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Manaus
FORÇA!

Vidas anônimas: Homem se veste de herói para trabalhar no Centro de Manaus

Conheça a história do colombiano Cristian Mauricio, de 30 anos, que se veste de "Spider Man" para trabalhar como acrobata no Centro de Manaus 09/02/2018 às 08:00
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O rapaz tem o sonho de estudar e construir uma vida em Manaus, para depois trazer os filhos para morar com ele (Fotos: Winnetou Almeida)
Amanda Guimarães Manaus (AM)

Os super heróis dos quadrinhos e até das telonas são aqueles que se dedicam na realização de atos em prol do interesse público. Vestidos de trajes com cores fortes, os "personagens fictícios" dominam o coração de milhares de telespectadores combatendo o crime e evitando que grandes guerras aconteçam. No entanto, a ficção se transforma a realidade quando pessoas comuns se levantam todos os dias para "batalhar" e são exemplos de força e poder. Este conceito de heroísmo é defendido pelo colombiano Cristian Mauricio, de 30 anos, que se veste de "Spider Man" para trabalhar como acrobata no Centro de Manaus.

No dia que fomos conhecer Cristian, estacionamos o carro da reportagem na Avenida Getúlio Vargas, no sentido bairro/Centro. Era quase meio-dia, de uma quinta-feira, o céu de Manaus estava nublado, quando avistamos de longe um rapaz enrolado em um tecido fazendo diversas cambalhotas.

Fomos na direção do homem, que continuava se balançando no tecido azul, de aproximadamente 4 metros de comprimento. O sinal da Avenida 10 de Julho estava fechado. Ao me aproximar, não consegui ver seu rosto, pois o rapaz tinha aceito de vez o personagem e estava totalmente fantasiado com as cores vermelho, branco e azul.

Por um minuto, parei de olhar atentamente para ele e percebi as reações diversas das pessoas que passavam por ali. Estudantes que tinham acabado de sair de escolas tradicionais do Centro da cidade registravam com celulares os movimentos do homem. Os motoristas abaixavam os vidros dos veículos e sorriam para "quem" estavam vendo. Cristian não é de fato o "Peter Parker", mas é uma sensação entre os amazonenses.

Segundos depois, ele veio em minha direção e decidi puxar assunto:

— Oi? — perguntei com um sorriso no rosto.

— Oi, tudo bueno? — disse Cristian, com um sotaque espanhol e apontando para o sinal que estava fechado. Ele queria aproveitar o momento de "rush" para aumentar a sua renda diária.

 

— Depois nos falamos, então. — falei, pois não queria atrapalhar o trabalho dele naquele dia.

Esperei cerca de dois minutos até que ele viesse novamente na minha direção. Durante esse tempo um rapaz passou por ele e saudou o "homem aranha" como nos filmes e quadrinhos: "Vai homem aranha! Vai homem aranha", disse ele. Naquele mesmo momento, um menino de aparentemente cinco anos, passou pela faixa de pedestre dando três pulinhos e fazendo sinais com as mãos 'atirando a teia', um gesto característico do Spider Man.

— Olá, tudo bom? — disse eu, ao notar que o homem estava ao meu lado e pronto para começar a entrevista.

— Olá, mujer, como estás? —  perguntou ele com um sorriso simpático e falando sem que desse tempo de eu conseguir responder.  — Sou Cristian.

Para falar comigo de forma atenciosa, o rapaz tirou a máscara da fantasia. Só então consegui ver as características faciais dele. Cristian é moreno, tem olhos escuros,e muito simpático.

— Amanda, do Jornal A Crítica. — me apresentei. Enquanto falava escutei ele repetindo meu nome com um sotaque espanhol. — Amaadãn.

— Toparia conversar com a gente?

— Como? — disse ele, com uma cara de não entender o que tinha acabado de lhe perguntar.

— Poderia hablar com a gente? —  usei meu pouco conhecimento da língua espanhola.

—  Sim, posso. Mas não falo muito português.

— Sou de um jornal daqui de Manaus. — falei novamente em espanhol.

— Muito prazer.

— Como começou a trabalhar aqui? — continuamos a conversa no idioma latino-americano

—  Eu trabalhava fazendo circo em toda a Colômbia, no Equador, Peru e Bolívia. Me faltava conhecer o Brasil. Então, fui visitar a minha família em Bogotá. Peguei um avião para Letícia e depois um barco para Manaus. Aqui me disfarcei primeiro de Batman, agora sou Spider Man — comentou o rapaz, aos risos.

