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Parintins 2017
HERANÇA

Amor pelo ritmo da Marujada de Guerra que passa de pai para filho

Integrante mais antigo da Marujada, Bacuri comemora 50 anos de boi-bumbá e prepara filho para herdar a ‘chamadinha’ 28/06/2017 às 09:55 - Atualizado em 28/06/2017 às 10:26
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Bacuri herdou do pai o amor pelo Caprichoso e repassou o sentimento ao filho (Foto: Evandro Seixas)
Lídia Ferreira Parintins (AM)

“Desde criança eu brinco boi no Caprichoso, eu sou azul e amo esse boi vitorioso”. Os versos de Cezar Monteiro, na toada “Te amo Caprichoso”, expressam exatamente o que a maioria dos parintinenses azulados vivem. É desde o colo dos pais que se começa a brincar de boi e, assim vai, de geração em geração, como ocorre na vida de Raimundo Fernandes Rodrigues, 66, há 50 anos. Agora ele prepara o filho, Felipe Souza Rodrigues,12, para prosseguir com o amor pelo bumbá na Marujada de Guerra.

É o rufar do tambor de Bacuri, como Raimundo é conhecido dentro do boi de estrela na testa, que “chama” o Caprichoso e a Marujada para começar a festa. “Meu sonho é, quando eu tiver lá pelos 80 anos, ficar ali no canto do palco  vendo meu filho assumindo a chamada”, declara. Bacuri é do tempo em que ainda nem existiam os “marujeiros”. Quem tocava os instrumentos de percussão era chamado de brincante. E foi com o pai dele que nasceu essa vontade de brincar de boi. “Morávamos  na rua Hermes Azevedo e, nessa época, tinha boi no seu Luiz Gonzaga, na Rio Branco,  e o papai ia para lá brincar de boi e eu ia com ele, bem pequeno.  Naquela época já fiquei entusiasmado com o bailado deles e já imitava, mas ainda não tocava nada”, relembra ele.

Em 1964, Bacuri brincou pela primeira vez, oficialmente, na Tribo do Tonto, depois no Aninga e, quando o Caprichoso foi para Cordovil, em 1967, aí ele começou a tocar o surdo e não parou mais. “ Graças a Deus nunca mais parei. Brinco com garra e, como dizia a minha mãe: quem corre de gosto, não cansa”, brinca.

A história se repetiu quando Felipe nasceu. Quando o menino completou 8 anos já iniciou as aulas de percussão na escolinha do Caprichoso. “Eu nem lembro quando comecei a tocar, de pequeno lembro só dele (Bacuri) tocando”, diz. Tímido e de poucas palavras, Felipe ressalta que a música e o amor pelo bumbá fortalecem o elo entre pai e filho. “Tocar com o meu pai é uma alegria, uma honra, eu fico muito feliz ”, diz.

Família Marujada

Bacuri é um dos 400 ritmistas pertencentes à  família  chamada Marujada de Guerra. São cinco décadas convivendo com outros músicos dedicados ao bumbá. “Tenho um amor muito grande pelo Caprichoso e ver meu filho tocar é muita emoção”, diz.

“Passamos muito tempo juntos, temos alegrias, tristezas e conflitos também.  É como ocorre em qualquer família, mas aqui é muito mais alegria!”, destaca o coordenador geral, Flávio Lima de Matos, o Vela. “Muitos chegaram jovens, vimos crescer, casar, terem filhos, trazerem seus filhos... A gente faz parte da vida deles e eles fazem parte da nossa”.

Toque feminino na Marujada

Após a década de 80, a Marujada de Guerra começou a ficar mais “enfeitada”, como diz o coordenador Flávio Lima de Matos, o Vela. “Elas começaram a chegar e dominar um lugar que era só de homens e isso foi muito bom”, ressalta ele, que já até perdeu a conta de quantas mulheres fazem parte do item oficial.

Uma das pioneiras a ingressar no grupo, e que hoje é a mais antiga, é Rosalina dos Santos Martins. Em 1973, ela foi fisgada pelo amor de um marujeiro, o marido Ariberto Mendes Martins.  “A gente namorava, ele me convidou e eu fui. Era melhor que ficar em casa, esperando ele chegar do ensaio”, brinca.  “Quando comecei só tinham três mulheres, fui a quarta. Sempre fomos bem recebidas por eles, nunca teve problema, nem preconceito. Sempre fomos respeitadas”, lembra.

Entre as principais lembranças de Rosalina está a confecção dos instrumentos. Naquela época, ela é quem fazia o xeque-xeque, utilizando material reciclável, como lata de óleo. “A gente juntava tudo, mandava soldar e pintar. Não tinha toda essa indumentrária e estrutura que tem hoje. A gente mesmo é quem comprava nossa camisa e nosso chapéu, enfeitava a roupa para poder tocar. A gente não via dificuldade, só vontade de brincar”, conta.

Rosalina destaca que, ao longo do tempo, muitos instrumentos foram incluídos e outros retirados da Marujada. Hoje ela toca rocar e continua tendo a companhia do marido, que toca palminha, nos ensaios e apresentações do bumbá  azul e branco. “Temos três filhos e eles tocaram durante um tempo, mas agora somos só nós dois. Nós temos muito amor por isso, muito amor pelo Caprichoso. Os nossos filhos também, toda nossa família é azul, com muito amor”. 

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