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Parintins 2017
SANGUE VERMELHO

Perpetuando o ritmo e a cadência da Batucada como tradição familiar

Integrantes da ‘velha guarda’ da Batucada do Boi Garantido deixam como ‘herança’ para filhos, netos e bisnetos o amor pelo bumbá e a paixão pela música 28/06/2017 às 10:28
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Aos 86 anos, a ritmista mais antiga do Garantido, dona Celina, é companheira de Batucada da neta, Katrícia (Foto: Márcio Silva)
Paulo André Nunes Parintins

“Eu brinco boi como brinca uma criança / Papel de seda na ponta da lança / No coração o encarnado e o verde da esperança”. A toada “Dança das Cores”, uma das antológicas do Boi Garantido, reflete o sentimento de dona Celina Oliveira Fernandes, que aos 86 anos de idade nem cogita deixar de se apresentar na sua amada associação folclórica. Ritmista da palminha, a folclórica brincante estimulou boa parte dos 12 filhos, 40 netos, 38 bisnetos e 5 tataranetos que, seguindo o exemplo da matriarca - a mais antiga ritmista feminina do bumbá -  também integram a Batucada encarnada da Baixa do São José.

O marido dela, Pedro Fernandes Teixeira, já falecido, também tocava palminha. Um dos filhos dela, Elton John (mesmo nome do cantor pop internacional) Oliveira é um dos coordenadores da Batucada do Garantido. Uma das filhas, Paula, também é batuqueira, a exemplo da neta Katrícia Fernandes. Outra filha de dona Celina, Daicy, nunca foi ritmista, mas era responsável por fazer os chapéus da Batucada.

Moradora da rua Armando Prado, no tradicional bairro vermelho de São Benedito, dona Celina é só emoção ao falar do Boi do Coração na Testa. “Ser batuqueira me faz sentir feliz. Gosto mesmo, desde pequena”, destaca ela, com as simples, mas significativas, palminhas de madeira nas mãos.

Avó e Neta

A neta Katrícia é só elogios à avó, colega de Batucada. “É uma honra muito grande ser neta de uma pessoa como a dona Celina, pois de toda a nossa velha guarda do boi, já não temos tantos e a vovó, com 86 anos, faz questão de estar na Arena. Nunca privamos ela de sair porque é uma diversão dela, uma coisa que ela gosta e não vai obrigada. Ela se arruma cedo pra ir pro Bumbódromo e só toma água se você der pra ela. Ela é muito ‘tesa’, como falam sobre o pessoal da Baixa do São José. A vovó tem uma garra muito grande, é uma mulher de fibra e tem uma história maravilhosa no boi. Uma historia viva do Garantido, ela representa isso para nós”, diz Katrícia, formada em turismo e acadêmica de pedagogia.

Dona Celina conheceu pessoalmente o fundador do Garantido, Lindolfo Monteverde. “Ele era um senhor muito educado e trabalhador. O que ele queria, ele fazia. Em todas as redondezas ele andou. Ele e nós no meio dele”, relembra, voltando no tempo. “As mulheres tinham mais vergonha antigamente”, ressalta ela.

 O sorriso é uma das marcas de dona Celina, que, para a família, é uma verdadeira “rosa vermelha” em meio ao jardim florido do mundo vermelho e branco da ilha de Parintins.

Mais experiente tem neto como pupilo

Ele tem 63 anos de seviços prestados ao Boi Garantido  e só de ritmista da Batucada Encarnada lá se vão 55 deles. Aos 72 anos, ‘seo’ Evandro Silva de Souza passa ao neto, Gabriel Lima Gadelha de Souza, de 16, toda  sua experiência no vermelho e branco da Baixa do São José.

‘Seo’ Evandro e Gabriel tocam o mesmo instrumento: a caixinha. A do avô tem 20 anos e, a do neto, cerca de cinco, mesmo tempo que o jovem tem de Batucada. Ressalte-se a cadência e ritmo de ambos. O garoto leva jeito. Na retaguarda dele, ‘seo’ Evandro é como um escudeiro de luxo. O jovem é filho de Elias Gadelha de Souza, o único herdeiro de ‘seo’ Evandro, mas ele não é mais ritmista já há algum tempo (foi integrante por dez anos). Dessa forma, caberá ao neto dar continuidade à linhagem nobre dos batuqueiros dos Souza.  

“O Gabriel sempre me acompanhou no Garantido e eu eu falei  que iria ensaiá-lo pra assumir meu lugar. Dentro de três anos eu vou ter que pendurar minha baqueta”, declarou o experiente rimista encarnado. Até lá, o avô repassa conhecimentos, como a atenção ao que o maestro quer nos ensaios. 

Honraria

Para Gabriel, continuar a tradição que o avô começou é “uma emoção muito grande, de poder tocar ao lado dele e continuar tudo isso; a cada ano que entramos no Bumbódromo o coração acelera”, revela. “É uma grande responsabilidade continuar o que ele vai deixar. Ele está escrevendo uma história muito linda no Garantido e vai ser um grande desafio continuar a história que ele tem lá”, complementou o jovem.   

O adolescente conta que a cada ano aprende mais com o avô. Mas que, na primeira vez, foi uma emoção muito grande. “E cada vez mais estou aprendendo com ele, desde pequeno, nos ensaios, ensaios técnicos de Arena, apresentações”, revelou.

Lenda viva

‘Seo’ Evandro conta que, aos 9 anos de idade, o próprio Lindolfo Monteverde pedia para que ele o ajudasse a levar as lamparinas nos eventos da associação folclórica. Mal sabia aquela criança que, tempos depois, se tornaria uma das “lendas” do Boi Garantido ao lado de personalidades como Porrotó, Cucha Chata e Badu Faria.  Com a ‘moral’ de quem faz parte da história do bumbá, ele faz uma convocação: “Convoco a galera vermelha e branca para ir no Bumbódromo nos aplaudir e nos ajudar a levantar mais esse título”, diz ele.

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