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Parintins
BELEZA E GUERRA

A figura da cunhã e seu relacionamento com o empoderamento feminino

Cunhãs dos bois Garantido e Caprichoso demonstram consciência acerca da luta pelos direitos das mulheres. As cunhãs das próximas gerações, também 02/07/2018 às 03:34 - Atualizado em 02/07/2018 às 03:35
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(Foto: Divulgação)
Laynna Feitoza Manaus (AM)

A mulher indígena é a resistência viva. Sua capacidade de guerrear e ser animal e flor ao mesmo tempo transcende as gerações, seja na luta por seus territórios, por suas florestas, por sua família e seu trabalho. No Festival Folclórico de Parintins, a mulher indígena em sua força máxima é representada pelo item cunhã-poranga, tida como a mais bela mulher de uma tribo e que, por conta de sua garra e força, lidera o seu núcleo na arena do Bumbódromo. Com toda a premissa de empoderamento feminino atual, a mulher indígena se sobressai à frente da sua época, mostrando às demais mulheres qual caminho seguir diante do machismo que ainda impera na sociedade. E a figura da cunhã-poranga se torna um dos principais vetores desse legado.

Todas as mulheres têm uma história de superação. É no que Isabelle Nogueira, cunhã-poranga do Garantido, acredita. Isabelle afirma que é visível a desvalorização das mulheres nas questões empregatícias, onde nas mesmas funções que os homens acabam por receber menos. “No boi-bumbá, já sofri isso. Algumas pessoas insistem em dizer que nós, itens, somos garotas de programa, por exemplo. Isso para mim é um absurdo. Eu não sou uma garota de programa, sou uma atriz. Eu interpreto um personagem na arena. Não é a Isabelle quem está lá, é a cunhã-poranga”, declara ela.

Os comentários maldosos surgem, segundo Nogueira, devido ao seu item se apresentar na arena com poucas roupas. “Alguns dizem que é uma garota de programa por estar usando biquíni no festival. Acredito que sou uma personagem. Que represento a mulher indígena, a mulher amazônica, a mulher parintintin, e que sigo uma tradição. Seminua ou não, a maldade está na cabeça das pessoas. Eu não entro na arena para seduzir os homens de forma erótica. Entro para representar meu personagem”, coloca a cunhã vermelha.

Isabelle reforça a resistência indígena, que vem pelas mãos das mulheres. Ela cita o exemplo das indígenas que a alimentam de inspiração. “A mulher indígena tem o histórico de ter sido abusada pelos colonizadores portugueses. Passaram por tudo, resistiram e estão aqui. Tenho muitas amigas índias, a maioria delas é da tribo Tikuna. Fui visitá-las na cidade de Benjamim Constant, elas trabalham com artesanato para sobreviver. A maioria delas não tem maridos. A mulher indígena tem a força igual a das demais mulheres brasileiras. Uma mulher que resiste ao preconceito, que resiste à inferioridade, e que está na sua jornada rumo à existência, e que só quer ser valorizada e respeitada”, finaliza.

A forma com que a mulher indígena lida com as adversidades é ponto forte praticado na vida de Marciele Albuquerque, cunhã-poranga do boi Caprichoso. Em algumas situações da vida, a cunhã azul afirma ter sofrido machismo. “Mas nunca me sentir inferiorizada. Minha base de criação é muito boa, sempre soube do poder da mulher e que ela pode fazer, está e usar o que quiser. Jamais irei permitir que um homem ou até mesmo outra mulher me diminua por ser mulher”, declara ela.

Para Marciele, a mulher deve lutar por mais direitos ainda não conquistados, e, principalmente defender os que já são consolidados. A mulher indígena, segundo ela, tem auxiliado bastante nesse processo. “Algumas mulheres indígenas denominas ‘guerreiras’ estão se posicionando  de forma inspiradora nesse processo de empoderamento e busca de direitos... mostram a força que é tradicional dos povos indígenas e estão à frente de muitas batalhas mostrando que as mulheres têm espaço e voz! São realmente guerreiras e determinadas nessa batalha de equidade”, completa.

