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Minha Manaus
Minha Manaus

Engenheiro que está há 35 anos em Manaus sonha com Centro Histórico revitalizado

Nascido em Soledade, Minas Gerais, o fundador da oscip Instituto Amazônia fala do amor pela cidade, pela área central, povo e, entre outras coisas, das potencialidades da região, como a exploração mineral 24/10/2017 às 18:05
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O engenheiro Paulo Henrique de Castro ao lado da mulher, Mônica Bologna, na janela da casa que escolheram para morar, no coração do Centro Histórico de Manaus: a rua Bernardo Ramos / Fotos: Euzivaldo Queiroz
Paulo André Nunes Manaus (AM)

"Me chamo Paulo Henrique de Castro e tenho 73 anos de idade. Sou engenheiro, fundador e diretor-presidente do Instituto Amazônia, que é uma oscip com 16 anos de fundação que atua muito na área ambiental, e hoje em dia com uma diversificação maior atuando muito na área cultural e de assistência social. Eu nasci na cidade de Soledade, em Minas Gerais, mas sempre morei no Rio de Janeiro, e estou em Manaus há 35 anos. Minha mãe era mineira e meu pai paulista. Sou casado com Mônica Bologna, a quem eu conheci em um congresso em Mato Grosso onde eu tinha uma fazenda de cacau, e tenho dois filhos desse casamento: Gabriela e Bruno.

Eu havia acabado de me separar quando, em 1982, a convite do então governador Gilberto Mestrinho, que era um amigo comum, vim a Manaus para participar da direção do Instituto de Terras do Amazonas (Iteram) e montar um assentamento público. Até então eu nunca havia ocupado um emprego público, seria a primeira oportunidade, e aceitei esse convite para morar em Manaus. Na época eu era presidente do sindicato rural e nós tínhamos um envolvimento grande com a cacaucultura no País. Eu era membro do Conselho Consultivo dos produtores de Cacau cuja sede era em Itabuna (BA). E a Mônica veio comigo para Manaus após nos casarmos.

Não sou muito apegado a coisas materiais, e não trouxe nennhum objeto pessoal quando vi de Mato Grosso para cá.

Após ficar dois anos no Iteram fui para Roraima ajudar na secretaria de planejamento de lá e depois de dois anos e meio retornei a Manaus para trabalhar na construção civil na na empresa de um amigo. Após constituí minha própria empresa e prestei serviços para as prefeituras de Manaus e de outras cidades do interior e para o Governo do Estado. Até que, com certa idade, resolvi parar com a atividade empresarial e me dedicar exclusivamente ao Instituto Amazônia.

O que eu mais gosto de Manaus é da cidade e do povo, que é muito hospitaleiro e receptivo. Embora se diga que é um povo preguiçoso, ele não é. É um povo que poucas pessoas analisam o caboclo. Foi o caboclo que me fez conhecer muito o interior do Estado e ver a necessidade que o povo, que o verdadeiro amazonense, tem.

Antes nós morávamos na Morada do Sol, e aqui no Centro há cinco anos até por questão de segurança. Eu sempre passava aqui pela rua Bernardo Ramos pois tinha uma lancha que ficava aqui na Ilha de São Vicente, onde antigamente era o SNPH (Superintendência Estadual de Navegação, Portos e Hidrovias do Amazonas). E surgiu a oportunidade de comprar uma casa nessa rua: eu já não aguentava mais ser assaltado na Morada do Sol. E em seguida trouxemos a sede do Instituto para cá. E aqui chegando ficamos com a obrigação de estar aqui e ter que cuidar desse pedaço do Centro. Acho que o Centro só vai reacender com as pessoas morando, vivificando. As casas, os palacetes todos de época estão aqui no Centro, mas as famílias tiveram que deixá-las e ir morar em condomínios ou pra outros locais pela praticidade, maiores áreas de lazer, interesses, etc. Hoje o Centro é a área que tem maior infra-estrutura da cidade, o menos habitado, aonde convergem de 30% a quase 40% da população para trabalhar, mas temos um problema de trânsito caótico. Em vez de fazer casas na barreira, se poderiam aproveitar os prédios abandonados e colocar pessoas para morar. O Centro é um lugar excepcional, o Porto é uma coisa maravilhosa. O Marco Zero da cidade, onde atuamos, é uma coisa muito importante, muito relevante, e muito gratificante. Quando fazemos alguma coisa aqui, as pessoas de mais idade, e até as mais novas, se assustam ao chegar pois pensam que aqui só existia prostituição e encontram famílias morando e atividades acontecendo. Isso aí, para o nosso trabalho, é muito profíquo, muito gratificante. Não pensamos em concorrer com o Governo do Estado ou Prefeitura de forma nenhuma, mas de uma forma geral falta que se olhe para os moradores, para as casas individuais. E nós sentimos a necessidade, como Instituto, de fazer com que houvesse um olhar para o povo do Centro, da população que aqui habita, que são os verdadeiros guardiões daqui do Centro, que precisam de apoio. Concebemos um projeto de requalificação dessas casas, que está bem adiantado e sofreu aprovação por parte do Iphan, que é parceiro dentro dessa história, e mais recentemente o Implurb aderiu ao nosso trabalho. Vamos primeiro cuidar de quem está dentro das casas.

