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Parintins 2017
LEMBRANÇAS

Saudosismo da Baixa do São José de quando o Festival iniciou sua história

Moradores do lado ‘Garantido’ da Ilha relembram do tempo em que Parintins era apenas uma cidadezinha onde se brincava de boi em ruas e quintais 26/06/2017 às 12:50
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Aos 71 anos, a professora aposentada Elizabeth Reis testemunhou a evolução do folclore de Parintins e, ainda hoje, ela guarda lembranças dessa época (Fotos: Márcio Silva)
Paulo André Nunes Parintins (AM)

Há 52 anos - tempo de existência do Festival Folclórico - a cidade de Parintins (a 325 quilômetros de Manaus) era bem diferente do que é agora.

Não que a hospitalidade, o linguajar diferenciado e o tradicional talento para as artes tenham desaparecido, mas é que os tempos são outros e os moradores sentem imensas saudades da época em que as ruas eram mais calmas, havia mais segurança e o boi-bumbá era mais “simples”.

A professora aposentada  Elizabeth Reis, de 71 anos, numera um rol de lembranças que vão da infância, passando pela juventude, e que se encontram com uma atualidade real e bem diferente, por vezes, dramática. Hoje ela mora na rua Muruci, bem próximo ao Bumbódromo de Parintins, mas cresceu na antiga rua Vicente Reis, no bairro de São Benedito, hoje avenida Lindolfo Monteverde, bairrode São José, reduto vermelho e branco.

“Lembro de uma Parintins altamente pacata, não se via violência e, quando aparecia um ladrão, chamávamos de ‘preto liso’, ninguém sabia quem era, mas quando essa pessoa ‘visitava’ a sua casa, achávamos que ele era preto. Logicamente eu vejo hoje como um preconceito contra os pretos. Ele te roubava galinhas e coisas mais para a alimentação, mesmo porque Parintins era uma cidade pobre”, relembra a educadora parintinense.

Os habitantes não viviam cercados de muros e cercas nas suas casas, conta ela. “Nosso terreno na rua Vicente Reis nunca teve cerca. Eram 22 metros de comprimento por 50 de fundo, e nós vivíamos alí. As pessoas se serviam da água do rio Amazonas, não tínhamos torneiras. E as pessoas que moravam do lado esquerdo da rua atravessavam o nosso quintal para ir pro rio. E não mexiam em nada”, conta a professora aposentada.

Jeito de interior

A educação era outra, lembra a aposentada. Os vizinhos ajudavam na educação dos filhos porque se eles viam alguma coisa mal feita, diziam : “Vou contar pra sua mãe”, relata ela. Os mais velhos  eram chamados de “tios”.

Na frente da casa dela morava uma senhora chamada Catarina mas que os jovens só chamavam de “Tia Catita”. “Havia esse respeito da criança pelo idoso e vice-versa, que hoje não há mais. Os idosos podiam falar contigo e, se você fazia alguma coisa errada, eles te chamavam atenção. Eles participavam da educação. E isso eu chamo de cidadania, pois eles não pensavam só na família deles, mas na do vizinho também. Se ele tivesse uma boa família que não perseguisse o vizinho, e vice-versa, ia se viver em paz, como nós vivíamos antigamente”, rememora Elizabeth Reis.  

O cafezinho, a farinha e as frutas eram tradicionais na mesa do parintinense há 52 anos. Até os hábitos alimentares mudaram em algumas casas. Outra mudança é na estrutura da cidade. Antigamente era comum haver ruas mais largas em Parintins, conta ela. “As casas não  vinham muito ao nível da rua. Hoje, as casas estão niveladas à rua, a maioria. Em muitas dá apenaspara fazer uma calçadinha”, diz.  

Para ela, a situação atual é fruto de uma sociedade que debate muita democracia e esquece de ser cidadã. De que adianta a democracia se eu não respeito o outro como cidadão”, questiona ela, que foi professora por 36 anos.

Encontros explosivos, cines e praças

A professora Elizabeth Reis lembrou que os integrantes do Garantido e do Caprichoso não podiam se encontrar porque, como estavam sempre com uma “loura” (cerveja) e uma “branquinha” (cachaça) na “cabeça”,  um confronto era normal.

A lembrança que ela tem do curral velho do Garantido era da época que havia um tucumanzeiro imenso, e com uma estrutura bem diferente da que existe atualmente. A rampa do Porto de Parintins era bem diferente da atual, lembra a educadora: era de madeira e aguentava o Solimões. E quem chegava nas embarcações via uma estrutura que lembrava caracóis.

Há 52 anos só haviam três bairros:Francesa, o Centro e São Benedito (hoje bairro São José, reduto do Garantido). Silvia Reis, 75, irmã de Elizabeth, lembrou do antigo Cine Teatro Brasil,  do Cine Teatro Moderno e também chamado Cine Saul, localizado na rua João Meirelles, Centro, de arquitetura grega e imponente, e que encantava quem frequentava o local. Hoje, o que funciona no local é uma loja de confecções.

Na que é hoje Praça Digital ficava a Praça Cristo Redentor e, no centro dela, havia uma imagem de Cristo, que foi retirada do local. Irmã de Elizabeth e Silvia, a ex-batuqueira Ana Cândida, 80, recordou dos tempos de Batucada do Garantido junto com outros ritmistas já-falecidos como Cucha-Chata e Porrotó.

 

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