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Parintins 2017
COSMOS

Astros de Parintins: astrônomo defende que rivalidade vem dos céus

Doutor em astrofísica que vive em Parintins fez descoberta ao verificar os astros nos dias que os bumbás foram criados 02/07/2017 às 18:14 - Atualizado em 14/07/2017 às 09:04
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Nelio Martins da Silva Azevedo Sasaki é português mas vive em Parintins (Foto: Márcio Silva)
Paulo André Nunes Parintins (AM)

A rivalidade entre os bois de Parintins transcende incrivelmente até os limites do Cosmos. O astrônomo, físico e doutor em astrofísica português Nelio Martins da Silva Azevedo Sasaki, que mora há cinco anos na Ilha Tupinambarana, descobriu que os bois Garantido e Caprichoso têm estrelas relacionadas aos dois bumbás no céu e no dia do nascimento deles ambas as constelações se “enfrentavam” no Universo.

Coordenador do grupo de pesquisa do Núcleo de Ensino e Pesquisa em Astronomia (Nepa), vinculado à Universidade do Estado do Amazonas (UEA), onde é docente, e ao CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico), Sasaki foi buscar como era o céu da noite de de 20 de outubro de 1913, que é a data de fundação do Boi Caprichoso. Nele, está presente o planeta Marte, conhecido como “Deus da Guerra”, evidenciando uma batalha formada.

No cenário destaca-se a constelação de Órion, que na mitologia grega é um caçador, que, segundo algumas versões, se apaixonou pela deusa Ártemis.

Mais abaixo dessa constelação, curiosamente aparece um conjunto de estrelas que se chama Taurus e que forma um touro branco com uma estrela vermelha, e não um coração, na testa. Essa estrela é a Alpha Tauri conhecida como Aldebarã ou Aldebaran e é uma estrela de primeira magnitude, e a estrela mais brilhante da constelação Taurus.

Nessa formação de batalha estelar, acredite se quiser: o cinturão de Órion tem suas estrelas azuis, as Três Marias (Mintaka, Alnitak e Alnilan), o que seria uma alusão ao Caprichoso (também chamado de Touro Galante).

Já Taurus, o “Touro Branco”, de estrela vermelha Aldebaran, seria o Garantido.

Um dos detalhes das estrelas do cinturão de Órion é que elas formam uma clava. “Eles estão em posição de embate, um de frente para o outro, o Touro Galante em confronto direto com o outro touro, branco com uma estrela na testa. Ele tem que vencer o Touro e o Touro tem que vencer a ele. E próximo há uma estrelinha que representa o Amazonas . O caçador vem com dois cãezinhos e representa a força e a juventude. O Touro Branco vermelho é associado a estrelas anciãs, sabedoria, tradição. Então, a batalha está aí no céu de 20 de outubro de 1913”, diz Nelio Sasaki.

“O Touro é tido como uma divindade, então o contrário já vem com o status de divino, de sagrado. Ele é rei porque as estrelas que ele têm são da realeza, azul. Então, há um embate de dois grandes reis. Um com formato de homem; outro com a força que confere ao touro, impulso, mais emoção, e o Garantido é emoção”, explica o professor.

No mapa astronômico feito para 24 de junho de 1913, data de criação do Garantido, novamente se vê o embate entre as duas constelações.  “Esta é uma guerra anunciada. Não sei se é divino ou sagrado, ou se alguém vai morrer nessa história. Os indígenas tinham esse conhecimento”, declara o cientista.

Outras curiosidade astronômica, informa Nelio Sasaki: “Em Parintins as estrelas nascem do lado do Caprichoso, no Este, e se põem do lado do Boi Garantido, que fica no Oeste”.

Garanchoso

O astrônomo, físico e doutor em astrofísica disse que não torce por nenhum boi-bumbá em especial. “A história tanto do Garantido quanto do Caprichoso é fascinante. É uma coisa que eu não esperava que fosse assim”, disse ele, que não é de frequentar o Bumbódromo de Parintins nas três noites de evento. “Eu fico vendo o Festival pela transmissão da TV A Crítica. Espero um dia ir aos currais”, declarou ele.

As pessoas estranham e duvidam porquê ele está em Parintins, diz  astrônomo. “Já me disseram: ‘Duvido que ele seja português. Se fosse, porque estaria aqui?’. Bom, eu estou aqui porque, sinceramente, aqui é um paraíso. Vocês têm uma cultura rica. Pena que o brasileiro não dá tanto valor ao Brasil. Se ele soubesse quão bom é o País e o quanto receptivos vocês são”, disse o especialista.

Planetários digitais

Os planetários digitais de Manaus e Parintins foram adquiridos com financiamento da Fapeam  e o Governo do Amazonas. Com a aquisição dos mesmos, o Estado passou a ser referência  nacional em termos de Astronomia. Antes,o Amazonas era o único Estado brasileiro a não ter planetário e, hoje,  é o que mais investe em Astronomia, informou Nélio.

"Da nossa parte, o Nepa/UEA/CNPq tem desenvolvido projetos inicialmente estaduais, em seguida nacionais e, recentemente, internacionais em Astronomia.  Assim,  os planetários de Manaus e Parintins ganharam o reconhecimento da comunidade científica  nacional", frisa ele.

Atualmente, o doutor Nélio Sasaki é o representante brasileiro à nível internacional, no que se refere à Astronomia - junto à União Astronómica Internacional (UAI) - órgão  composto somente por astrônomos profissionais de todo mundo.

Recentemente, os planetários de Manaus e Parintins acabaram de ser integrados à rede sul-americana de planetários. Como consequência,  o Nepa tem a missão de  abrir diálogo entre os povos indígenas  hispânicos e os povos indígenas do Brasil, em particular, do Amazonas.

"Estamos a falar de um novo patamar da Astronomia mundial, onde graças ao trabalho do Nepa  levando o nome do Amazonas e a cultura de seu povo no âmbito da Astronomia,  o maior órgão (maior nome da Astronomia) que é  a UAI  abre espaço para falarmos dos povos  indígenas.  É importantíssimo para nossa cultura e para nosso povo ter  vez e ter voz . E indiscutivelmente, através da Astronomia desenvolvida no Amazonas,  a Fapeam e  o Governo do Amazonas possibilitaram ao Nepa  a inclusão  social.  Quem algum dia imaginou que os saberes dos  indígenas brasileiros  fossem ser debatidos em reunião internacional da UAI? Então, isso irá acontecer, e o Nepa estará presente", declarou Sasaki.

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