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Manaus
PASSAGEIROS DA AGONIA

Vítimas de assalto relatam terror e drama vividos dentro de ônibus na capital

Na semana passada, carpinteiro foi morto com tiro na nuca após ter reagido a assalto na linha 678. De janeiro a junho deste ano, o Sinetram estima que 1.344 assaltos tenham ocorrido, uma média de 7 de por dia 24/07/2016 às 10:00 - Atualizado em 24/07/2016 às 10:21
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Rivanilson Queiroz está de licença médica após assalto na linha 678 (Fotos: Márcio Silva)
Joana Queiroz Manaus (AM)

Era segunda-feira, 18 julho, às 14h30. Rivanilson Queiroz Costa, 39, saiu de casa para trabalhar. Despediu-se com um beijo da mulher e filho, de um ano de idade, orou pedindo proteção de Deus. O que ele não imaginava era que cinco horas depois o veículo que ele dirigia seria invadido por dois homens armados e que estes matariam um de seus passageiros.

Ele é o motorista de um ônibus articulado da linha 678, que sai do terminal 4, no bairro Jorge Teixeira, Zona Leste e vai até o bairro Ponta Negra, na Zona Oeste.

Rivanilson conta que, para ele, parecia ser um dia normal de trabalho, mas por volta das 19h30, na segunda viagem, retornando da Ponta Negra na avenida Cel. Teixeira, para o terminal, passando a igreja da Restauração, três assaltantes que estavam entre os passageiros sacaram as suas armas de fogo e anunciaram o assalto.

“Um deles chegou pertinho de mim e mandou diminuir a velocidade. Eu atendi”, relatou. De acordo com o motorista, o pânico se instalou dentro do coletivo entre os passageiros, alguns tentando fugir, outros tentando se proteger de alguma forma. Entre eles um rapaz que saiu correndo desesperado, pulou a catraca, mas foi atingido com um tiro, disparado por um dos ladrões, nas proximidades da porta onde pretendia sair e fugir.

A vítima foi o carpinteiro Waldenire Justino da Silva, 32, alvejado com um tiro na nuca. “Por pouco ele não caiu no meu colo. Aí os ladrões começaram gritar palavrões para mim, mandando eu parar o ônibus”, contou. O motorista disse que parou o ônibus e pediu socorro para a vítima e os passageiros ficaram apavorados.

De acordo com Rivanilson, o barulho do tiro dentro do ônibus fechado foi ensurdecedor, o que aumentou ainda mais o pânico entre os passageiros que gritavam e choravam. Ele mesmo ficou com problema de audição, sem condições de trabalhar por determinação médica. Na sexta-feira anterior, o motorista tinha presenciado um ato de violência no ônibus que ele dirigia, quando um ladrão tirou o celular de um passageiro, ele reagiu e levou uma facada do assaltante.

Rivanilson Queiroz é uma vítima dos mais de 1.344 assaltos a coletivos que aconteceram de janeiro a junho de 2016, uma média de 7 por dia. O prejuízo às concessionárias passa de R$ 379,8 mil, conforme informações do Sindicato das Empresas de Transporte de Passageiros do Estado do Amazonas (Sinetram). De acordo com o sindicato, não existe uma linha exata onde mais acontecem assaltos. Ocorrem praticamente em todas as linhas e a qualquer hora do dia, principalmente nas das Zonas Leste e Norte.

A constância dos assaltos está deixando os usuários apavorados, desconfiados com alguns passageiros que entram nos ônibus e com medo de no dia seguinte ter que ir trabalhar no mesmo ônibus no qual foi assaltado.

Estudante relata surpresa e terror

O estudante Gabriel Serrão, 19, foi assaltado no sábado, nas proximidades do bairro Raio do Sol, quando voltava pra casa no ônibus linha 044, por volta das 21h30.

“Eles entraram junto comigo em frente ao DB do Nova Cidade. Um deles tinha uma mochila nas costas. Eram jovens e não tinham aparência de assaltantes. Para mim eram mais um passageiro. Dois minutos depois que entraram no ônibus, anunciaram o assalto. Um deles abriu a mochila e tirou uma escopeta calibre 12, e passou a apontar para os passageiros enquanto o outro recolhia os pertences, fazendo ameaças. Eles não se importaram muito com crianças e nem com pessoas idosas. Inicialmente, as pessoas pareciam não estar acreditando, ficaram paralisadas, olhando, e só depois tentaram sair. Os ladrões mandaram o motorista fechar as portas e seguir viagem. O meu sentimento foi de medo. Mantive a calma. Fiquei bastante assustado. Tive mais medo e pensei que eles iam atirar dentro do ônibus. Mantive a calma. Eu já acho normal isso acontecer aqui em Manaus, afinal, estamos no Brasil onde a segurança é precária. No outro dia peguei o mesmo ônibus, e veio a sensação de medo e tensão, achando que a qualquer momento alguém ia entrar e assaltar”.

Revolta e indignação de motorista

Benedito Alves, 56, é motorista de ônibus há 28 anos e atualmente dirige o da linha 677. Ele disse que não consegue mais tolerar a ação dos ladrões que assaltam os ônibus. “Eles são abusados quando anunciam o assalto. Passam a tratar a gente da pior forma possível, com desrespeito, chamando a gente de vagabundo. ‘Para o ônibus ai seu filho da p... abre a porta seu vagabundo’. Um dia desses entrou um, anunciou o assalto e eu vi que ele estava armado com um pedaço de ferro. Eu parei o ônibus, abri a porta e ele saiu correndo e eu corri atrás dele. Um motoqueiro que passava o agarrou e aí a população o encheu de porrada. Nesse momento, o meu sentimento era de ódio”.

Assalto, desvio de rota, medo e sequestro na linha 459

O estudante André Ricardo, 19, não esquece os momentos de terror que passou no último dia 15, quando o ônibus da linha 459, no qual ele estava, foi sequestrado por três assaltantes armados e levados da avenida Torquato Tapajós para o Tarumã, na Zona Oeste.

Os criminosos anunciaram o assalto e mandaram o motorista desviar a rota seguindo rumo ao Tarumã. Alguns passageiros entraram em pânico e tentaram sair. “Pensei em fugir, mas naquele momento vi que a minha vida estava nas mãos deles”, disse. Os ladrões agrediram o motorista com coronhadas e ameaçavam atirar nas pessoas.

De acordo com o estudante, naquele momento o sentimento era de raiva e se sentiu indefeso. Depois de tomar os pertences de todos e de deixá-los apavorados, os ladrões fugiram. Agora ele ficará mais atento para os passageiros que carregam mochilas, porque é dentro delas que bandidos escondem suas armas.

Sentimento’ é de medo’

O motorista de ônibus Francisco Erisvaldo, 48, perdeu a conta de quantas vezes foi assaltado. “Eu dirigia um ônibus da linha 678. É uma situação muito ruim e quando estou sendo assaltado o meu sentimento é de medo, fico nervoso, com medo de morrer. A orientação é não reagir e manter a calma. Uma vez desconfiei de uns caras, desliguei o ônibus e fingi que o carro estava no prego para não ser assaltado”.

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