Segunda-feira, 01 de Março de 2021
PROJEÇÃO

ZFM pode fortalecer indústria nacional após pandemia de covid-19

Professor José Alberto da Costa Machado, especialista em economia, avalia que sairemos da crise, em especial a ZFM, com prenúncio de uma oportunidade estratégica pela frente, pautada na necessidade de fortalecimento da indústria nacional



tio_39B3573C-2602-4C4D-BE5E-77B31999B7AD.JPG Foto: Divulgação
03/05/2020 às 10:35

O economista e professor José Alberto da Costa Machado pondera que a crise decorrente da pandemia do novo coronavírus é uma oportunidade estratégica para Zona Franca de Manaus (ZFM) fortalecer a indústria nacional através de um programa de substituições de importações.

A CRÍTICA conversou com o economista, por videoconferência, sobre o surgimento de novos segmentos produtivos na ZFM como a produção de Equipamentos de Proteção Individual (EPIs), a redução de mão de obra no Polo Industrial de Manaus (PIM) e as medidas econômicas anunciadas pelo governo federal para mitigar os impactos do coronavírus no Brasil. Abaixo trechos da entrevista:



Quais são os reflexos na economia com fábricas do Distrito Industrial de Manaus paralisadas?

No geral, vamos ter perda de receita nos próximos meses. As empresas tomaram decisões que são naturais pela ausência de fornecimento, de insumos da China, alta do dólar e a expectativa de venda, de demanda para esses meses iniciais que não são iguais as que se tinha porque produzimos bens de consumo duráveis. Economia que passa por uma crise a aquisição desses itens normalmente fica prorrogada. Fizeram uma leitura correta da situação que vivemos e adotaram providências que não vão conturbar o retorno da atividade de produção até porque o governo tem estabelecido uma série de medidas que vão ajudar as empresas a atravessar essa diminuição de faturamento nos próximos meses. Entendo que serão apenas nos próximos meses e não de forma prolongada.

Com a recessão prevista, nos setores de eletroeletrônicos e duas rodas do PIM deve cair a aquisição de bens duráveis?

Nesses primeiros três meses deve ocorrer. Os pontos de venda neste momento estão obstados de funcionar e é natural que ocorra a diminuição. O país sairá dessa situação com o preço do petróleo, a inflação e a taxa de juros dos bancos como as mais baixas da história. Nós vamos ter uma liquidez da economia muito grande por causa do grande aporte de recursos que o governo federal está fazendo com um volume que vai chegar quase a 10% do PIB.

Nós já temos anunciado pelo FMI (Fundo Monetário Internacional), União Europeia e o governo americano trilhões de dólares para injetar liquidez na economia do mundo. No caso do Brasil, passado três ou quatro meses com repressão de demanda, logo ela se coloca na nossa agenda. A retomada da produção, no meu entender, vai ter movimentos muito virtuosos logo após o retorno do comércio, ponto de escoamento da produção.

Uma novidade é a espécie de renda mínima assegurada às classes mais baixas, de R$ 600 ou R$ 1200 para mães de família, dando suporte para novas mudanças na economia e na sociedade. Vamos sair dessa crise, em específico a ZFM com prenúncio de que teremos uma oportunidade estratégica muito grande pela frente.

Qual seria essa oportunidade?

Ficou comprovado nessa crise a nossa dependência da produção de insumos da China e do Sudeste Asiático. Precisamos fortalecer a indústria nacional, ter um grande programa de substituições de importações. Poucos polos industriais do Brasil estão tão adaptados para ter uma resposta imediata. A ZFM está toda organizada para isso. Nesse momento avançamos na produção de EPIs e as novas demandas do polo digital. Vamos sair com um novo segmento produtivo. Fortalecer o polo de componentes para atender as indústrias do PIM e do restante do país.

Não avançamos mais pela insegurança jurídica, pela posição que as autoridades federais tinham em relação ao modelo e, sobretudo, pela política do governo com o propósito de não dar mais incentivos porque deveríamos comprar de onde vendesse mais barato. O resultado foi isso: comprávamos mais barato da China e ficamos dependentes dela. Essa é a grande oportunidade. Nossas lideranças empresariais e políticas deveriam perceber e já está se preparando. Nós temos tudo para fazer e está tudo pronto. Basta deixar a gente produzir e atender o mercado.

