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Manaus
REFUGIADA

Vidas Anônimas: Haitiana passa por cima de preconceito e abre restaurante em Manaus

Conheça a trajetória da refugiada Gloriane Aimable, de 35 anos, que chegou na capital após o Haiti ser atingido por um terremoto de magnitude 7,0 16/03/2018 às 12:16
Show negra
A haitiana passou por cima de muito preconceito para conquistar tudo que possui na capital (Fotos: Raine Luiz)
Amanda Guimarães Manaus (AM)

A refugiada Gloriane Aimable Antoine enfrentou um dos momentos mais difíceis da sua vida quando um terremoto de magnitude 7,0, na escala Richter, atingiu o Haiti no ano de 2010. A partir da catástrofe, o país que é considerado o mais pobre da América Latina, começou a enfrentar outros problemas sociais e econômicos. Com saudades da mãe e em busca de encontrar um 'escape' para a fase ruim, a mulher decidiu visitar o Brasil. Já em solo brasileiro, a haitiana de 35 anos encontrou trabalho, mas também precisou passar por cima de vários tipos de preconceito para empreender na capital.

Eram 14h de uma tarde ensolarada na capital amazonense quando chegamos em frente ao pequeno restaurante 'Guloseimas da Gloriane', de propriedade da haitiana, localizado na rua Juvenal Tavares, próximo ao Terminal 4, no bairro Novo Aleixo, na Zona Norte de Manaus. Antes de sair do veículo, avistei Gloriane, que estava sentada em uma das mesas do estabelecimento ao lado de um garoto. 

Quando sai do carro comecei a arrumar meu caderno de anotações e percebi que ela olhava em minha direção, com um sorriso no rosto. Ela reconheceu a marca de A CRÍTICA e imaginou que seria entrevistada. E partiu dela o primeiro contato. Ela nos deu boa tarde e logo fomos em direção ao restaurante. 

O teto do local é montado por uma lona, enquanto mesas e cadeiras de aço ocupam o estabelecimento de cerca de quatro metros quadrados.

Curiosa, logo ela quis saber como ficamos sabendo de sua história. Naquele momento, já depois das 14h, ela ainda almoçava um prato de  arroz, feijão, salada e um frango guisado. O sobrinho fazia companhia para a haitiana, mas estava aproveitando aquele momento para estudar, pois lia atentamente um livro.

Gloriane queria interromper a refeição para nos dar atenção. 

— Não, pode almoçar. A gente espera. — falei, percebendo que Gloriane tinha se levantado e estava se encaminhado para a cozinha para guardar o prato de comida.

— Eu já terminei. Fique tranquila...

Observei que o prato de Gloriane continuava parcialmente cheio, por isso decidi insistir para que ela continuasse fazendo a refeição.

Não deu certo. Ela seguiu pra cozinha para guardar o prato e sequer me ouviu quando insisti que ela terminasse o almoço. 

Enquanto aguardava o retorno dela, decidi puxar assunto com o sobrinho da haitiana que continuava lendo o livro. Ele aparentemente tinha 13 anos, era moreno e tinha olhos escuros. O adolescente estava vestido com uma roupa simples, como um calção cinza e uma camiseta.

— Ela realmente acabou de almoçar... come só aquilo? — perguntei para o garoto, sentando ao seu lado.

— Sim. Ela come só isso mesmo. É porque às vezes coloca demais e não come — disse o garoto se levantando da cadeira e fechando o livro.

Enquanto esperava Gloriane voltar da cozinha, percebi que o restaurante fica localizado em uma área de comércio, próximo a um ponto de mototáxis, farmácias e até do shopping municipal T4.

— Agora estou aqui... Vocês querem uma água ou uma coca? — falou a haitiana, que já estava ao meu lado estendendo o braço.

— Não, muito obrigada. Tá tudo ótimo.

—  Tudo bem.... —  disse a mulher, sentando na cadeira.

— Nós somos do Jornal A Crítica.

—  Ah sim. Sempre acompanho vocês.

Chegada em Manaus

No dia da entrevista, Gloriane estava vestida com um vestido colorido, além de utilizar uma touca de cozinha e um avental com estampas florais. Ela era muito sorridente e utilizava um aparelho ortodôntico nos dentes superiores.

— Você chegou quando em Manaus? — perguntei para a haitiana.

— Estou aqui em Manaus há cinco anos. Cheguei em Julho de 2012  — respondeu a mulher, gesticulando as mãos.

—  Você veio depois do terremoto?

— Sim, vim para visitar minha mãe, que já estava aqui. Ficamos quase 2 anos sem nos ver.