A cunhã azul possui várias motivações para ter se tornado este item em específico. “Meu sangue indígena, meu amor pelo Caprichoso, pela dança. O que mais gosto? O fato da cunhã-poranga ser uma índia (risos). Eu sou índia, meus traços são provas disso. Não me assemelho só na aparência, mas na personalidade que o item traz como mulher, forte e guerreira”, afirma.

Um futuro consciente

A força através da beleza foi um dos atributos que fizeram a estudante de administração Maria Letícia, 17, querer ser cunhã-poranga do boi Caprichoso. “A expressividade deve ser uma característica muito marcante, a firmeza nos passos, no olhar. Essas coisas me chamam atenção, pois transpassam à mulher poder no seu próprio ser. Um olhar marcante já denota a força”, comenta ela.

No município de Parintins é bem comum as meninas sonharem em ser item e com Maria não foi diferente. “Eu assistia às apresentações pela TV quando pequena e achava aquilo fantástico! E para mim só existia a cunhã-poranga, mesmo que naquela época eu não distinguisse muito bem os bois. Mas foi  em 2007, quando a Maria Azêdo passou a ser a cunhã do Caprichoso e eu fiquei encantada com ela, virei muito fã. E foi ali que a vontade aflorou”, relembra.

Letícia se considera empoderada de uma forma muito natural. E disse que isso se entrelaça entre o sentido de ser cunhã e ser dona de si. “Eu fui criada assim, meus pais sempre passaram à mim que eu poderia chegar à qualquer lugar por meus méritos. Que eu sou capaz, que basta eu me empenhar. Sei que existem barreiras e que nós, mulheres, muitas vezes temos nossa capacidade questionada, mas eu procuro ser nos mínimos detalhes do dia-a-dia altruísta e muito positiva comigo mesma e isso me dá a energia que preciso para de fato persistir no que quer que seja”, coloca.

Por volta dos oito anos de idade a estudante Júlia Santos, 17, já entendia quem era quem no boi, e curiosamente os itens pajé e cunhã-poranga foram os que mais lhe chamaram atenção. “Pensei ‘eu quero representar essa guerreira’. É isso que acho mais legal, esse ‘ser a guerreira mais linda da tribo’. Mais pela parte da guerreira do que da a mais linda da tribo. Mas toda vez que vejo uma cunhã entrando pela galera, entrando com as tribos fico pasma prestando atenção”, declara a jovem.

Assim como a imagem da cunhã-poranga, que retrata a figura da mulher em um cenário de guerra, Júlia também rompe barreiras: é uma das poucas mulheres a tocarem surdo, o instrumento de percussão mais pesado dentre os outros naipes, na Batucada do Garantido. “E no meu instrumento houve uma época que só havia eu de mulher, mas sempre fui tratada com carinho e respeito por todos”, comenta ela.

O fato da cunhã-poranga representar essa guerreira forte, com espírito de liderança, é o que mais fascina Júlia quanto ao item. “Para mim uma cunhã é uma mulher forte, mas que também é carismática”, conta ela, acrescentando que não sobra espaço para desigualdades. “Eu procuro sempre igualar as coisas, se vejo que tem alguém diminuindo o outro, me meto sim para defender, tanto mulheres quanto homens. Acho que todos são iguais com os mesmos direitos e deveres”.

Belas guerreiras da arena e da mitologia

Muito se compara a imagem da cunhã-poranga com as mitológicas guerreiras amazonas, mulheres indígenas que caçavam e lutavam, sem depender dos homens para isso. No mito amazônico, as amazonas escolhidas para chefiar suas tribos eram as mulheres mais fortes e, curiosamente, as mais belas. Para os povos ameríndios, existem apenas três fases: a criança, o adulto e o ancião. Nessa perspectiva, a Cunhã é a mulher e poranga é adjetivo de bonita. Mas, bonita no entendimento ameríndio não se refere apenas ao exterior, ao corpo, segundo a socióloga Márcia Oliveira, Doutora em Sociedade e Cultura na Amazônia.