O que eu menos gosto em Manaus é a falta de atenção ao conhecimento: não se produz a educação necessária que a população precisa. Manaus é uma cidade que tem recursos, mas muito mal utilizados. As escolas poderiam ter melhores condições, mais dedicação e apoio à população pois sem educação o povo não vai pra frente.

A coisa mais marcante que me fez vir a Manaus foi a grandeza dos rios. O maior rio que eu conhecia naquela região que eu morava era o Paraíba do Sul, que é menor que o igarapé do São Raimundo. Quando chega e vê a grandeza de um rio Negro e do Amazonas, as dimensões de águas, isso impressiona qualquer um. O Governo do Estado deveria trazer pessoas influentes do Rio de Janeiro, São Paulo e outros lugares do Brasil para conhecer esses rios. Muito se fala em comércio, Zona Franca, isso e aquilo, fala-se muito em preservar, muitos artistas hoje dão palpite sobre preservação da Amazônia, mas eles não conhecem a vida de quem mora aqui.

Tive uma experiência terrível no rio Negro em 1983. Saí com os amigos do Mato Grosso em uma lancha, subimos o rio Negro, e a minha mulher estava grávida da Gabriela. Eu caí dentro do rio após escorregar da banheira da lancha e ninguém viu. A lancha foi embora e só sentiram a minha ausência duas horas depois. Quando voltaram eu já estava em um barranco esperando. Esse fato me marcou não pelo lado negativo, mas pelo positivo. Passou um filme da minha vida na minha cabeça.

O canto que eu gostava muito era a Cachoeira Alta do Tarumã, que era muito agradável. Havia um bar e restaurante, mas acabou. A Ponta Negra é bonita, mas tem muita aglomeração. Não tenho mais lancha, mas meu maior prazer continua sendo estar nos rios, nos lagos. A água daqui me impressiona muito.

Um peixe frito tem seu valor: gosto muito do jaraqui e do tucunaré fritos. São dois pratos que me apetecem muito.

A Manaus que eu quero ver futuramente é uma cidade que acorde para o seu modelo econômico pois a Zona Franca não é eterna. Fala-se muito de biodiversidade, mas não se age, não se atua. No mundo inteiro existem concessões de florestas, e o Amazonas tem condição de ter uma política florestal pública, para que possa haver exploração florestal. As pessoas falam muito mal de mineração. Mas a mineração que não presta é garimpo. Uma empresa bem organizada de mineração é importante, no mundo inteiro há. O Amazonas está em cima de várias jazidas minerais superimportantes, mas todas elas ou colocaram uma unidade de conservação em cima ou é terra in digena onde há o preconceito de que a exploração mineral vai degradar. Normalmente uma planta de empresa de minério tem uma dimensão de dois a três campos de futebol. E o resto está lá embaixo. É precos que a legislação regional agregue mais valor e faça com que aquela empresa mantenha várias comunidades em seu entorno. De que vamos viver daqui a pouco quando acabar a Zona Franca? Temos madeira, a biodiversidade que é pouquíssimo utilizada e a mineração. Não tem que buscar outra coisa. De que Manaus começou? Com a borracha, madeira  surgiu a Zona Franca de comércio e depois de fabricação. Mas isso não é eterno. A floresta é eterna e o minério está debaixo do solo. É só buscar ele". 

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