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Parintins 2017
ESTRUTURA

Terra dos bumbás tem disputa até por espaço no único cemitério da cidade

Espaço público já recebeu mais de 60 mil sepultamentos, incluindo os dos fundadores de Garantido e Caprichoso 26/06/2017 às 14:58 - Atualizado em 26/06/2017 às 18:23
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Cemitério fica bem próximo da Catedral de Nossa Senhora do Carmo (Foto: Márcio Silva)
Paulo André Nunes Parintins (AM)

Em Parintins, terra dos bois Garantido e Caprichoso, até pra morrer há disputa... mas por espaço! O único cemitério público da cidade, denominado São José, está superlotado e com problemas que comprometem seriamente a estrutura e locomoção de quem transita pelo local. A situação é tão problemática que no local, fundado em 30 de outubro de 1936 na administração do prefeito João Mello, e com 30 mil metros quadrados, as pessoas estão sendo enterradas umas sobre as outras, no limite de três por cada cova.

“Para enterrar um ente querido dentro de uma cova com restos mortais só mediante autorização, por escrito, de um familiar. Só com parentesco. Essa prática é feita nos cemitérios de todo o País”, explica José Ribamar Roberto, administrador do espaço funerário do município, mostrando um fichário contendo vários termos de responsabilidade assinados.

Em dias de enterros as pessoas passam por cima e pisam sobre as covas, muitas delas sem qualquer cobertura e apenas de areia, e pedindo licença aos mortos. O motivo são as construções de mausoléus fora do padrão e que ultrapassam muito o espaço de 2mx40cm de comprimento por 2mx40cm de largura destinado a cada gaveta. Em certos pontos as covas são tão próximas que é impossível não se pisar sobre elas.

Há vários espaços demarcados, com mais de 20 anos, e sob suspeita de estarem sem qualquer documentação. Outro problema é que há bancos de madeira e concreto que atrapalham a locomoção de visitantes e de familiares que vão sepultar seus entes queridos.

“Estão desorganizadas as sepulturas, não há arruamento, alamedas para passar os carrinhos dos defuntos, mas há construções irregulares, sim, já que o padrão é de 2mx40cm por 2mx40. Os bancos atrapalham”, comentou ele.

Só não há jeito pra morte, diz o administrador José Ribamar Roberto. “O cemitério está superlotado, mas a gente sempre encontra um jeito de acomodar alguém”, ressalta ele. Mas e o próprio José Ribamar tem uma cova no cemitério de Parintins? “Não tenho. Eu arrumo lugar pra enterrar os outros, mas pra mim não tenho”, brinca o administrador, que faz questão de pedir licença aos mortos ao pisar sobre as covas.

Escuridão e vandalismo

O cemitério também enfrenta problemas de escuridão, e várias vezes já ocorreram furtos de fios de cobre e lâmpadas. Ou seja: o vandalismo é constante. “Várias vezes nós já colocamos iluminação, e como os fios são de cobre, os vândalos vem e roubam. Agora nós já temos vigias à noite e já estão impedindo os crimes. Mas eu quero fazer um apelo à Manaus Energia para que pudesse nos ajudar a colocar uma rede como essa da rua, com postes de fibra, mais leves, para iluminar nosso cemitério. Dizer o que é preciso, qual o trâmite para conseguir essa iluminação aqui”, clara o administrador José Ribamar Roberto.

Primeiro moradorOutra particularidade estranha do cemitério é que ele, apesar de ter sido inaugurado oficialmente em 30 de outubro de 1936, desde 13 de abril de 1873 já recebia seu primeiro “morador”: Gentil Augusto Belem. “Aqui repouzam os restos mortaes de Gentil Augusto Belém fallecido a 13 de Abril de 1873. Dedica esta lapide o seu filho F. A. B. Orae por elle”, está escrito na lápide, localizada à direita da entrada do cemitério.

Fundadores dos bois estão sepultados lá

No local estão enterrados os fundadores dos bois Garantido e Caprichoso. O mausoléu de Lindolfo Monteverde, criador do Garantido, é grandioso, contendo o busto do pescador da Baixa do São José em bronze, um paredão em concreto com inscrições louvando sua pessoa, imagens sacras e um  cercado com correntes e bolas vermelhas.

