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Parintins 2017
DRIBLANDO A CRISE

Boi Garantido aposta nos materiais tirados da floresta para compor alegorias

Bumbá pretende economizar e também evitar o excesso de matéria-prima sintética durante as apresentações 29/06/2017 às 11:42 - Atualizado em 30/06/2017 às 13:22
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Presidente do Conselho de Arte, Fred Góes, destaca substituição do sintético pelo sustentável (Foto: Euzivaldo Queiroz)
Lídia Ferreira Parintins (AM)

Nos últimos dois anos, a criatividade dos artistas de galpão teve um desafio a mais. A crise econômica exigiu ainda mais da imaginação e pesquisa deles para prepararem as alegorias com baixo custo, mas sem deixar a qualidade de lado. A prática, no Garantido, é associada à preocupação com a sustentabilidade, proposta que vem ganhando força nos últimos anos, de acordo com o membro da Comissão de Arte, Fred Góes.

“A cada ano a gente vem abrindo mão do material sintético e importado para utilizar o natural e confeccionar no nosso galpão, com materiais que nós temos por aqui. Isso é uma grande força na redução de custos”, explica Fred Góes. Essa mudança fez aflorar a preocupação com o uso sustentável desses materiais naturais. “Se você começar a achar que a sustentabilidade é usar o que está na floresta, você começa a depredar e isso foge do que a gente prega nas nossas músicas e temas. Há uma pesquisa e a preocupação em usar apenas o essencial, sem danos”, diz o membro.

Na base das alegorias são utilizados ferros, reaproveitados a cada ano, e o chamado “algodãozinho americano”, que é importado. Já para o acabamento, muita coisa mudou nos últimos anos. Além da criatividade e experiência na arte da pintura, o material sintético foi substituído por palhas e cipós. “Hoje é utilizado, no máximo, 20% de material sintético, como EVA e náilon. É também um quesito de segurança, afinal, são matérias-primas altamente inflamáveis. Quanto menos utilizar, mais seguros ficamos no caso de algum problema relacionado a fogo”, diz Fred.

Um dos materiais que tem conquistado cada vez mais os artistas de galpão pela economia e efeito visual é a palha canaraí, proveniente de uma pequena palmeira que dá em abundância na Amazônia e com capacidade de se renovar rapidamente, explica Fred Góes.“ A gente utiliza a palha dela, não cortamos nada da árvore, apenas tiramos a parte seca, como é feito com outras espécies das quais também só selecionamos as palhas para serem utilizadas. Elas são muito usadas para revestimento, a utilização a  vem crescendo a cada ano”, diz.

O presidente da Comissão destaca que, ainda assim, há necessidade opções industrializadas e importadas, como réplicas de samambaias e penas de faisão e pavão. “São penas naturais, mas de produtores como China, que têm autorização e fazem isso em cativeiro”, explica. “De arara ou outra espécie natural daqui, jamais”, completa.

A engenheira de Segurança do Trabalho do Garantido, Cristiane Gama, destaca que o bumbá iniciou um trabalho interno de gerenciamento de resíduos, com intuito de dar destino ao que sobra após o festival. “Um dos problemas maior é o isopor, o quantitativo é muito grande. Doamos para uma fábrica de sofás, contudo a questão é que é muito material para uma empresa apenas. Em Partintins não tem nenhuma indústria que possa absorver isso, temos até um mercado aberto para uma empresa de reciclagem”, destaca. 

50 mil palhas em “Cainamã”

De longe é possível notar a alegoria Cainamã, do artista vermelho e branco Roberto Reis. Não apenas pela grandiosidade dos 24 metros de largura e pelos 18 metros da figura central, mas pelo revestimento em folhas do personagem principal. 

Para revestir a Fera Cainamã, como é o nome do protagonista da obra, foram utilizadas 50 mil folhas de palha retirada da árvore que dá nome a alegoria. “É uma material muito abundante, especialmente na zona rural,locais que são próximos aqui de Parintins. É fácil de achar, transportar e bom trabalhar”, diz o artista. Além das folhas, a chamada escada de jabuti, que é um revestimento feito de cipó, dão o acabamento da obra. 

Roberto Reis destaca o interesse dele em utilizar o material natural em suas criações por trazer mais independência na hora de criar. “O custo é bem menor, não há muitas limitações. Mas eu gosto muito de associar as duas coisas, sintético e natural”.

Outro ponto relevante é o efeito proporcionado pelo material sustentável. “A palha feita dá um visual  bem rústico, quando bate a iluminação fica parecendo uma escama de peixe,  fica interessante, bonito”, apontou.

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