Vamos ter necessariamente um novo polo industrial?

Não. Será uma versão fortalecida se nós soubermos aproveitar o ensejo. Obviamente a realidade e as razões que tínhamos quando o PIM foi criado eram outras, mas a natureza e o propósito era similar substituir importações que na época o país não detinha tecnologia e acabava importando tudo de fora. Aprendemos nesse tempo muita coisa e podemos ter um polo dedicado à substituição de importações, mas com mecanismos para evitar ineficiências que gerem aumento demasiado (preço) do produto para o consumidor. Há vários mecanismos que podem ser utilizados para permitir isso. O mercado livre é sempre muito bom, mas um mercado que priorize produtores nacionais, que dê algum tipo de vantagem para quem produz naturalmente.

De que forma isso pode ser feito?

Legislação, canais de distribuição, linhas de produção organizadas, expertise gerencial, mão de obra treinada temos. Talvez organizar linhas de financiamento específico para ampliação de escalas e a aperfeiçoar processos. Não saberia lhe dizer que tipos de medidas poderiam ser vistas, mas entendo que o que precisa já temos e mais ainda porque temos um polo digital surgindo em conexão com o polo industrial.

O PIM tem capacidade para produzir em larga escala equipamentos essenciais no combate ao coronavírus como EPIs e respiradores?

Não tenho dúvida que as sementes disso estão prontas tanto o respirador quanto outros EPIs desenvolvidos pelas nossas empresas do segmento termoplástico que produzem baseadas na injeção plástica, não necessariamente com impressora 3D. É necessário que nossas lideranças percebam essa oportunidade estratégica que estamos vivendo.

Como avalia a capacidade produtiva do PIM hoje?

O segmento de bens de informática, eletroeletrônico, duas rodas seguirão tendo destaque, porém outros começarão a ganhar espaço. Por exemplo, o termoplástico e o polo de produção de medicamentos. Vamos supor que venhamos a produzir amanhã de forma maciça a cloroquina e hidroxicloroquina, está tudo pronto. O polo de bens associados à saúde, equipamentos, materiais de demanda do segmento da saúde podem ser atendidas pelo PIM sem problemas. O nosso polo industrial tem capacidade, escala para fazer e as nossas linhas de produção se adaptam de forma imediata.

O modelo após a pandemia de coronavírus pode encolher?

Muito pelo contrário, é a grande oportunidade para ZFM de se tornar relevante até pelo surgimento do polo digital, uma conexão, parceria que vai ter que existir em todo tipo de produção a partir daqui. Produção baseada em impressão 3D vamos ter bastante a partir daqui por causa dos experimentos feitos durante o coronavírus.

Segundo o Sindicato dos Metalúrgicos do Estado nos meses de fevereiro e março foram registradas 1,6 mil demissões no PIM. Esse número tende a aumentar?

Naturalmente vai ter um crescimento, mas será muito pequeno em relação à dimensão da crise que se vê lá fora. Os empresários avaliam que no retorno vão ter um mercado que estará demandante. Ademais o governo criou mecanismos para que as empresas pudessem manter os seus funcionários. É importante reduzir carga horária e salários proporcionalmente para não gerar desemprego. Devemos esperar algum tipo (demissões), sobretudo as empresas menores que não conheciam os recursos do governo. Nada que vá criar um impacto muito grande em relação ao futuro.

Com as linhas de produção mais enxutas e a redução de quadros. Como reinserir esses profissionais no mercado de trabalho?

Essa é uma boa demanda e não vai acontecer apenas no segmento industrial. Vamos passar a ter uma vida digital na sociedade. Está em curso um processo de interação com a realidade mais virtual. Todos aqueles que têm dificuldade de vivenciar o digital vão precisar de uma readequação. Isso vai trazer a necessidade de encontrar novas ocupações para esses segmentos que certamente vão ser atingidos. Uma reorganização do que fazer na sociedade como um todo. Desafio posto para sociedade como um todo e não apenas para indústrias.

