Sábado, 16 de Outubro de 2021
ESPECIAL

Violência anunciada: a dinâmica por trás dos recados de facções nos muros de Manaus

Facções rivais demonstram seu poderio deixando avisos espalhados pela cidade, mostrando quem domina a região



1944688_FE0C18A6-795E-4127-8B38-0C55E7542748.jpg Foto: Junio Matos
26/09/2021 às 11:48

“Não aceitamos X9. Na favela só queremos paz”, “proibido fumar maconha na frente das crianças”. As duas frases foram pichadas e assinadas por membros de uma facção criminosa em muros localizados na Zona Norte de Manaus. Esse método de pichação é comum dentro do crime. A principal causa da violência em Manaus, a dinâmica de brigas por território no mundo do tráfico de drogas, foi tema de conversa de A CRÍTICA com populares e com um delegado da Polícia Civil do Amazonas (PCAM). 


A guerra urbana travada entre as facções está presente em todas as regiões da capital amazonense. Foto: Junio Matos



“A gente tem medo de morrer”. É o que afirma uma doméstica de 56 anos que preferiu não se identificar, na rua Santa Rosa, situada no bairro Cidade de Deus, Zona Norte de Manaus, em uma manhã de domingo (19). Ela havia feito compras em uma loja de conveniências e retornava para casa, quando foi abordada pela equipe de reportagem. 

“Não façam foto de mim, não, por favor”, pediu, um pouco agitada, logo após consentir em conceder entrevista. Ela contou que os moradores da localidade têm receio em andar pelas ruas do bairro à noite. 

O sentimento expressado pela doméstica foi o mesmo de um comerciante de 49 anos, dono de um estabelecimento localizado no bairro Jorge Teixeira, na Zona Leste da capital, cujo endereço específico foi preservado.  Ele, que gerencia o estabelecimento há seis anos, afirmou que se sente inseguro no dia a dia e também criticou o trabalho da Polícia Militar do Amazonas (PMAM). 

“O sentimento de insegurança é constante. A Polícia Militar não traz segurança. Quase nunca tem uma viatura circulando e, quando se liga para eles, demoram a chegar”, disse, ainda com receio de conversar com a equipe de reportagem.

Uma atendente de 52 anos que trabalha em uma padaria situada na Compensa, Zona Oeste, afirmou que se mudou ao local há um mês. O estabelecimento é situado ao lado de um beco em cuja parede há uma pichação com a frase: “C.V T2 É o trem”.

“Tenho três netas, né? A apreensão é constante”, disse ela, atrás do balcão onde realiza as vendas. Indagada se a localidade é frequentada por traficantes, além de pessoas comuns, ela foi categórica na resposta. “Não sei quem é quem”.

Guerra banhada em sangue 

A equipe de reportagem conversou com o delegado Paulo Mavignier, diretor do Departamento de Investigação sobre Narcóticos (Denarc), na manhã de terça-feira (21), na sede da Delegacia Geral de Polícia Civil do Amazonas, localizada na Zona Centro-Oeste da capital. Ele explicou a dinâmica por trás das pichações de muros feitas por membros de organizações criminosas. Elas são reflexos de guerras travadas nas ruas que têm como objetivo a tomada de territórios. 

“A conquista de território funciona da seguinte maneira: eles matam alguns traficantes que são de maior escalão, e, depois disso, dão oportunidade aos outros de se converterem”, afirmou. 

Dentro do contexto da chacina, as pichações de muros têm o objetivo de marcação visual de territórios e ocorrem, principalmente, logo após eles serem conquistados.  As demarcações podem acontecer em duas hipóteses comuns: quando uma organização mata todos os “generais” de determinada área ou quando ocorre superioridade numérica de uma facção em relação a outra, dentro de determinada localidade. “Digamos que há um bairro xis no qual dez por cento dele é FDN [Família do Norte] e 90% é CV [Comando Vermelho], aí eles vão lá e dominam aquele percentual que não estava com eles, eles marcam o território. Não é um processo aleatório”, relatou Mavignier. 

A autoridade policial explicou, ainda, que no atual cenário do crime de Manaus, os traficantes são forçados a se filiarem a uma facção caso queiram vender drogas. “O criminoso xis não pode dizer: ‘sou neutro’, e vender droga na esquina da Compensa. Ele precisa pertencer a uma facção e ela é normalmente aquela que domina aquele bairro”, disse. 

Recomendação à população 

O diretor do Denarc afirmou que há pessoas que têm medo de denunciar o crime à polícia por ignorância. “Se a pessoa denunciar, haverá uma resposta do estado. A obrigação não é só da polícia, a responsabilidade é de todos. Todo mundo tem que fazer a sua parte”, disse. 

A autoridade policial ressaltou que muito do que a polícia consegue conquistar em termos de investigação é fruto de denúncias feitas pela população. “Às vezes, por causa de uma, começamos uma investigação e acertamos um núcleo interessante, o que acaba por gerar uma operação com várias fases. Dá até, no desenrolar de tudo isso, para chegarmos a um traficante de grande porte”.

News 6bf8d194 12ee 4a6c 8ab8 29658d0c6750 e69fe602 b00d 41db b967 4526a2cde395
Repórter de A Crítica
Jornalista graduado no Centro Universitário do Norte (UniNorte), que busca trazer um pouco de storytelling a todos os aspectos da vida, principalmente aos textos que levam sua assinatura.

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.