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Parintins 2017
carreira

Três décadas em transe: pelo Caprichoso, Waldir Santana inovou a figura do pajé

O pajé do Caprichoso produz as próprias indumentárias e é um dos responsáveis pela inovação do item 12 na arena 23/06/2016 às 11:12 - Atualizado em 23/06/2016 às 13:08
Show sem t tulo
Waldir Santana é quem fabrica as próprias indumentárias, como esta, que ele usará na 3ª noite (fotos: Euzivaldo Queiroz)
Rafael Seixas Parintins (AM)

Um dos momentos mais aguardados do Festival Folclórico de Parintins é o ritual. Nele, o pajé é o protagonista, conduzindo toda a cerimônia xamânica e presenteando o público com um espetáculo que envolve, além de técnica e dedicação, um grande trabalho visual nas indumentárias, coreográficos e de inovação. À frente do item de n°12 do bumbá Caprichoso está Waldir Santana que, nesta 51ª edição do evento completa 30 anos como pajé. Durante entrevista em seu ateliê, o artista relembrou um pouco do início dessa trajetória e revelou parte do seu processo artístico.

 Desde pequeno, Waldir brincava de boizinho de rua e improvisava fantasias com os amigos em frente das casas da rua Paes Andrade, no Centro de Parintins (a 325 quilômetros da capital). Por brincarem de boi ali, eles ganhavam merendas das moradoras. Contudo, em 1982, após um convite da diretoria do Caprichoso, essa brincadeira passou a ser séria.

“São 30 anos dedicados ao item. Eu dançava no festival desde 1982 e tiveram a ideia de colocar mais evidência à figura do pajé. O pajé já existia há tempos no boi, mas não tinha esse glamour e aparato. Eles [diretoria do Caprichoso] precisavam de alguém que dançasse, mas eu achava as roupas feias. Na primeira vez disse que ia, mas como feiticeiro e não como pajé. Então fui, achei interessante, e perguntaram no ano seguinte se gostaria de ser o item. Respondi que sim, só que as roupas precisariam passar por mudanças”, declarou o artista, que também trabalhou como coreógrafo e se dedicada à confecção de indumentárias.

Pesquisa

As peças utilizadas por Waldir no festival são produzidas por ele e a sua equipe, formada por cinco artistas, que pensam nos elementos que serão utilizados após a definição do tema pela diretoria.

“O trabalho começa no nosso Conselho de Arte assim que abrem o edital para as toadas dos itens. A importância da toada para o ritual inicia por aí. Por exemplo, vai o ritual Kuarup, então fazemos toda uma pesquisa sobre os índios do Alto Xingú, com seus costumes, rituais, vestimentas e cores. A partir disso, passamos a viajar dentro da originalidade dessas informações e integrá-las com a nossa ficção”, explicou.

Além de lhe garantir mais segurança durante as apresentações, o trabalho de pesquisa faz o artista pensar em novos elementos que possam ajudar na hora da disputa com o boi Garantido. Em 1999, por exemplo, Waldir usou a primeira lente de contato na cor branca para reforçar a ideia de transe do pajé. “Hoje em dia todo mundo usa lentes. Já usei várias, só que nesse ano teremos novidades”, adiantou.

Apesar das três décadas como pajé, o parintinense quer continuar lutando contra as forças do mal para reestabelecer o bem para toda a aldeia. Ele sabe que um dia terá que se aposentar do item, mas, por enquanto, não consegue ver este dia chegando. “Deus sabe a hora que devo parar”. 

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