Segunda-feira, 09 de Dezembro de 2019
INCLUSÃO

Bumbás ampliam participação de pessoas com deficiência no festival

Em 2019, a Marujada de Guerra ganha o reforço dos alunos da Associação Pestalozzi de Parintins; enquanto que, no Garantido, o intérprete do Curupira rompe barreiras



ACEMARUJADACRIANCASJA0387_274BFEA9-9EBE-4DD3-B5D7-7C0C14A99B00.JPG Foto: Jair Araújo
27/06/2019 às 21:32

Enquanto o imponente som dos surdos da Marujada ecoava pelo Bumbódromo durante o último ensaio técnico do Caprichoso na arena, dez brincantes animadíssimos, que tocavam palminhas e maracás, roubavam as atenções de quem se posicionava nas laterais do espaço. Eram Maria Ramos, Rosilda Fonseca, Francinaldo Correa, Anselmo Souza, Hélia Freitas, Franciele Machado, Elieter Soares, José Serrão, Ericka Santarém e Raimundo Santos, pessoas com deficiência que, além de tocarem os instrumentos, tocaram o coração das pessoas sobre um assunto resgatado pelos bumbás a pouco tempo: a inclusão social.

Dos 10, oito dos alunos possuem síndrome de down; enquanto os outros dois possuem deficiência intelectual. Conduzidos pela professora Fridomar Reis, os pequenos marujeiros são alunos da Associação Pestalozzi de Parintins. "Recebemos um convite da associação do Caprichoso, que nos convidou pra participar dos trabalhos na arena com nossos alunos. Escolhemos aqueles que são, preferencialmente, torcedores do touro negro", conta Fridomar.



A turminha veio bem assessorada da escola, que possui professor de música, dança e educação física. Os ensaios musicais para a Marujada aconteceram na própria associação. Ainda segundo Reis, desde antes dos ensaios oficiais, o grupo já demonstrava ansiedade mil. O que não foi diferente no momento mais aguardado: o de se apresentar incorporados à Marujada.

"Eles vão participar de uma das noites do festival, ainda não nos foi passada qual será. Eles estão muito animados, muito felizes mesmo. Só vimos felicidade neles durante o último ensaio", declarou ela, lembrando que todos estão legalmente autorizados a participarem da atividade. "O convite aconteceu e nós fomos visitar as famílias deles para pedir permissão. Só que familiares diziam que eles já queriam mesmo participar", diz Fridomar.

A professora se sente muito feliz em compartilhar a alegria dos alunos - e endossar a ideia de que todos merecem ocupar espaços. "Estamos saindo das casas e escolas. O boi trabalha muito bem a inclusão com nossos alunos. A sociedade tem que aceitar as pessoas como eles sã: sujeitos de direito", completa Reis.

Pequeno notável

Nas paragens vermelhas, um certo rapaz cativou os responsáveis pelas comissões de arte do boi Garantido e recebeu a missão de personificar, na arena de Parintins, a lenda do Curupira. É o dançarino Moisés Azevedo, 31. A coluna de Moisés não desenvolveu totalmente, o que acabou comprometendo o seu crescimento físico. No Bumbódromo, porém, a tendência é que ele se agigante cada vez mais.

"Tudo começou com os dançarinos do grupo Garantido Show. Eles botaram na cabeça que eu podia ser o curupira. Eu, na verdade, não imaginava nada", coloca ele. A primeira vez que ele incorporou a entidade guardiã das matas foi na Cidade Garantido, durante o lançamento do CD "Nós, O Povo". "Me senti muito feliz", complementa ele, que não fez nenhum tipo de estudo formal para encarnar o curupira: o que ele utilizou para construir o personagem é baseado apenas no que o conselho de artes apresentou pra ele e na toada "Sete Espíritos", que "musicalizou" a lenda no disco.

O coordenador cênico coreográfico do bumbá vermelho, Ricardo Pegueite, alega que, além de Moisés, o boi vai contar com o suporte de interpretação de libras na hora das toadas. "Nossa preocupação com o Moisés é tão grande que colocamos uma foto dele junto com os itens", diz, falando sobre o famoso "corredor dos itens", instalado na Cidade Garantido. Mendes participará das três noites do festival: na primeira como curupira; na segunda pela lenda Wadye; e na terceira, durante a lenda das flechas serpentes.

"Moisés já trabalhava com a gente na parte artística da confecção das indumentárias e composição das lendas e rituais. De repente, ele tava sentadinho lá e colocamos ele pra participar do nosso Tribão em 2010. Ele começou a dançar e vimos que ele tinha ritmo pra dança. Incluímos ele no Garantido Show e se soltou mais ainda porque passou a ser figura principal. É ele quem se produz, que confecciona máscara, fantasia, tudo dele", completa Pegueite.

Desde o lançamento do álbum do Garantido, a preparação do curupira de Mendes tem sido intensa. Nessa reta final, o dançarino tem ensaiado uma vez por semana e recebe o reforço do Garantido Show. Mendes explica que, mesmo com o preconceito sofrido por conta da limitação física, nunca se sentiu inferior. "Nunca pensei que não conseguiria. O que posso dizer para as pessoas com as mesmas limitações que as minhas é que busquem melhorar a situação delas. Sempre com fé".

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