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Parintins 2017
Paikicés e Kaçauerés

Guerreiros: Empurradores dedicam a força para montar 'histórias' no Bumbódromo

Paikicés do Caprichoso e Kaçauerés do Garantido levam pelas ruas de Parintins alegorias que enchem os olhos do mundo e compõem o festival 29/06/2017 às 05:00
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"Guerreiros" cruzam as ruas de Parintins empurrando módulos alegóricos (Foto: Márcio Silva)
Oswaldo Neto Parintins

No lugar de arcos e flechas, esses guerreiros usam luvas e capacetes. Neles, as tintas indígenas no corpo são manchas de graxa e ferrugem que saem das alegorias. O que eles têm em comum? A força descomunal para empurrar os módulos gigantescos que enchem os olhos do mundo inteiro, além do amor pelos bois Caprichoso e Garantido. A guerra entre eles é dentro da arena e a vitória é o único propósito.

A rotina começa cedo. Desde às 7h, os paikicés (guerreiros do Caprichoso) e os kaçauerés (guerreiros do Garantido) já estão nos seus respectivos espaços cumprindo a árdua missão de fazer o translado das alegorias para a Praça dos Bois, em frente ao Bumbódromo. A responsabilidade só aumenta nos três dias de festival, quando eles têm a função de montar o que foi preparado pelos artistas sem chance para cometer erros.

“Na língua indígena eles eram os cortadores de cabeça. Eles conseguiram acabar com a etnia rival cortando a cabeça deles, então eles se tornaram guerreiros. Então para os indígenas eles são poderosos não pelo massacre que eles fizeram, mas pelo poder de sua etnia”, explicou o paikicé do Caprichoso, Sílvio Nogueira, de 35 anos.

Tudo começou quando ele se ofereceu para trabalhar como voluntário. Era um ano com pouco mais de 60 paikicés. Foi quando um amigo o chamou e desde 2005 ele é um dos paikicés mais importantes do Boi Caprichoso. Casado e pai de dois filhos, Sílvio trabalha na função desde os 23 anos de idade. No galpão do Touro Negro, ele faz a manutenção de compressores e, se preciso, não pestaneja em empurrar as alegorias até o Bumbódromo juntamente com outros 170 colegas. Ele afirma “não ter sol e nem chuva” durante o festival para colocar o Caprichoso na arena. “Cada festival é uma guerra pra nós. É sofrimento. É pra lutar e vencer”.

Com o dinheiro extra adquirido como “guerreiro”, ele diz ter o sonho de construir uma casa e dar melhores condições para a família. “Estou aqui por eles. Essa semana aqui eu acabo esquecendo um pouco eles, mas todos sabem que o pai e o marido vai voltar daqui a uma semana pra casa, porque almoço aqui, praticamente durmo aqui. A gente sai, toma banho rapidinho e volta pra concentração das três noites, e fica aquela correria. Mas é satisfatório. No final, se vier a vitória é uma bênção, mas se todo mundo sair com saúde como entrou, isso é o que interessa”.

Força azul

Em cada alegoria empurrada até a Praça dos Bois, pelo menos 10 paikicés e kaçauerés se dividem na tarefa conjunta. É um trabalho em equipe debaixo de um calor escaldante, que para ser executado, vale até tirar automóveis do meio do caminho para deixar a alegoria passar. A comunicação entre eles é por meio de gritos e risadas que chamam a atenção dos parintinenses.

Segundo eles, a atividade esconde riscos, que “graças a Deus”, nunca deixou lembranças ruins na mente deles. O paikicé Ney Santos, de 36 anos, não sabe ao certo qual o peso da alegoria empurrada por ele naquele dia. “Não tenho ideia de quanto pesa, mas pela força que a gente faz, nós somos guerreiros”, argumenta.

Ney largou o trabalho de serviços gerais para se dedicar, há três anos, como empurrador de carros do Caprichoso. “Comecei pelos amigos. Tive o convite deles. Procurei e me indicaram pra cá. A primeira vez que trabalhei foi legal e cansativo demais. É cansativo porque empurrar essas alegorias não é fácil. É um trabalho pesado”, diz ele, parado enquanto aguarda a ordem para seguir com os colegas.

Ney conta que tem outros dois irmãos que trabalham na mesma atividade no Caprichoso. A família dele, inclusive, é torcedora fanática do Touro Negro. Embora ele fique “nos bastidores” do show durante os três dias de festival, ele acredita que a felicidade maior está em ver estampado no rosto das pessoas a alegria do povo em vibrar com o boi. “É aquela emoção grande que dá arrepio de ver aquela torcida maravilhosa, é um espetáculo de levar o boi pra arena e sair de lá vencedor”.

Força vermelha

O desafio dos kaçauerés no Garantido pode ser considerado até superior ao do Caprichoso nessa guerra. Isso porque, diferente do Touro Negro, as alegorias do vermelho vem da Cidade do Garantido, na baixa do São José, local distante da Praça dos Bois. Apesar disso, o cansaço não desanima os guerreiros vermelhos. Pelo contrário! A tarefa só estimula os 180 incansáveis kaçauerés a dar o coração pelo boi que tem o mesmo tatuado na testa.

Com o acréscimo da distância, o Garantido leva até uma semana para transportar todas as alegorias até o Bumbódromo de Parintins. O envolvimento da população é tão grande que ruas chegam a ser bloqueadas para que os módulos tenham mais segurança e tudo seja empurrado com perfeição.

O kaçaueré Márcio Souza, de 29 anos, é um novato diante dos guerreiros que integram o time encarnado. Prestes a empurrar uma alegoria que dará suporte na terceira noite do festival, ele explica à reportagem a divisão feita entre eles para que tudo funcione – e ande – de forma organizada. “Ficamos divididos em três grupos. Somos nós os responsáveis pelo translado... Para colocar dentro da arena. Tem a turma da dispensa, que ajuda a gente, e a turma da “volta”, que traz pra cá depois do festival”, disse.

Morador da Cidade do Garantido, Márcio tem três filhos e chegou à tribo dos kaçauerés por indicação. Lá, ele afirma ter encontrado um espaço onde é valorizado como profissional. “É orgulho pra mim. É orgulho em questão de trabalho por estar fazendo isso do lado do meu boi. Ano passado eu trabalhei até doente pelo Garantido. Trabalhei doente, com muita dor de cabeça, febre, mas estava ali até na hora da apuração”, afirmou.

Questionado se todo o esforço pelo Boi Garantido, assim como a dedicação exclusiva durante tanto tempo é válida, o guerreiro encarnado afirma que escolheu isso para a vida. “O lado bom nisso é que além de mostrar serviço tem a questão de ganhar na arena. O nosso trabalho é valorizado. Por isso vou trabalhar até quando me suportarem”.

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