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Parintins
O FIM

Ato final de uma aventura: choramos e evoluímos na última noite de Parintins

Depois de treze dias mergulhados na cultura de Parintins, nos despedimos de nosso primeiro festival folclórico com a certeza de que nada sabemos sobre a imensidade da cultura dessa ilha 05/07/2018 às 14:35 - Atualizado em 05/07/2018 às 14:35
Show isa e felipe 5
Felipe Gramajo e Isabella Pina Parintins (AM)

Quase chegamos atrasados ao Bumbódromo na última noite de apresentação do Festival de Parintins 2018. Estávamos no aeroporto, resolvendo últimos detalhes das passagens de volta para Manaus. Veio, daí, o melancólico peso do iminente adeus ao que, aparentemente, nunca acaba. Mas se despede: os dias de boi bumbá.

Neste domingo tivemos o último trago da festa folclórica. E é difícil resumir a noite. Na verdade, não é. Mas não é possível ser fidedigna ao narrar o presente que os bois Garantido e Caprichooso nos ofereceram. Foi muito mais que aula de cultura. Foi muito mais que uma experiência de cobertura jornalística. Foi sabe Deus o que. Eu não sei. Felipe tampouco.

Então vamos à narrativa sequencial, de flashes e vivência do que experenciamos. De impressões que ficam e da mínima - quiçá pífia - noção do que o Boi Bumbá significa em sua essência.

O último ato

A noite começou com o Garantido. O bumbá abriu a segunda noite também. Lição do dia: a ordem de apresentações é via sorteio. Só aprendemos isso a caminho do Bumbódromo, no último dia de festival. Percebem? Nunca consegue-se aprender tudo sobre essa festa. 

O boi saiu do meio da galera. Surgiu assim, do nada. É mais ou menos assim que tudo funciona por aqui. As coisas aparecem, se transformam. Evoluem. Sob o forte tambor da batucada do Garantido, o espetáculo foi se desenrolando ali na nossa frente. Passamos, ao menos, 20 minutos iniciais com o pé colado no chão da arena que tão bem nos recebeu. À essa altura, eu, Isabella, me senti confortável o suficiente para sair cumprimentando integrantes da comissão, banda e um ou outro item que criei vínculo por puro olhar de admiração. 

O Felipe rodopiava com a câmera na mão e toda a pompa de quem muito admira a cultura, tecendo comentários sobre o "contrário". Caso não tenha ficado claro ainda: sim, cada um foi para um lado nessa jornada que embarcamos juntos. Ele escolheu o azul. Eu fui de vermelho. Logo, divergimos em toda a saga de "descobrimento". Impressões diferentes deram o tom da nossa última noite no Bumbódromo. 

Ele seguiu para fazer imagens, eu subi para assistir de camarote o espetáculo e fazer minhas anotações. Chorei com força em momentos marcantes da noite. A entrada da porta-estandarte, o boi gigante que tomou a arena... Até entoei, de improviso e por puro "reflexo natural", toada antiga. Imaginem só... Eu, que tive meu primeiro contato com o boi em 2018, arriscando um "Minha Sina", de 1999. Vai entender.

Vi companheiros de trabalho se emocionando durante a apresentação. E que fique registrado: não pelo boi em si. Pela experiência. Felipe também, claro, mais uma vez e sem falta, se emocionou. Se perdeu pelo Bumbódromo. Reapareceu quando o Caprichoso ia entrar. E lá fomos nós, mais uma vez, ao centro da Arena. Era para gravar um dos nossos últimos "capítulos". Era a vez do contrário. Do meu. Mas também caí no choro. 

O azul tomou conta do Bumbódromo, a voz de David Assayag ecoou, o berrante de Prince deu seu toque especial, e era, a partir daquelas duas últimas horas e meia, que viveríamos a emoção do festival. 

O Felipe desapareceu. Na noite anterior fez a mesma coisa. Acabou reaparecendo cheio de aparatos do Caprichoso. Foi passear nas arquibancadas. Foi viver o restinho de Parintins que sobrou. Ele vai embora logo nas primeiras horas da manhã seguinte. Eu ainda ganhei mais um dia na Ilha. 

Ritual da despedida

Enquanto isso, me "escondi" na redação para dar início ao texto de despedida. Encarei, por mais de meia hora, a tela em branca do bloco de notas. Tentei passear um pouco para pegar certa inspiração e, quando voltei, a equipe de apoio desmontava nosso QG no Bumbódromo. Como é engraçado. Tudo em Parintins ganha nuances ritualísticas. Pareceu um ato de "até logo". Resolvi escrever no improviso. E aí o Felipe reapareceu. Tudo toma forma, tudo vira história. 

A nossa, neste ano, terminou. 13 dias depois. E não dá para enrolar muito no adeus. É apressar o fim do texto como se os portões estivessem a se fechar. Juntar as malas, guardar com carinho aquele CD de toadas, e esperar um ano inteiro de expectativa por mais uma dosezinha de Parintins.

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