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Auto do Boi volta a ganhar importância no Festival com toada própria

A gênese da brincadeira voltou em 2015, após um longo período esquecida. Em 2106 ganhou uma toada, a homônima “Auto do Boi”, de Marcos Moura, João Kennedy e Éneas Dias, que conversou sobre a composição 23/06/2016 às 21:54 - Atualizado em 24/06/2016 às 15:13
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Foto: Euzivaldo Queiroz
ACRITICA.COM Parintins (AM)

O Auto do Boi está novamente "na moda” dentro do Festival Folclórico de Parintins. A gênese da brincadeira voltou em 2015, trazida pelo Garantido, após um longo e peculiar período esquecida, sendo encenada na arena do Bumbódromo. Em 2106 ganhou uma toada, a homônima “Auto do Boi”, de Éneas Dias, Marcos Moura e João Kennedy. A obra tem uma pegada de cordel, criando um ambiente propício para os personagens interagirem.

Na festa de lançamento do CD, a reação do público quando o Pai Francisco falou mostrou que a proposta dos compositores foi bem aceita pelos torcedores. Para saber um pouco mais sobre a inspiração, conversamos com um dos compositores, Enéas Dias, que contou como nasceu a ideia, assim como disse esperar que festival una o tradicional, na medida certa, com o novo.

Desde quando compõe para o boi Garantido?
Eneás Dias: Componho para o boi desde 1999, na época tinha 16 anos de idade. Nesse ano, pela primeira, gravei uma toada em estúdio para a disputa da seleção do Garantido para o CD de 2000. Permaneci até a seleção de toadas de 2002, quando percebi que faltava conhecimento musical para emplacar uma canção da grandeza do Garantido. Foi quando decidi parar por três anos e me dedicar às pesquisas musicais e folclóricas. Em 2005 emplaquei, junto com Marcos Boi, a toada “Curumim da Baixa”, primeira toada selecionada para um CD oficial.

Ano passado, o Garantido encenou pela primeira vez na arena o Auto do boi. Esse ponto influenciou a composição da toada? De quem foi a ideia inicial da composição, já que existe a parceria com outros compositores?

ED: Em 2012, quando eu e Marcos Boi compomos a toada "Auto do Boi" para o CD oficial do Garantido, tínhamos a intenção de enaltecer essa tradição tão fundamental e tão esquecida pelo boi. Em debates que tínhamos com o Grupo Ajuri, sempre ressaltamos a importância do Auto e questionamos o porquê de não incorporá-lo, novamente, ao festival, como protagonista. 

Com a reedição da toada em 2015, vimos que a semente que plantamos há alguns anos tinha dado frutos maduros, sendo regado com muito cuidado pela comissão de artes do ano passado - em especial Mencius Melo, grande defensor e profundo conhecedor da tradição do Garantido -, fazendo com que a toada, como um embrião, criasse um novo momento nesse “Auto do boi”, entretanto com mais afirmação e destaque nas apresentações. Com o novo pensamento, implantado no festival de 2015 e, numa conversa informal com João Paulo Faria (Pai Francisco atual do Garantido), grande entusiasta e colaborador dos meus projetos, e, claro, devido ao grande sucesso da encenação do Auto do boi ano passado, ele me “desafiou” a fazer uma nova toada para o “Auto do boi”. Fui desafiado a fazer algo novo dentro de uma história que havia trabalhado. 

Num processo de pesquisas para toadas de 2016, junto com meus parceiros Marcos Boi e João Kennedy (Os Baiás), encaramos o desafio de compor uma nova toada para esse momento. Quando falo desafio, é porque não é fácil fazer algo que foi falado de uma forma diferente, principalmente para não haver comparações com a nossa toada anterior.

Como avalia o Auto do Boi encenado em 2015?
ED: Avalio a encenação de 2015 como de fundamental importância para a memória e tradição do festival. Sou de um pensamento que o festival cresceu e se modernizou e isso é indiscutível e necessário, por se tratar de uma disputa. Mas, sou fiel a linha tradicional também. O que me leva a conclusão que o festival assim como as toadas devem dar ênfase ao "equilíbrio", onde a tradição e mudança devem andar juntas, sendo o maior exemplo, justamente, a apresentação do Auto do boi, no festival de 2015, como apologia a tradição do boi Garantido, tão falada e decantada. Foi um resgate explícito dos personagens que formaram a criação do boi bumbá, tão importantes e representativos. A intenção foi mostrar a força da nossa história, que jamais se acabará, pois vai além do festival folclórico, isso é a própria raiz cultural do povo vermelho.

Essa “pegada” de cordel foi proposital?
ED: Os personagens Pai Francisco e Mãe Catirina sempre estiveram presentes no festival, mas de forma engraçada, quase palhaços. A ideia foi se formando durante a composição, quando numa releitura do Auto cantado pela família Monteverde, encontramos uma forma de encaixar os principais personagens, dando voz aos mesmos. Amo, vaqueiro e Pai Francisco contam seus dramas; caboclos (índios) e o Pajé vão em busca da salvação, e Mãe Catirina com seu desejo pega a culpa pela morte do boi também. Vai do trágico ao cômico. Percebemos que o Auto teria que ser muita mais que uma música, mas um verdadeiro teatro caboclo, surgindo um jeito novo de se fazer toada, quase um cordel amazônico mesmo.

Por que colocar os personagens para falar?
ED: Para que o público que acompanha o boi e o que não acompanha, tenha um pouco da dimensão de como nasceu a nossa versão do Auto. Muitos jovens e visitantes talvez não tenham ideia de como tudo começou, por mais fictício que seja. Fazendo os principais personagens cantarem, seria uma forma de entendimento maior da história, e permitindo o protagonismo de outrora de personagens que sempre estiveram ali, mas bem pouco conhecidos, em especial Pai Francisco e Mãe Catirina.

Como define essa composição?
ED: Como um momento único para ficar na história do festival. Mostrar ao mundo que o boi Garantido tem uma tradição que jamais será igualada pelo boi contrário. Imaginamos um teatro, quase uma ópera regional e que o boi se prepare muito mais que o ano passado para essa apresentação. Que fique decretado que o Auto do Boi seja contado para sempre nas apresentações, pois somos do boi que avançou no tempo, mas não nega suas raízes.

O que representa o Auto do Boi para você, como artista?
ED: Sempre que componho sozinho ou com meus parceiros, gosto de colocar algo novo, principalmente se tratando da musicalidade e da poética da toada. O Auto do boi para mim é como beber água da fonte, me permite ser autêntico como o meu povo, me traz desafios, pois sempre há algo a se dizer. Me faz ver, como artista, que quando se respeita a tradição, a inspiração será eterna.

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