Em outra quadra, bem menos imponente e cuidado, está Roque Cid, considerado o fundador do Caprichoso. A personalidade morreu em 28 de fevereiro de 1948. “Saudade de Esposa e Filhos”, está escrito em sua lápide.

O cemitério também tem, em uma cova mais simples, os restos mortais de Luiz Gonzaga de Souza, a quem algumas pessoas, principalmente familiares, pleiteam ser o fundador do Caprichoso – ele está enterrado junto com Izolina Gonzaga de Souza, que seria a sua esposa.

A estimativa é de que 60 mil pessoas já tenham sido sepultadas no espaço de 30 mil metros quadrados do Cemitério Público São José. A informação é do administrador José Ribamar Roberto. “O cemitério às fica cinco dias sem receber sepultamentos, mas depois quando chega no sexto dia chega 7, 8 e corresponde a 2 por dia”, diz ele.

Cemitério vertical é solução

A solução para os males da superlotação do cemitério de Parintins é, de acordo com o administrador José Ribamar Roberto, a construção de um cemitério vertical no local. Ele afirmou ter um projeto nesse sentido, mas que, para sair do papel, não depende apenas do poder público, mas sim dos familiares dos entes sepultados no tradicional local.

“Construir o cemitério vertical só será possível a partir do momento em que as famílias passarem a retirar os restos mortais das covas. E se todas as famílias que possuem gavetas prontas, exumassem os restos mortais dos seus entes que morreram há mais de três anos e levassem para gavetas, hoje mesmo o cemitério de Parintins ficaria com metade das vagas e daria, também, para construir a capela funerária que não temos, bem como o prédio da administração melhor , o almoxarifado ou depósito para guardar material de construção, teríamos uma boa iluminação, e depois que se construísse a obra vertical, um paisagista viria onde poderia poderia fazer um jardim, uma fonte luminosa, algo para tornar o cemitério uma atração turística e com certesa valorizaria ao redor. Se alguém quiser saber o projeto, é só me procurar aqui no cemitério”, disse ele. “Lá em Fortaleza, no cemitério Bom Jardim, chegaram a exumar 8 mil cadáveres, depois mais 8 mil e totalizando 16.500 para abrir espaço. As famílias parintinenses deveriam se unir para salvar o cemitério”, completa ele.

Familiar cobra melhorias no cemitério

O funcionário público Justino Ferreira Neto esteve na semana passada sepultando, junto com outros familiares, o corpo do pai, Laureano Ferreira, de 82 anos.

Laureano foi sepultado na mesma cova que o seu pai. “Meu pai foi enterrado em cima do meu avô, por simplesmente não haver mais espaço no cemitério, que está superlotado. Como você sabe, Parintins é uma cidade de 120 mil habitantes e até hoje só há um cemitério e ele não cabe mais ninguém. Os nossos governantes se preocupam com outras coisas e não com a parte dos cemitérios. O vereador Ray Cabeça tentou fazer um projeto de outro local, mas não foi pra frente, não teve apoio dos outros e ficou por isso mesmo. Mas a cidade precisa, pois nessa situação, para nós chegarmos na cova do meu avó, tivemos que passar por várias sepulturas. E já há algum tempo isso existe aqui na Ilha. Até agora nada foi resolvido e ninguém olha para essa parte dos entes queridos”, declara ele.

Além da dificuldade que há em se movimentar no cemitério São José, Justino Ferreira disse que tudo isso representa um desrespeito com as pessoas e os entes queridos. “Com certeza é um desrespeito. Os governantes pensam muito em ganhar dinheiro, e passar a perna nos outros e ficar com o dinheiro público, e não tratam de providenciar um novo cemitério. Na minha opinião acho que não é tão difícil e complicado. Basta ter um terreno plano e fazer outro. Morto não dá voto, né?”, disse ele. “A nossa família só tem essa cova, e ainda vamos providenciar para fazer outra gaveta para os outros próximos que virão. Todos sabemos que a vida é um ciclo, todo mundo vai ter que ir”, pontuou o funcionário público.

 
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