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Parintins 2017
boi garantido

Cenário às margens do rio Amazonas serve como inspiração para toadas vermelhas

Compositores do Boi Garantido se reúnem em um ‘QG’ às margens do rio Amazonas para contemplar a natureza e extrair dela a inspiração para compor as toadas que fazem a galera vermelha vibrar na Arena 21/06/2016 às 21:48 - Atualizado em 22/06/2016 às 10:28
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Uma das alegorias do Garantido, inspirada na toada ‘Macacos Vermelhos’, de Maurício Filho e Ademar Azevêdo (foto: Márcio Silva)
Jhonny Lima Parintins (AM)

Inspiração, dom, talento. São os pré-requisitos que dão o tom para o compositor ver sua obra transformada em arte, coreografia e todo um contexto que encanta os amantes do boi-bumbá. O Garantido, por sua vez,  tem uma “fábrica” deles que aumenta a cada festival.  Com uma parceria que dura 11 anos e tem destaque no CD Celebração, com quatro toadas inéditas, os compositores e amigos de longa data Maurício Filho e Ademar Azevêdo têm muita história para contar dos causos vividos para transformar letra e música em arte.

Reunidos no famoso bar do Enrola, reduto dos compositores do Garantido na Baixa do São José, Maurício e Ademar se sentiram em casa para contar como é a concepção de uma toada e suas fontes de inspiração. Entre uma toada - e uma cerveja - e outra, os artistas conversam sobre a criação no estabelecimento, feito de madeira às margens do rio Amazonas,  e tendo como pano de fundo a beleza do maior rio do mundo, o Amazonas.

Com mais de 20 toadas de sucesso - sem contar as que não foram selecionadas para os CDs do Garantido e do contrário -, a dupla de compositores tem um “QG” em um sítio na comunidade Itaboraí, em Parintins, onde Ademar e Maurício se reúnem para riscar os primeiros traços. Assim nasce uma toada. Para o Festival Folclórico deste ano, o público se encantará e poderá prestigiar e vibrar com  quatro toadas escritas por eles: “De Coração”; “Caldeirão Vermelho”; “O Yapurityã” e “Os Macacos Vermelhos”, que prometem agitar a arena do Bumbódromo nos três dias de disputa.

“As coisas não acontecem da noite para o dia”, lembra ele. No entanto, o ambiente onde fica o ‘QG’ dos compositores rubros contribui muito para o sucesso deles. “A toada nasce da inspiração. Tem a natureza, o momento do boi... Eu e o Maurício tiramos a inspiração da floresta, dos rios, lagos, da serra. Geralmente procuramos a natureza”, enfatizou Ademar Azevedo.

Lá no Itaboraí, eles também ouvem dos ribeirinhos e comunitários contos e lendas amazônicas que servem de inspiração. Se são reais ou não, isso não vem ao caso, pois há quem acredite nas histórias, que muitas vezes são repassadas por gerações, passando dos pais para os filhos, que por sua vez transmitem aos seus filhos e netos.  

“Muitas vezes as pessoas preservam a natureza porque o avô contava que não pode mexer na floresta porque o Curupira vai te fazer doido;  não pode invadir o lago porque a cobra grande está ali em noite de temporal. Eu era pequeno e acreditava em tudo”, conta Ademar Azevêdo.

O 'pirão'

Para Maurício Filho, cada um tem seu estilo e as diferenças convergem entre si, formando, segundo ele, “o  grande pirão”, que  são as composições. Ademar tem como ponto forte as lendas e rituais, enquanto o parceiro  dele foca o lado poético, mais de galera, tradicional. Eles juntam o que cada um tem de interessante, fazem os ajustes e pronto: nasce uma toada.

Lembranças

No Festival Folclórico de Parintins, há toadas que permanecem na cabeça dos amantes do boi-bumbá porque, entra ano, sai ano, elas são entoadas na Arena, como a conhecida internacionalmente “Vermelho”, de Chico da Silva.  Neste ano a toada completa duas décadas de sucesso e não há quem consiga ficar calado ao lado do Boi do Coração na Testa quando ela é tocada.

Maurício Filho também tem toadas históricas, como os “Guerreiros da Baixa” (2008). Ele a compôs quando estava no seu escritório. “Com a facilidade das novas tecnologias, peguei o celular e gravei na hora. Geralmente quando faço vêm a letra e a melodia juntas”, explicou. “Amor primeiro” (2008) e “Força do povão”, ambas dele, também são tocadas no Bumbódromo.

A toada “As Amazonas” (2000),  de Ademar Azevêdo e Davi Gerônimo, também é “figurinha certa” no Festival e sua composição tem todo um contexto histórico. “Fizemos uma viagem ao Espelho da Lua, em Nhamundá, onde fica o Lago das Amazonas. Estávamos no local onde as Amazonas se banhavam, como diz no refrão da música”, lembrou.

Os compositores Demétrios Haidos e Geandro Pantoja também têm toadas memoráveis e marcantes. A “Amazônia, Santuário Esmeralda” (2003) até hoje, quando é entoada no Bumbódrono, encanta a torcida encarnada.

Segunda parte da ‘trilogia’ na Arena

Ademar Azevêdo e Maurício Filho enfatizam que a toada “Caldeirão Vermelho” faz parte de uma trilogia que se encerra em 2017, com a próxima toada. “Começou em 2015 com a ‘Camisa Encarnada’, mais conhecida como ‘Vai tremer’, concebida em Itaboraí.  Resolvemos seguir por essa vertente que o Garantido tem, fechando a trilogia em torno dessa pegada”, explicou Filho.

A dupla de compositopres estava na arquibancada, prestigiando o Festival do ano passado, quando sentiu o clima do “Vai tremer” no meio da galera. “Ali (na arquibancada) a gente, sentado, viu o que a galera do Garantido estava fazendo e, este ano, vamos voltar para sentir o clima novamente e procurar aperfeiçoar a obra para 2017, que já está pronta. Vimos que em 2015 a Arena tremeu. Este ano resolvemos fazer ferver e, em 2017, vai explodir. Depois vamos partir para outra”, adiantou Maurício Filho, dando a ‘deixa’ da toada para o próximo ano.

Nascido  em Itaboraí, distante 20 minutos de voadeira da Baixa do São José, Ademar Azevêdo é o típico caboclo da terra que adora preservar a floresta e os rios, fontes de sua inspiração. Filho de parintinense, Maurício Filho nasceu em Manaus, mas nas veias correm o ardor e a perserverança do guerreiro parintintim.

Todos os anos ele retorna à ilha e se reúne com Ademar por alguns dias para compor novas toadas, ouvir novos causos relatados pelos ribeirinhos e, por fim, captando essas informações para servir de inspiração e execução do trabalho. “Somos pessoas que nos gostamos de verdade, parceiros, e confiamos no trabalho um do outro”, finalizou Maurício.

Saiba mais

A toada Macacos Vermelhos conta a história dos guaribas e a guerra entre os macacos vermelhos e macacos pretos. Os vermelhos vão restagar a mais bela primata sequestrada pelo inimigo e, após essa batatalha,  saem vencedores.

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