— Como era sua vida antes do terremoto?

— Nós nunca fomos ricos, mas vivíamos de uma forma muito boa. —  disse a haitiana, com dificuldade de pronunciar algumas palavras em português, mas continuando a responder a pergunta — Depois do terremoto o meu país quebrou, as pessoas ficaram angustiadas e com medo. Precisei deixar a minha cidade e tudo foi ficando difícil.

Terremoto

O terremoto atingiu o Haiti no dia 12 de janeiro de 2010, provocando o desabamento de diversos edifícios, entre eles o palácio presidencial da capital Porto Príncipe. Conforme estimativa do Serviço Geológico dos Estados Unidos, 250 mil pessoas foram feridas, 1,5 milhão de habitantes ficaram desabrigados e o número de mortos ultrapassou 200 mil.

— Onde você estava no dia que o terremoto atingiu o Haiti?

— Eu estava trabalhando. Lembro que fui trabalhar, mesmo estando de folga. Acabou o serviço e encontrei minha mãe na feira. Peguei um veículo, tipo um caminhão baú, que estava cheio de arroz e feijão. No caminho, começamos a ouvir os gritos. Não sabíamos que era um terremoto.

Gloriane conta que chegou a escutar o tremor e ver casas sendo destruídas no caminho até a sua residência. 

— Como foi para você ver tudo isso? —  perguntei.

— Nossa. Foi muito difícil... No meio do caminho vi pessoas sem roupas e crianças desesperadas. Casas estavam quebrando. O carro balançava muito e ficamos muito assustados. Mas conseguimos chegar em casa...

— O que você viu quando chegou?

— Meus filhos tinham ficado sozinhos em casa, e estava muito preocupada com eles. Graças a Deus, quando cheguei eles estavam bem. Minha casa também. Uma vizinha nossa morreu soterrada. Perdi parentes também, até hoje não sabemos onde estão os corpos. Foi um momento muito complicado para o meu país.

Decisão de morar em Manaus

A haitiana desembarcou em Manaus com o objetivo de apenas passar férias na cidade. Não passava em sua cabeça, que poderia aceitar uma proposta de trabalho e permanecer no país sem a companhia do esposo e três filhos.

— Quando cheguei na casa da minha mãe, ela me convidou para ficar em Manaus. Achei a ideia muito boa, porque tinha um desejo de trabalhar como empregada doméstica e já tinha recebido um convite. Eu não tenho preconceito nenhum com essa área. Precisamos aceitar a vida do jeito que ela é.

— A sua mãe sempre morou em Manaus?

— Ela morou um tempo no Haiti, mas depois se mudou para cá. Ela ama tudo isso. Parece que a primeira coisa que ela comeu foi jaraqui — disse a mulher, aos risos, mas continuando a falar que decidiu ficar no Brasil por buscar melhor qualidade de vida.

— Ela (mãe) me ofereceu escola e saúde de graça. Achei isso aqui bem melhor, porque os meus filhos cresceriam com qualidade de vida — completou a haitiana.

Primeiro trabalho no Brasil e saudade

No Haiti, Gloriane trabalhou como bibliotecária e professora. Mas em Manaus decidiu começar a construir seus sonhos utilizando o salário de empregada doméstica. Ela começou a trabalhar já no terceiro dia que chegou em Manaus. 

Mas nem tudo foi alegria nesse período. Ela sofreu longe dos filhos e do marido.

— Meus filhos ficaram 15 meses sem me ver. O meu esposo cuidou deles durante esse período, e eu mandava dinheiro. Do nada, a minha patroa disse que compraria as passagens e traria meus filhos para morar comigo.

A haitiana lembra que ficou muito feliz com a proposta da chefe, mas quando os documentos das crianças ficaram prontos, a mulher acabou desistindo da promessa. Mas a refugiada não desistiu de trazer os filhos para Manaus. 

— Quando ela desistiu foi muito difícil... Mas resolvi trabalhar em dupla jornada para conseguir o dinheiro.

Renda e banca

A refugiada teve a ideia de fazer biscoitos de baunilha para vender nas ruas de Manaus. Em três meses, Gloriane conta que arrecadou R$ 4.500 e comprou as passagens da família em um cartão de crédito de um padre.

— Com a chegada da minha família aqui, precisei trabalhar ainda mais. Nessa época sai da casa da patroa (chefe da casa) e comecei a fazer cursos profissionais.

— Como resolveu montar a banca? — perguntei, percebendo que outro garoto haitiano tinha acabado de chegar no restaurante. Ele é filho dela. Os outros dois estavam na escola. 