“É uma totalidade. Bonita é a mulher que luta com garra, defende seu povo. Eis aí uma relação estreita com a ideia de Amazonas, as guerreiras que defendem seu povo, seu território. A beleza está muito mais relacionada ao papel das mulheres na sociedade ameríndia que na sua beleza apenas física. Aliás, a beleza física é algo muito relativo no entendimento ameríndio”, comenta ela.

Nesse sentido, a cunhã-poranga e as guerreiras amazonas se confluem. “São mulheres que colocam seu corpo na arte da guerra. Cuida-se do corpo não para exibí-lo aos demais, mas, para vencer na guerra. O corpo nesse sentido não é um objeto de prazer por ser dotado de beleza física. O corpo é instrumento de luta. Nesse corpo mora uma mulher capaz de lutar e defender seu povo, seu território, sua arte, sua dança (no caso dos bumbás) utilizando-se do seu corpo e dos seus atributos físicos para esta finalidade”, destaca.

Segundo Márcia, mulher e corpo são simbioses. Por conta disso, a beleza também está presente no contexto da luta por si mesmo. “Não existe uma parte do corpo mais ou menos importante. O corpo é uma totalidade. A performance dos cabelos, o gingado da cintura e a agilidade do compasso dos pés têm o mesmo grau de importância. Com seu corpo, sua garra, arte, competência e coragem a cunhã-poranga defende seu ‘boi’ na mesma proporção que a Amazonas defenderia seu povo e seu território.

A socióloga crê que os critérios que definem a cunhã-poranga vão muito além da beleza física. “Ela contagia com sua graça e doçura, mas, ao mesmo tempo, esbanja técnica, garra, força e coragem em defesa do seu boi com todas as suas capacidades físicas e intelectuais. Não é apenas a beleza física que conta. É o conjunto. É a totalidade conforme o entendimento ameríndio que não separa o corpo da alma, do intelecto, do encanto, da estratégia, da perspicácia que passa também pelo corpo, mas, não somente por ele.

Para Oliveira, manter-se com destaque na festa assume uma dimensão política, mesmo que a festa não tenha esse objetivo. “Entretanto, o lugar da mulher sem a dependência com a figura dos homens, numa relação de protagonismo, representa empoderamento político dessas ‘mulheres bonitas’ que são belas por seu esforço, técnica, coragem, e, acima de tudo, por sua capacidade de encantar e arrastar multidões para seu boi preferido”, completa.

Origem do nome

Até 1988, a cunhã-poranga não existia nos bois. Quem dava espaço ao item era a Miss do Boi. A professora aposentada Odineia Andrade, madrinha do Caprichoso, foi quem instituiu o termo “cunhã-poranga” para substituir a Miss do Boi. “Nós tínhamos esse termo americanizado que precisava ser substituído. ‘Miss’ não era um termo amazonense. Certo dia, estávamos reunidos com o pessoal que prepara o script do boi e nós achamos que era necessário trocar o termo. Ganhei um livro chamado ‘Kariwa’, e nele tinha o termo cunhã-poranga, que a colocava como uma bela mulher guerreira. Falei ‘vamos colocar um termo que represente as índias no boi-bumbá”, comenta ela.

Conforme Andrade, teve quem se mantivesse contrário à mudança, na época. “Nós tínhamos um amigo do contrário chamado Ruy Mendes. Ele não aceitou que fizéssemos a mudança, a não ser que provássemos que o termo era, de fato, indígena. Pegamos o livro ‘Kariwa’ e quando levamos para a reunião, todo mundo aceitou. A partir de 1989 nessa reunião, o termo foi substituído. Antes disso, as misses Amazonas era super disputadas pelos bois para serem as ‘Misses do Boi’”, comenta ela. Odineia se sente mais satisfeita com o termo cunhã-poranga porque este melhor representa o contexto tribal.

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