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'Voz praiana' e feminina: herdeira da 'boca de ferro' mantém tradição no rádio iniciada pelo pai

Há 47 anos, o “boca de ferro” anuncia produtos e serviços oferecidos por estabelecimentos do entorno da feira Manaus Moderna. Fundada por Raimundo Maia Ismael, mais conhecido por Kimura, hoje, quem dá continuidade à rádio é uma das filhas do precursor, Ana Maria Souza Ismael, 37 01/06/2013 às 22:22
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Ana Maria Souza Ismael, filha de Kimura, é hoje quem 'dá voz' à mais tradicional 'boca de ferro' da zona portuária de Manaus
Carolina Silva Manaus, AM

É no box 103, entre os demais permissionários do Mercado Municipal Adolpho Lisboa, no Centro de Manaus, que a “Voz Praiana” ainda resiste ao tempo e à modernização da publicidade. Há 47 anos, o “boca de ferro” anuncia produtos e serviços oferecidos por estabelecimentos do entorno da feira Manaus Moderna. Fundada por Raimundo Maia Ismael, mais conhecido por Kimura, hoje, quem dá continuidade à rádio é uma das filhas do precursor, Ana Maria Souza Ismael, 37.

Kimura faleceu há três meses, aos 80 anos, por problemas de saúde por conta de complicações renais. Mas deixou uma história que hoje é contada e lembrada por quem o ouviu por meio dos alto-falantes. Natural do Município de Eirunepé (a 1.159 quilômetros de Manaus), Kimura veio ainda na infância para a capital, acompanhando o pai. Desde então, circulava pelos arredores da feira da Manaus Moderna e até trabalhou como estivador.

“Meu pai nunca deixou de estudar. Ainda na juventude teve um contrato de trabalho de experiência num rádio local. Foi seu primeiro contato com a rádio e gostou muito. Recebeu a proposta para ficar com a vaga de emprego, mas não aceitou porque o salário era baixo”, conta a Ana Maria. Segundo ela, o pai teve uma mãe de criação que o levou para Fortaleza, onde concluiu os estudos.

De volta à Manaus, junto com outros colegas, começou a participar de “tele-rings” e revelou-se um grande lutador. Depois de algum tempo de carreira, Kimura largou as artes marciais para se dedicar a um negócio próprio. E não pensou duas vezes ao escolher fundar sua própria rádio.

Inicialmente, a voz potente do locutor anunciava a chegada e as partidas de motores regionais e funcionava em uma casa na conhecida “Escadaria dos Remédios”, local de embarque e desembarque cargas e passageiros do interior. “Ele tinha 34 anos quando fundou a Voz Praiana. Depois de 26 anos no local onde começou a rádio, ele precisou se mudar para o Mercado Adolpho Lisboa”, relata a filha.

Ele também ajudou a fundar outras rádios comunitárias, mas queria ter a própria. “Naquela época, as pessoas não tinham muitas informações das embarcações. Então, os ribeirinhos vinham e não sabiam horários de chegada e partidas dos motores. Aí ele fundou instalou as bocas de ferro para informá-los. Meu pai usava uma linguagem muito popular”, lembra Ana Maria.

Dos ringues barés para a rádio

Dom Kimura, como chegou a ser conhecido também, começou anunciar a chegada e as partidas das embarcações pela “Voz Praiana” após sair do universo das artes marciais. Raimundo Maia Ismael foi um pioneiro do vale-tudo na capital amazonense, uma modalidade de luta com poucas regras e na qual não se precisa seguir um único estilo de arte marcial.

Na década de 70, havia um programa na Rede Record chamado “tele-catch”, que misturava lutas, espetáculo e entretenimento. Era uma verdadeira sensação na época. Inspirado no programa, Arnaldo Santos, então apresentador do “A.S. nos Esportes”, da extinta TV Ajuricaba (atualmente coordenador do Peladão), teve a ideia de trazer a “febre” à capital amazonense. “Ele lutava para sustentar os filhos, pois ele tinha muitos (risos). Aos 34 anos ele largou a luta e se dedicou à rádio”, contou a filha Ana Maria Souza Ismael.

Na terra baré, o nome mudou para “tele-ring”. “Era um quadro do programa do Arnaldo Santos. Como era lutador, Dom Kimura participava e ensinava os demais participantes do tele-ring”, lembra o jornalista esportivo Leanderson Lima.  A última luta do fundador da “Voz Praiana” foi com o ex-lutador argentino Ted Boy Marino, que também ficou
famoso por ser astro do “tele-catch”.

Cupido
 
Durante muito tempo, Kimura era quem fazia os anúncios na Voz Praiana. Mas entre os pedidos de divulgação de produtos e serviços também chegavam ao locutor alguns pedidos inusitados, como pretendentes para relacionamentos. “Naquela época meu pai também trabalhava como cupido. Alguns rapazes do interior vinham e diziam que queriam namorar. Meu pai anunciava que o rapaz era fazendeiro, fazia muita propaganda e apareciam muitas pretendentes. Quando elas viam o interessado, se decepcionavam”, lembra, às gargalhadas Ana Maria, filha do fundador da rádio.

Projetos de modernizar a ‘boca de ferro’

Dos anúncios de embarcações, Kimura migrou para a publicidade radiofônica. Ao longo do tempo, conquistou uma grande clientela para anunciar produtos e serviços de estabelecimentos  do entorno da Manaus Moderna, entre os clientes, a famosa “Importadora TV LAR”.
No entanto, Ana Maria lamenta pelos desafios que a rádio “boca de ferro” enfrenta, isto é, a concorrências dos meios mais modernos usados para a publicidade, como a Internet, por exemplo.

“Teve uma época que foi muito boa e deu bons lucros à rádio, mas hoje, com a tecnologia, coisas mais modernas, é difícil mantê-la. Porém, não vou encerrar a história do meu pai. Ele sempre se preocupou, até os últimos momentos da vida dele, com a Voz, o que ia ser dela no futuro. Eu pretendo dar continuidade por ele e pelo sentimento enorme que tenho por ele”, falou Ana Maria, emocionada ao lembrar da convivência com o pai na rádio.

Ana Maria disse que pretende mnodernizar a rádio quando o Mercado Adolpho Lisboa for entregue novamente e se os mesmos permissionários puderem continuar no local. “Hoje os clientes trazem a mídia pronta e eu só faço a programação”, disse. A rádio funciona de 8h às 12h e de 13h às 16h30.

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