—Estava voltando do curso no Sebrae e passei no ônibus aqui em frente. Naquele momento senti que aqui é um lugar de comércio.

Ela lembra o dia em que esteve lá pela primeira vez.

— No dia das crianças de 2016 decidi visitar este local. No caminho encontrei um rapaz que me explicou que se eu procurasse o Sebrae e a Afeam a área seria minha. Sai daqui naquele dia dizendo que esse local era meu, porque Deus tinha falado comigo. — completou a refugiada.

No início, a haitiana começou a fritar e vender banana frita no local. Como viu que o produto não estava dando retorno, decidiu apostar em quentinhas. Hoje, ela oferece café da manhã, almoço e salgados em geral para os clientes. Em média, a renda dela por dia é de R$ 300.

— Depois de procurar os órgãos responsáveis consegui este local. Aí começamos a montar tudo do jeito que queria, durante esse período recebi muitas doações.

— Mas já vejo um grande restaurante...— comentei. Naquele momento percebi a existência de alguns tijolos entulhados ao nosso lado. 

— Isso mesmo. Quero continuar construindo e fazer uma inauguração. — relatou a mulher, com bastante empolgação.

Preconceito e fé

Quando o assunto é o preconceito que enfrentou quando chegou no Brasil, a haitiana fica muito desconfortável em citar os casos. Ela relata que se não fosse a fé em Deus, não teria conseguindo enfrentar o racismo, xenofobia e machismo.

— As pessoas olhavam para mim e perguntavam se eu era haitiana. Me olhavam com uma cara feia. Tinham medo de comprar a comida. Eles abriam o isopor, para sentir o cheiro do alimento.

— Você sentia que as pessoas te olhavam dessa forma ruim, só pelo fato de ser negra e mulher?

— Eu sentia muito isso. Algumas pessoas me perseguiram muito. Sentia que era preconceito...

— Você se apegou em Deus durante esse momento?

— Muito. Sem Deus não seria nada. Todas as vezes que as minhas forças se acabaram por conta do preconceito, encontrei em Deus um sustento. Eu poderia ter entrado em depressão ou ter feito uma besteira, caso não tivesse Ele.

— Você é Cristã? — perguntei, ao perceber que a haitiana começava a ficar emocionada

— Sou de Jesus Cristo. Minha mãe é católica e meu pai é macumbeiro, mas conheci o Evangelho!

Desejo de morar em Manaus

Mesmo relatando casos de preconceito que precisou enfrentar no Brasil, a refugiada afirma que sente um amor imenso pelos brasileiros. Ela também comenta que sente falta do país que nasceu apenas quando fala o idioma crioulo.

— Muitos brasileiros me receberam super bem. Para mim, este povo são anjos, porque são sensíveis e estão com os corações abertos para nos ouvir. Claro que existem pessoas ruins.

— Já que você gosta muito do Brasil, pretende morar aqui para sempre né?

— Quando trouxe minha família para cá, naquele momento tomei uma decisão que não sairia mais do Brasil. Até porque, não posso morar em duas casas. Se a minha família vive comigo, tá tudo certo.

O desejo da mulher é trazer o restante da família para Manaus. Atualmente ela mora com um sobrinho, três filhos e o esposo em um casa no loteamento Fazendinha, na Zona Norte de Manaus.

Empoderamento

— Você já passou por tanta coisa na vida e demonstra uma força sem tamanho como mulher..... 

— Sim, Amadaaaaan  (era assim que ela pronunciava meu nome, com um sotaque característico). É porque tenho orgulho de ser uma mulher negra e que nasceu em um país pobre. — disse Gloriane, demostrando muita conviccção em cada palavra dita. 

— Você representa a mulherada muito bem. Como se sente com isso?

— Fico muito feliz. Porque aprendi durante a minha vida que não só o homem precisa trabalhar, mas a mulher também. Tenho orgulho de ser mulher, uma mulher braba, orgulhosa, trabalhadora e que tem história. A minha vida não é um livro, mas sim uma biblioteca de história. — falou a refugiada, novamente aos risos. 

Quando estava concluindo a entrevista, o esposo de Gloriane chegou ao local. Eles logo se abraçaram e trocaram outros carinhos. E eu precisei me despedir de Gloriane, cuja história foi um prazer contar aqui. Mas se depender dela, esse não foi o nosso único contato. 

— Até a próxima! Mas fala comigo lá no Facebook — completou ela, rindo e seguindo com a família para a cozinha. Naquele momento, um novo turno da jornada de luta e de busca pelos sonhos começava. 

 

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