Sábado, 20 de Julho de 2019
Abraço adotivo

Voluntários de Manaus dão colo a quem mais precisa: recém-nascidos abrigados

Projeto ajuda no desenvolvimento de bebês abrigados no Nacer e é um remédio para a alma dos voluntários



abrigo1_4A42E02A-E4F1-47CB-9234-8B09E257F372.JPG Dessana diz que experiência do colo também muda a vida do voluntário. Fotos: Junio Matos
22/06/2019 às 15:22

Ajudar no desenvolvimento da saúde emocional de crianças com apenas um abraço. O ato, que tem efeito cientificamente comprovado, tem sido o trabalho de muitos voluntários do Núcleo de Assistência à Criança e à Família em Situação de Risco (Nacer).  Divididos em turnos, eles dedicam tempo e carinho aos seis bebês que vivem hoje no berçário.  

O mais novo, com pouco mais de 10 dias de vida, foi abandonado em uma maternidade da capital logo que nasceu. No abrigo, o pequeno Yago (nome fictício), assim como os demais, recebe todos os cuidados necessários por parte de profissionais do local e muito carinho e atenção dos voluntários, que se revezam nos turnos disponíveis do berçário.

A universitária Dessana Casas, 19 anos, é uma dessas pessoas. Há pouco mais de uma semana, ela resolveu mudar a rotina e usar o tempo que tem entre o estágio e a faculdade, às segundas-feiras, para levar um pouco de atenção às crianças do abrigo. O amor à sobrinha de dois anos e a percepção disso no seu desenvolvimento foi à motivação para o gesto da jovem. 

“Eu faço faculdade junto com uma amiga que já é voluntária aqui. Soube que estavam precisando. Lembrei da minha sobrinha que tem dois anos e virou o xodó da casa. Fiquei pensando nela pequenininha precisando de atenção e carinho, imagina essas crianças! Então, vim conhecer e me cadastrei. As crianças aqui passaram por certas situações que nenhuma deveria passar, então não custa nada ser presente, dar carinho. Para mim, isso representa muita coisa. Muda o nosso modo de pensar porque temos mania de julgar as pessoas e estar aqui é uma maneira diferente da gente ver a vida. Eu me sinto bem e estou aprendendo muito”, relata. 

Motivação semelhante foi o que levou Edinelma Rodrigues a procurar o voluntariado no núcleo. Ela conta que sempre participou de ações de outras formas e por falta de tempo estava em busca de um local para ajudar próximo do trabalho. “Trabalho nas proximidades daqui. Vi o anuncio no jornal e era justamente o que eu estava atrás. Eu gosto de trabalhar de forma voluntária. Na época em que estudava, eu entregava sopa com um grupo de amigos e sempre gostei de ajudar. Aí, acabou terminou a faculdade e o pessoal parou com as ações. Eu gosto muito de fazer essas coisas, ajudar, é algo que me faz bem”, diz ela.

“Aqui eles precisam de abraços, carinho , atenção. Tão pequenos. A gente doa o nosso tempo e quem recebe somos nós, que aprendemos a ser melhores como pessoas, com o próximo”, conta. 

Além dos bebês, que têm idade entre zero e dois anos, os voluntários também podem dividir o tempo com as demais crianças e adolescentes do local, que tem 23 assistidos com idade máxima de 15 anos. Todos passaram por alguma situação de vulnerabilidade e por isso são protegidos por lei e ficam no Nacer até uma decisão judicial determinar que eles possam voltar para suas famílias, quando possível, ou entrem no sistema de adoção.

Resultados são visíveis 

Especialistas da psicologia dizem que, nos estágios iniciais, o abraço contribui para a sustentação do bebê e é essencial para o seu desenvolvimento. No abrigo Nacer isso já foi percebido desde que os “voluntários de colo” iniciaram as atividades, segundo o diretor do local. 

“Hoje temos cadastrados 23 voluntários, que estão aqui atuando. E tivemos um ganho tão grande com a proposta. Começamos a perceber que o desenvolvimento das crianças melhorou porque estão interagindo mais. Não estão só deitadas no berço. De manhã cedo tenho voluntários que estão aqui às 7h para o banho de sol dos bebês, que precisam da vitamina D. Tem um bebê que começou a andar com o apoio dos voluntários, que ajudaram no estímulo. O afeto é importante, é ótimo para eles”, contou diretor do Nacer, Cleslley Rodrigues. 

 Cleslley Rodrigues é diretor do abrigo. Foto: Junio Matos

O espaço que tem quatro anos de atuação é responsável por proporcionar amparo para adolescentes grávidas e crianças em situação de vulnerabilidade social encaminhadas pelo Juizado da Infância e da Juventude. No total, 84 crianças, entre 0 e 18 anos, já foram acolhidas pelo abrigo.

“O nosso abrigo presta um serviço de acolhimento às crianças e adolescentes, mas  temos três projetos na casa. O aconchego, que é o berçário para os bebes de 0 a 2 anos. O AMA, que dá apoio às mães adolescentes parturientes, e o Pão da Vida, que foi desenhado para cuidar dos desnutridos, mas a demanda de desnutridos e negligenciados foi tão grande que a gente ampliou para todos. Aqui, as crianças ficam em média por dois anos, tempo que a Justiça leva para definir se a gente consegue reorganizar a família para receber esse acolhido ou  vai ser preciso encaminhar a criança para a adoção”, esclareceu o diretor.  

Campanha ampliada

O diretor Cleslley Rodrigues explica que a campanha “Voluntários de Colo”, iniciada neste mês, tem mais vagas e devido à necessidade foi estendida também para os demais assistidos da casa. 

“O voluntariado não é só no caso dos bebês, se estende para a casa inteira. Outras crianças precisam. Então precisamos de pessoas para ajudar nesse apoio, no apoio as crianças que chegam aqui. Elas também precisam desse abraço, desse carinho. As meninas abusadas, por exemplo, precisam desse contato de proximidade, acreditar que não é todo adulto que vai fazer o mal. É importante para que ela não tenha medo de estabelecer as amizades, construir uma vida, voltar a ter confiança”, destacou.

Vagas estão abertas

As vagas de voluntariado, tanto para abraçar os bebês como para outras ações no Nacer  ainda estão abertas e quem se interessar pode obter mais informações pelo site www.nacercrianca.org ou pelo telefone (92) 3302-6282. Além do voluntariado, o local recebe doações de alimentos, roupas e dinheiro, que serve para ajudar nos custos fixos da unidade.  Para ajudar, o interassado pode procurar o abrigo, localizado no bairro Parque 10 de Novembro. 

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