Cristian estava muito suado. Era possível perceber que dentro daquela fantasia fazia muito calor. O rapaz enxugava com uma toalha os pingos de suor que insistiam em cair do seu rosto.

—  Então, primeiro você foi o Batman? Como aprendeu tudo isso? — perguntei, apontando para o tecido que estava amarrado na árvore para não atrapalhar a passagem dos carros.

— Trabalho no circo desde que tinha 10 anos. Sou acrobata aéreo. Uso a tela e o trapézio. Ai nasceu o Spider Man.

Durante a nossa conversa, o rapaz relatou que já chegou a cair fazendo manobras com o pano. Uma dessas vezes teve uma luxação na clavícula e precisou passar um tempo afastado.

—  Você não tem medo de cair?  

—  Não, não. Aqui o trabalho é até fácil. Eu faço muitas coisas perigosas, mas aqui não posso fazer, porque não há espaço. — explicou novamente Cristian, com um sorriso no rosto. Naquela hora fomos interrompidos pelas buzinas do carro.

Ganho diário

Toda vez que começava o número na frente dos carros, Cristian fazia uma saudação para alegrar o público. Em alguns momentos ele dava socos com as mãos para cima, em outros desejava uma Boa Tarde para os motoristas em espanhol.

—  Como é que o público tem recebido seu trabalho? — perguntei novamente.

— Bem. — disse ele, olhando para os carros, mas continuando a responder a pergunta — Eu trabalho pelos meus filhos. Tenho filhos em Bogotá. Trabalho duro e algumas pessoas me apoiam de todos os seus corações. Gostam muito e aproveitam. — falou Cristian, pegando na mão o tecido e enrolando.

Cristian conta que ganha por dia uma média de R$ 100. Os números podem ser considerados altos, mas segundo ele, não são suficientes para pagar as despesas em Manaus e ajudar os filhos que residem atualmente na Colômbia. O desejo do "aranha" é trazer o filho de 2 anos para morar com ele, mas isso só poderá ser realizado quando a vida dele estiver estabelecida na capital amazonense.

—  Quanto você recebe? —  perguntei, ao perceber que Cristian guardava o dinheiro que conseguia no sinal em uma mochila preta que ficava no chão e encostada na árvore.

—  O meu trabalho depende do dia, da chuva e de como meu corpo amanhece. No mínimo R$ 100, consigo. Quando está ruim, uns R$ 50. —  respondeu Cristian, com um tom cansativo, mas prosseguindo com a nossa conversa.  — Mas tenho que pagar um hotel todos os dias. Tenho que comer.

— Valor muito bom, não?

— Sim, mas depende muito do dia. As vezes não trabalho durante um dia, porque fico muito cansado. Quando me lesiono não tenho médico.

Conhecer o Brasil

Assim que terminou de responder, Cristian pediu um minuto para continuar com o seu trabalho. Dessa vez fiquei surpresa com os saltos do Spider Man. Vi movimentos perigosos, pois em um deles o rapaz colocava o tecido nas pernas e as cabeças para baixo.

—  Como tem sido para você morar aqui? — indaguei, após ele retomar a conversa.

—   Tem sido um pouco difícil. Mas Manaus me encanta —  disse Cristian, se dirigindo para frente dos carros.

—  Você que fez a fantasia?

—  Sim. Faço um molde com a cartolina e recorto. Depois corto o tecido e costuro tudo com uma máquina.

O sinal fechou e Cristian se dirigiu para mais uma vez pular na frente dos carros. Ele fez dez vezes o número por enquanto que estávamos o observando.

Super herói da vida real

— Você sempre gostou de super heróis?

— Sim....

—  Mas por quê? —  questionei o rapaz.

—  Porque acredito que todas as pessoas são super heróis... é aquela empregada doméstica que acorda cedo, faz comida, vai para o trabalho e depois faz comida. Os super heróis estão no comum. Eles não estão nos filmes, mas na vida real.

Comecei então, a me despedir, já por volta das 13h. —  Um prazer te conhecer.

— Muito prazer.

­Assim nos despedimos e ele se encaminhou para almoçar em uma restaurante da Rua 10 de Julho. Até porque os super heróis também precisam se alimentar...

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