Quais investimentos serão necessários para manter a produtividade nas linhas com menos mão de obra?

Investimento em automação. Novamente uma onda nova de automação, uma nova frente de inovação e tecnologia, sobretudo, considerando as contribuições que vem do segmento digital. O PIM já tem um nível de automação, mas terá mais ações nesse campo e me refiro a inovação tecnológica. Outros tipos de inovações podem ajudar as empresas a aumentar a produtividade mantendo o mesmo quadro de pessoal.

No período da recessão que se anuncia as empresas vão estar em dificuldades. Os incentivos fiscais da ZFM nesse ambiente podem atrair investimentos para o Estado?

Se o PIM se consolida, de fato, nesse novo cenário com essa característica não tenho dúvida que terá a atração de empresas. A partir daí para uma empresa internacional, que exporta para o mercado brasileiro, entrar nesse mercado teria que vir produzir aqui.

Que cuidados devem mudar? Empresas terão que fazer investimentos na prevenção e saúde dos trabalhadores?

Não só nas empresas. Em toda sociedade passa ser uma realidade. A saúde que era uma coisa muito periférica na própria agenda dos governos assumiu o centro do palco. Verificamos que um desequilíbrio na saúde pode causar esse transtorno de natureza mundial que estamos vendo e isso vai passar a ser o novo normal na sociedade.

Como avalia as medidas que estão sendo adotadas pela indústria?

Destaco a união dessas empresas. Antigos concorrentes se uniram de forma rápida e desenvolveram protótipos e soluções. Estão muito proativas, solidárias e parceiras do governo federal e estadual tanto em sugerir medidas quanto atender às demandas, em não fazer demissões e não deixar o mercado brasileiro desabastecido.

O país imerso em uma nova crise, desta vez de origem sanitária, é o momento de maior ou menor interferência do Estado?

Quando o Estado injeta na economia algo próximo de 10% do PIB é natural que tenha uma participação muito maior, nesse momento, e é basicamente introduzir liquidez e dar suporte aos mais fragilizados. Tem uma forma de intervir na economia muito mais nobre: investir em obras de infraestrutura. Ou o Estado próprio investindo ou resolvendo esses gargalos burocráticos para permitir que haja um aporte de recursos internacionais nas obras de infraestrutura no país.

As medidas anunciadas e adotadas pelo governo federal serão necessárias para retomar o crescimento econômico?

A demora em organizar, as reticências em fazer estão causando o desconforto. É preciso dar efetividade ao que já está planejado e visibilidade as medidas que já foram tomadas. As outras que vão acontecer, estão sendo cogitadas, acredito que talvez estejam mais no âmbito do tempo que vão perdurar as medidas já tomadas. As autoridades federais fizeram isso com uma visão muito curta de três meses, avalio que vai ser preciso ampliar um pouco mais, não sei se todas. O coronavírus trouxe a tona a grande fragilidade social que o Brasil tem. Se estamos buscando um mercado de consumo de massa não podemos conceber uma situação dessa. A desigualdade monstruosa que temos no país vai ter que fazer parte da conta nessa retomada pós-coronavírus.

Quando tempo levará para o país retomar o crescimento econômico?

Uma previsão muito irresponsável se eu fizesse. Não temos definição clara de como vamos debelar a crise sanitária. Para isso precisamos de quatro variáveis: sistema de saúde robusto apto para enfrentar a crise, recursos para tratar a doença, dados que nos permitem customizar as medidas de prevenção e o processo de retomada e a vacina. Arrumar essas variáveis permite dizer de fato quando nos vamos sair da crise. Não precisamos sair definitivamente de tudo para começar a retomada. Vamos passar dois, três meses sofrendo os efeitos do que já está posto, mas a minha expectativa é que não passamos disso. Vamos estar saindo da crise sanitária e começar a vê os efeitos da parada econômica, nos meses de março e abril, e uma sensação de que as coisas estão ruins, mas na verdade já estaremos na retomada.

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Repórter de A Crítica

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