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Vítimas de assédio sexual dentro dos ônibus em Manaus não denunciam

Homens se aproveitam do desconfortodo transporte público para molestar passageiras, que ainda silenciam 08/09/2013 às 11:17
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Mulheres ainda não procuram a delegacia especializada para denunciar quando são molestadas no ônibus
Jéssica Vasconcelos Manaus, AM

No estresse do ônibus, Laís Silva*, 20, foi molestada por um homem que no dia anterior, no mesmo coletivo, havia roçado seu órgão genital em suas costas. Espremida na linha 305, uma das rotas mais longas do transporte público de Manaus por percorrer quase 85 quilômetros, entre os quais mais de 40 quilômetros na zona rural da BR-174, Laís entendeu, na primeira vez, que seria um toque acidental por causa do tumulto.

Desconfiada, novamente no fim de tarde do outro dia, ela observou melhor o desconhecido. Quando ele se aproximou e tentou molestá-la de novo, Laís não contou conversa: levantou a perna à altura que pôde e fez do salto alto uma arma para se defender, pisando no pé do passageiro agressor.

A dona de casa Maria Teresa Silva*,38, que também já passou pela mesma situação teve uma atitude diferente e preferiu deixar de lado a situação e se afastar. Depois de uma discussão e reclamação do homem, a estudante nunca mais o viu.

O constrangimento sofrido por Laís e Tereza ilustra situações previstas em lei como crime de assédio sexual, que são banalizados e que revelam que, após mais de doze anos do Brasil editar a Lei No 10.224, de 15 de maio de 2001, que dispõe sobre o assunto, a conduta que ela deveria ter reprimido ainda resiste.

De acordo com a Diretora da Faculdade de Psicologia da Universidade Federal do Amazonas (Ufam), Iolete Ribeiro, historicamente os homens fizeram uso das mulheres como se elas fossem objetos e que, portanto, o abuso cometido nos coletivos está ligado diretamente à cultura machista do brasileiro.

A Delegacia Especializada em Crimes contra a Mulher não recebe denúncias de mulheres que foram vítimas de constrangimento ou abuso em ônibus coletivos.

Para  Iolete Ribeiro, as mulheres não denunciam esse tipo de violência primeiro por que elas entendem que não vai haver punição e segundo por que quando elas denunciam acabam sendo desqualificadas”. Os homens nesses casos costumam dizer que a culpa é da mulher que permite o abuso”, acrescentou a psicóloga.

Apesar de também ser um tipo de violência os homens que assediam mulheres em ônibus não devem ser confundidos com estupradores. Segundo a psicóloga Iolete existem outros elementos que diferenciam esses perfis. O agressor sexual apresenta sinais de imaturidade emocional, uma dificuldade de construir relacionamentos, e auto estima baixa.

Espaço exclusivo para mulher

Em cidades como São Paulo e Curitiba medidas que destinam espaços exclusivos para mulheres nos coletivos já estão sendo adotadas. Em São Paulo, por exemplo, um projeto de lei que obriga as empresas de transporte urbano de passageiros, em trem, ônibus e metrô, a reservar  espaço exclusivo para as mulheres foi aprovado na Assembléia Legislativa.

Lá, segundo a Delegacia de Polícia Metropolitana, uma mulher é abusada a cada três dias no metrô. Em 2012, a Delpom  registrou 91 casos, como passada de mão, filmagens indiscretas e atos obscenos.

Segundo a Delegada Titular da Delegacia Especializada em Crimes Contra a Mulher, Kethellen Calmont 800 ocorrências são registradas por mês de violência contra à mulher mais nenhuma em ônibus coletivo. As principais ocorrências são de ameaça de morte, injuria e lesão corporal.

Apesar da falta de denúncias a delegada lembra que os casos que forem denunciados serão analisados e se comprovado o abuso o autor será punido.

Segundo a Superintendência Municipal de Transportes Urbanos (SMTU), atualmente 90% da frota de coletivos possuem câmeras e caso alguma mulher passe por qualquer constrangimento pode solicitar as imagens ao Sinetran.

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