nós somos gratos”, fala Yosman que também tenta, com a ajuda de um colega, vender bananas com o sinal vermelho.

Destino

Manaus tem sido o principal destino de venezuelanos nos últimos dois anos. Da onda migratória mais recente por aqui, as autoridades relatam a entrada de mais de 176 mil venezuelanos entre 2017 e 2018. Aproximadamente 90 mil saíram, indicando que cerca de 85 mil permanecem no Brasil. De acordo com a Polícia Federal, cerca de 65 mil venezuelanos já solicitaram o reconhecimento da condição de refugiado no Brasil, sendo oito mil solicitações registradas em Manaus.

As dificuldades no país que enfrenta uma grave crise econômica, trazem histórias de mulheres como Emily Pacheco, 28, que há três semanas chegou a Manaus na esperança de conseguir melhorar de vida. No país de origem, Emily era vendedora. Agora, é mais uma entre as muitas mães que se espalham pelos semáforos em busca do sustento dos filhos. “É uma realidade que a gente não esperava, mas nós queremos trabalhar e aqui é a maneira mais rápida e fácil de conseguir”, conta.

Para ela é uma questão de tempo até conseguir um trabalho que seja suficiente para se manter na capital e ajudar a família que ainda está no país de origem.  “Nós seguimos confiando e tentando acreditar que em algum momento vamos conseguir nos estabilizar. Está dificil para todos, venezuelanos e brasileiros. Mas vamos conseguir”.

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