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LUTA POR DIREITOS

Nascida no interior, mulher trocou a aldeia para lutar pelos direitos 'delas' em Manaus

Liderança indígena Rosimere Arapasso conta como chegou a Manaus para atuar na militância em prol do seu povo 24/10/2017 às 10:20
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Rosimere atualmente é uma das coordenadoras da Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas (Foto: Euzivaldo Queiroz)
Paulo André Nunes Manaus (AM)

Sou Rosimere Teles Arapasso, tenho 48 anos e atualmente sou uma das coordenadoras da Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas, que se chama Makira-Êta e quer dizer “Rede das Estrelas”. Moro no bairro Santa Etelvina, no loteamento Agnus Dei.

Nasci no Município de São Gabriel da Cachoeira, cidade do Alto Rio Negro, em uma comunidade indígena do médio uapés que se chama Loiro. Minha família toda mora nesta comunidade ainda. Meus pais se conheceram na época em que chegou a colonização por lá naquela região através da educação formal, com os padres salesianos que trabalhavam com os indígenas e as freiras com as mulheres indígenas. Segundo meus pais contam que eram os pais que escolhiam o futuro ideal para aquela menina dependendo do comportamento e do que ela sabia fazer, para formar um casal. Os padres verificavam se aquele rapaz era ideal para a moça. Segundo nossos avós, na época em que nossos parentes ainda moravam em malocas quem fosse do povo Arapasso não podia casar com mesmo povo, e nem com o povo piratapuia, pois eram primos-irmãos. Só com outros povos. Era regra na época, e hoje muitas regras estão mudando e as pessoas do povo Arapasso já casa entre sí, na própria aldeia.

Cheguei em Manaus em 1987, mas para morar mesmo foi em 2002 quando vim com meu esposo Walter e as filhas Andréia, Anderson e Amanda. Eu tinha animais de estimação mas não pude trazê-los. Tinha duas casas lá mas morei de aluguel. Tenho uma militância no movimento indígena e iniciei como agente de saúde e professora indígena rural, começando a discussão da educação diferenciada em nível de Estado e nacional, e propomos na época junto a outras lideranças e professores. Então, conquistamos e avançamos muito. Nesse meio comecei a trabalhar com as mulheres indíigenas e suas dificuldades. E começamos a perceber que precisávamos trabalhar essa questão de conscientização sobre seus direitos. Fui uma das quem iniciou, em nível de Amazônia, dentro da Coiab (Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira), no Departamento de Mulheres Indígenas.

Antes as mulheres indígenas só eram reconhecidas por trabalhar em casa de família. Hoje, são professoras, médicas, advogadas. Paralelo à militância sou artesã, trabalhando com cerâmica que minha avó fazia, artesanato com tucum, sementes.

Gosto de tudo praticamente em Manaus, mas como indigena, mulher, pessoa, gosto mais é de água de rio, corrente, e infelizmente aqui na cidade não existe mais um rio limpo para você ter acesso, ir com a sua família, tomar banho, mergulhar. Aqui na cidade, na área metropolitana, eu não meto a cara em nenhum igarapé por causa da poluição. Eu tenho muito receio. Nunca levei meus filhos para tomar banho aqui. E na Ponta Negra eu só fui pra olhar. Admiro o encontro das Águas. Gosto de andar de ônibus, já que não tenho carro particular. Como me dou com o público, tudo que tem muita gente é bom. Tenho lembranças da Praça da Saudade antiga, como quando cheguei em Manaus em 2002. Antes as praças de Manaus ofereciam oportunidade de geração de renda para nós, indígenas, que residem na capital

Meu prato favorito é o pirarucu de casaca, que eu aprendi a gostar e tem um preparo diferente aqui na cidade.

O que eu menos gosto em Manaus é da violência, dos assaltos nas casas, nas ruas e nas praças. Nós não temos segurança. Isso toda a sociedade enfrenta no seu dia a dia. Podemos ter uma deficiência seja como for, mas se não temos segurança... Alguma coisa está melhorando, mas tem que ser trabalhada essa questão da segurança. Já fui vítima de assalto 6 vezes, sendo 3 dentro do ônibus.

Perfil

Nome: Rosimere Arapasso

Idade: 48 anos

Profissão:  Ela é uma das coordenadoras da Rede de Mulheres Indígenas do Estado do Amazonas, a Makira-Êta,  quer dizer “Rede das Estrelas”

Natural de: São Gabriel da Cachoeira (AM)

Curiosidade: Sempre militou pela causa da mulher indígena; já foi assaltada seis vezes em Manaus - três delas no ônibus.

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