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Parintins 2017
boi caprichoso

História e criatividade por trás de toadas famosas tem nome: Geovane Bastos

Geovane Bastos é a mente criativa por trás de toadas que fizeram história e ainda hoje animam a nação azul e branca 21/06/2016 às 21:48 - Atualizado em 22/06/2016 às 10:30
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Para compor as toadas do CD ‘Vida Parintins!’, Geovane se dedicou durante oito meses a pesquisas de campo e estudar o vocabulário de cada povo retratado (fotos: Márcio Silva)
Jhonny Lima Parintins (AM)

Com uma década de sucesso, compondo toadas marcantes e memoráveis para o Boi Caprichoso, o artista Geovane Bastos tem a difícil e ao mesmo tempo prazerosa missão de encantar os torcedores azul e branco (e quem sabe do contrário) no Bumbódromo, com mais três toadas neste ano: “Yanomami, filhos da terra (em parceria com Guto Kawagami); Monhangaripi e Amarun Chacaruna (em parceira com Adriano Aguiar).

Nascido no “berço” do Caprichoso, Geovane sempre se interessou pelas histórias e suas origens contadas por meio das toadas. E a convivência  com os compositores da época, que fizeram parte da história do boi, fez com que ele passasse a observar cada vez mais o “nascimento” das toadas e, portanto, resolvesse arriscar. Com o tempo, ele foi aprimorando as técnicas e pesquisas.

“Hoje tenho uma linha de trabalho, sei conduzir e, por conta disso, obtive grandes resultados”, confessou Bastos.

Inspiração

Para compor as toadas do CD “Viva Parintins!”, Geovane teve que fazer pesquisa de campo e localização, estudar o vocabulário de cada povo, buscar imagens, absorvendo o máximo para chegar a um bom resultado. A pesquisa durou oito meses. Das cinco toadas que ele colocou para disputar espaço no CD deste ano, somente três foram selecionadas.

Foi assim que nasceu a toada “Monhangaripi”, onde Bastos  teve como fonte de inspiração o livro do padre João Felipe Bettendorff, intitulado “Crônicas dos padres da Companhia de Jesus no Estado do Maranhão”, na qual o autor relata que, no ano de 1730, esteve na aldeia do Tapaiuna, conviveu com os índios e descreveu esse ritual primitivo ao qual atribuiu vários elementos e ficou impressionado com a cultura daquele povo.

“Esse fato realmente existiu e está narrado, documentado, fundamentado. Então fiz essa proposta para o Caprichoso e deu tudo certo, culminando numa grande alegoria”, explicou Bastos, que é graduado em História pela Universidade do Estado do Amazonas (UEA). O compositor frisa que a  toada Monhangaripi concorreu com um grupo seleto, por ser uma toada temática, que resulta num material com alegoria específica.

Os Yanomami

A toada “Yanomami, filhos da terra” tem a proposta de mostrar a situação dos Yanomami e os conflitos vividos por eles por causa da extração ilegal nos garimpos de ouro, da madeira  e a contaminação dos rios. “É um clamor do povo Yanonami que o Caprichoso vem mostrar este ano. Esse povo sofre há tanto tempo com essas invasões”, adiantou Geovane.

O diferencial da toada "Amarun Chacaruna", de acordo com Geovane, é mostrar a Amazônia Peruana e o culto do ritual por meio da ayahuasca. Tem o objetivo de mostrar suas danças Ícaros, os cantos mágicos, os seres viventes com a natureza e a representação das serpentes. “É uma coisa diferente que o Caprichoso vai usar, sempre buscando inovação”. A toada foi concebida do desejo de criar uma percussão diferente. Com batida inovadora, mais ‘pegada’, com estilo mais andino”, explicou, ao lembrar que as toadas, com o passar dos tempos, vão se modificando e agregando novos públicos e estilos.


Detalhe de outra alegoria relacionada a uma das toadas de Geovane Bastos

Toadas de sucesso

Geovane Bastos destaca algumas todas dele que sempre são lembradas durante os festivais folclóricos de Parintins nos últimos anos, como o “Sentimento Caprichoso” (2010);  Sensibilidade (2012), Viva a cultura popular” (2012); além das mais recentes, com destaque para “Centenário de uma paixão (2013)”  e “Boi Brasileiro” (2014) que, segundo ele, sempre leva a galera azul e branco ao delírio na arquibancada.

Outra toada, ou parte dela, que é sempre entoada nas apresentações do Caprichoso, mais precisamente após a tirada de verso do Amo do Boi, é a “Guardião da Mata”. É como um hino do Boi Azul e contagia a torcida todas as vezes que o Amo tira o verso. Lembram do trecho: “Brilhou, reluziu. Caprichoso é a estrala do Brasil”? Pois é, tudo leva a crer que, este ano, ele vai levantar  a arquibancada novamente.

Ritual foi inspirado em livro

Durante um vasto trabalho de pesquisa, tendo como base o livro Crônica dos Padres da Companhia de Jesus no Estado do Marnahão, escrita pelo padre João Felipe Bettendorff em 1730, o compositor do Caprichoso Geovane Bastos concebeu a toada de ritual  “Monhangaripi” para uma das noites do Festival Folclórico de Parintins deste ano.

Conforme a pesquisa, o ritual tapajó  “Monhangaripis as múmias tapajônicas”, revela que quando um Tuxaua, uma  sacerdotisa ou até mesmo um pajé morria, os tapajós faziam sua cerimônia fúnebre, um culto aos mortos, em um dos mais fantásticos rituais funerários de que se tem notícia. O

funeral durava dias e até meses se o morto tivesse alto prestígio entre os índios. O cadáver era levado em cortejos fúnebres em meio a beberagens e cantos em honra aos mortos para um local especial, o “Iwikwar”, ou Tiwipuar (sepultura, jazigo) onde era posto suspenso em três fogueiras durante dias. De acordo com a pesquisa, após a defumação, o corpo do indígena era desossado e os ossos eram guardados nos “camotins”  (urnas funerárias).

Em seguida o corpo era ornado e vestido, lavrada de agulha com meia, emplumado, pintado e envolto em tecidos aromatizados (tuturis) e vestido com a máscara de Aura, o “Deus Diabo”, segundo Bettendorff. O padre João Felipe Bettendorff também relata no livro que a cerimônia de comunhão dos ossos era realizada na “Casa dos Paricá”, onde os Tapajós bebiam os entes queridos, cantavam e oravam aos seus ancestrais, os “Monhangaripis”. 

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