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Parintins 2017
SAUDOSISMO

Uma Parintins que ficou apenas na lembrança do povo azulado da Ilha

Integrante da Marujada de Guerra por 58 anos, Moisés Prestes Dray relembra como era a vida no lado azul e branco da Ilha Tupinambarana 26/06/2017 às 13:00
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Aos 85 anos de idade, Moisés Prestes Dray não consegue mais se apresentar pela Marujada de Guerra (Foto: Márcio Silva)
Paulo André Nunes Parintins (AM)

O lado azul da Ilha de Parintins já viu passar muita história, seja ela formada pelo esforço de pescadores, comerciantes e do povo de bairros como da Francesa, à manifestação cultural que atravessou o mundo: o Boi bumbá Caprichoso.

Com 85 anos de idade, o ex-pedreiro Moisés Prestes Dray já viu muita coisa na vida e pode falar de cátedra sobre o que aconteceu na cidade de Parintins nos últimos 52 anos, o mesmo número de realizações do Festival Folclórico da Ilha Tupinambarana. O octagenário é ex-integrante da Marujada de Guerra do Boi Caprichoso, tendo sido ritmista de palminhas, frigideira e cuíca do azul e branco por 58 anos. Uma verdadeira vida azulada.

"Foram tempos bem vividos. Quando nos encontrávamos (com o contrário) dava confusão. Era divertido, era gostoso”, fala, rindo ao mesmo tempo e voltando no tempo para falar da época do boi de antigamente. “Não havia essa padronização que tem agora, que se você for ‘jegue’ (mal vestido) você não entra. Nós brincávamos à vontade nas casas em troca de tacacá, mungunzá e cachaça com laranja da terra. E o peão botava pra brincar. Era bom, gostoso”, completa Dray.

Marujo de Guerra

Entre os colegas famosos de Caprichoso, Moisés Prestes Dray conheceu Roque Cid e Luiz Gonzaga, dupla a quem se credita, individualmente, a criação do Boi Azul e Branco. “Quando eu tinha 7, 8 anos, minha avó me levava para ver o ensaio do boi lá em um local chamado ‘Bobozinho’, perto da Casa Sony. Mas de lá pra trás (antes disso) eu não sei contar a história do Caprichoso”, comentou.

Para ele, o envolvimento dos torcedores e demais integrantes que “fazem” o  bumbá na festa caiu. Inclusive da Marujada de Guerra, item do qual ele fez parte por 58 anos. “Na brincadeira do Boi, a peça principal do Caprichoso se chama Marujada. Se esta Marujada, no Bumbódromo, ela ‘deslindrar’ (desandar), acabou o Boi. E o  menos beneficiado da brincadeira se chama Marujada. Deveriam ter um carinho estrondoso por ela”, desabafa Dray.

Ano passado, explica ele, membros do Caprichoso vieram   convidá-lo a sair novamente pela Marujada, mas ele recusou por questões físicas. “Não aguento, não tenho mais esse pique para ficar três horas em pé no Bumbódromo”. Dray é crítico até quanto à escolha da indumentária da Marujada de Guerra, que deve ser  “caprichada”: ele não gosta dos “camisões” simples. “ Já pensou, pô! Antes era bacana”.  

Outros tempos

“Nós dormíamos de porta aberta e sem qualquer problema”, conta Dray sobre uma das maiores mudanças que a cidade de Parintins viveu ao longo dos 52 anos de Festival Folclórico: a insegurança. Com sorriso fácil e cativante, ele abriu as portas da casa dele de um jeito receptivo, uma característica do parintinense. “Meus pais eram de Marrocos e judeus. Nasci e me criei aqui neste pedaço onde estamos”, disse ele, recebendo a equipe do caderno de A CRÍTICA em casa, localizada na rua Sá Peixoto, na Francesa.

 

“Parintins antigamente era pobrezinha. Nós fomos criados em um tempo onde a gente se ajoelhava para tomar a benção dos mais velhos. E ainda beijava a mão. Agora não tem disso não. Eu era menino e a vovó me acordava de manhã para encher a água no rio para quatro freguesias e eu tinha que ir na rua para comprar tamanco, caderno, livros. Não havia essa facilidade que tem hoje, que o Governo está pagando e o aluno não quer”, comentou ele, aproveitando para criticar aqueles estudantes que têm mais facilidades para estudar que antes, mas não aproveitam.

“Naquela época não tinha luz elétrica, usávamos lamparina. Minha avó fazia candeias de lata de leite: ela enchia de areia, umedecia ela com banha de peixe, colocava um morrão, acendia e aquilo demorava tempos e tempos”, comentou o experiente ex-marujeiro de guerra do Caprichoso. “Sou do tempo dos ferros de passar a carvão. Minha mãe tinha um”. Não tinha essa facilidade toda, completa Dray, que trabalhou dois anos nas obras do antigo estádio Vivaldo Lima, hoje Arena da Amazônia, em Manaus.    

Antigamente, lembra o ex-pedreiro, se dormia cedo e a iluminação era “pobrezinha” e precária, como ele mesmo frisa. “ Logo que apareceu a luz, ela ia de 6h até 7h30 ou 8h, e só pra enganar, como ‘diz o cabôco’. Era o tempo do respeito”, diz. Dray afirma que a cidade evoluiu, mas diz sentir falta de muitas coisas da Parintins de antes. De ver hidroaviões pousando nas águas do rio Amazonas, em frente ao Porto. Da fartura de carne, peixe, e de bichos de casco que eram vendidos por brincadeira. “Agora acabou. A  população cresceu estupidamente e não há nada que baste. Parintins mudou muito. Antes não se falava em, drogas”, conta ele.

A única coisa que não mudou ao longo desses 52 anos de Festival Folclórico, conta Dray, foi a paixão dele pelo Bumbá da Francesa. 

"A vontade é voltar no tempo"

O funcionário público federal e ex-presidente do Boi Caprichoso Arcinelcio Pereira Vieira, 76, viveu o que os mais antigos chamam de tempos áureos do folclore parintinense, e revela que uma das coisas das quais ele mais sente saudades, e  que gostaria de ver novamente, é de ver os bois brincando nos bairros, fazendo noitadas e arrastando multidões. “Isso seria muito bom”, ressalta  o ex-presidente do bumbá.

Arcinelcio disse que gostaria de voltar no tempo pelo seu azul e branco e reviver uma época em que o boi era uma brincadeira saudável. “Se eu pudesse voltar no tempo, com referência ao Boi Caprichoso, eu queria que voltasse a paz e a harmonia no nosso Boi. Antes todo mundo confraternizava. O Boi cresceu muito e antes era feito só com amor”, disse.

A principal diferença da Parintins de 52 anos atrás, para ele, é que a cidade cresceu e evoluiu muito com o surgimento de comércios e de novos bairros dos lados azul e vermelho, mas em contrapartida surgiram invasões: “E com isso proliferou a violência e cresceu a criminalidadade”, lamentou. Ele lembra dos velhos tempos, da rampa de madeira no trapiche do porto da cidade. Local que, segundo ele destaca,  possuía uma estrutura em formato de caracol que impressionava a quem desembarcava na Ilha Tupinambarana. “Trabalhei 44 anos no Porto e vi três desarrumações (problemas, confusões) lá”, relembra o aposentado.

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