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Parintins 2017
MÚSICA

Nas vésperas do Festival de Parintins, compositores falam sobre criação das toadas

Conversamos com dois mestres na composição e eles nos relevaram alguns dos segredos dos bastidores musicais por trás de diversas canções famosas 18/06/2017 às 05:00
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Alexandre Pequeno Manaus (AM)

Que os bumbás Caprichoso e Garantido já emplacaram hits nacionalmente e internacionalmente nós já sabemos, mas, você já parou para pensar quem está por trás dessas canções e como é o processo criativo das músicas do maior festival da região Norte? Por isso, nas vésperas do 52º Festival Folclórico de Parintins conversamos com dois desses mestres na composição e eles nos relevaram alguns dos segredos dos bastidores musicais.

Guto Kawakami é compositor do Caprichoso desde os 15 anos de idade, e neste ano, sua trajetória na música completa dez anos. Sua composição mais recente, incluída no CD do bumbá “A Poética do Imaginário Caboclo”, chama-se “Tesouros da Cabanagem”. “A toada é uma lenda, que irá concorrer como lenda amazônica no Caprichoso e retrata esse período histórico, quando os nobres escondiam seus tesouros enterrados para que seus parentes posteriores pudessem ter. Só que acontecia que outras pessoas descobriam e essas pessoas eram amaldiçoadas”, explica.

Segundo Guto, o processo criativo das composições que irão integrar o CD se divide em duas partes: “Uma quando estamos fazendo toadas genéricas, para o boi, para a galera, amor ao boi, sentimentos. Esse tipo de toada é feita de uma forma. E o outro tipo são toadas estratégicas, para lendas, rituais, ou seja, momentos estratégicos do boi”, conta.

 As toadas consideradas “genéricas” dependem totalmente da criatividade poética do compositor. “Temos uma ideia, colocamos no papel, escrevemos algumas palavras que se encaixem nessa ideia. Pego o violão e começo a musicar uns pedaços, às vezes sai uma parte legal às vezes não”, relata. Guto diz que as inspirações surgem em momentos inusitados. “Às vezes no banho, no carro e vamos montando, formando o quebra-cabeça”, diz. Para as toadas estratégicas, como o próprio nome sugere, é necessária uma pesquisa. “Sobre um ritual indígena, por exemplo, precisamos de uma pesquisa sobre o povo, como é feito os rituais, cerimônias, parte de uma pesquisa fundamentada”, complementa.

Dom divino
Tadeu Garcia, poeta e compositor de centenas toadas do boi bumbá Garantido ressalta a naturalidade ao compor canções. “Compor música não é uma coisa pré-determinada, e sim instantânea, que surge que a melodia, e a partir daí vamos inserindo letras com o cuidado de formar um contexto. A música popular tem contexto, essa é a nossa grande tarefa. Algumas palavras são colocadas de forma proposital, para o público perceber o significado. Isso pode levar poucos minutos, horas ou anos. Estamos expressando ao público um dom dado por Deus”, afirma. Tadeu destaca também a ajuda da tecnologia durante o processo criativo. “Hoje temos gravador de voz no celular, para esboçar até chegar a um fechamento”, conta.

Para a edição 2017 do festival, Tadeu assina a composição de duas canções do CD "Magia e Fascínio no coração da Amazônia", chamadas “O princípio da festa” e “Décima terceira evolução”. A primeira, segundo ele, fala do sentimento do público antes de começar as apresentações no Bumbódromo de Parintins. “Revela o magnetismo das emoções do boi quando inicia as apresentações na arena. Traduz isso de forma clara o sentimento que temos e espero que seja uma das músicas mais assimiladas”, conta. Sobre a outra música, ele diz: “Falar sobre evolução é falar sobre a mesma coisa sem se repetir, e a canção se refere ao momento de infância em que eu apreciava os compositores chegarem seus versos e fazerem os ensaios”, conta o compositor.

Reconhecimento
A melhor parte de escrever uma música, elaborar a melodia sem dúvida é ouvir o público entoar os versos no festival. Para Guto Kawakami, o sentimento é de reconhecimento. “Existem muitas palavras para descrever isso, mas resumo em uma: reconhecimento. A coisa mais importante de qualquer compositor é isso, e está acima do dinheiro, ainda mais para mim que não faço por dinheiro, e sim por hobby. A sensação de ver as pessoas chegarem comigo parabenizando é tudo, isso representação a gratidão das pessoas com o nosso trabalho”, afirma.

Tadeu Garcia relata dois momentos em que a emoção falou mais alto. “No centenário, com a música 'Alma de Guerreiro', e 'Garantido em Festa', em 1997, que, inclusive quando tocou no final da 3ª noite de apresentação, tanto o público de Garantido, quanto de Caprichoso cantaram a música. Isso pra mim é inesquecível”, relata o compositor do Garantido.

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