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Parintins
MARCANTE

Bumbódromo faz 30 anos: 'testemunhas' da história relembram inauguração

Do servente de pedreiro que ajudou a levantar a obra às crianças que entregaram a placa de inauguração: conheça as histórias de quem esteve lá 25/06/2018 às 11:16 - Atualizado em 25/06/2018 às 14:17
Show bumbod
Paulo André Nunes Parintins (AM)

Neste 53º Festival Folclórico de Parintins o palco maior de apresentações dos bois Caprichoso e Garantido, a arena principal dos dois bumbás, o Bumbódromo, está completando 30 anos de muitas alegrias, dramas e histórias que começaram em 28 de junho de 1988, data da sua fundação. A partir daquele dia, a cidade, localizada a 325 quilômetros de Manaus, passaria a viver um novo momento, e ser reconhecida como capital de um dos maiores eventos culturais não “apenas” do Brasil, mas de todo o Planeta, e a receber milhares de visitantes todos os anos. 

Quem esteve no Bumbódromo no dia da inauguração lembra como se fosse hoje da emoção que foi Parintins ganhar um teatro a céu aberto no meio da floresta amazônica. Várias particularidades e curiosidades marcaram aquela sexta-feira histórica na Ilha Tupinambarana.

Na época, coube às crianças Reane Azêdo, pelo Caprichoso, e Aisha Faria, pelo Garantido,ambas com 11 anos, entregar uma placa de agradecimento ao então governador Amazonino Mendes, idealizador da obra, antes da apresentação dos dois bumbás.

“Foi muito emocionante eu, em meio a tantas pessoas, ter sido a escolhida pelo lado do Caprichoso para entregar a placa. Para mim o Bumbódromo é um marco importante não só para a minha vida, mas também para a economia da cidade”, fala Reana, hoje com 42 anos, que já trazia, naquela época, a experiência de se apresentar no azul desde a época do antigo tabladão como estaque originalidade luxo e na Marujada de Guerra. “É um privilégio, depois de 30 anos, continuar indo ao Bumbódromo para prestigiar o Boi-bumbá Caprichoso”, ressalta

O próprio Amazonino, aliás, se apresentou nos dois bumbás junto à Batucada do Garantido e à Marujada do Caprichoso, inclusive tocando xeque-xeques animadamente aos 49 anos de idade.

Início vermelho

Coube ao Boi Garantido abrir o primeiro dia de apresentações do novo Bumbódromo, com o seu tradicional e histórico apresentador oficial Paulinho Faria sendo o mestre de cerimônias vermelho e branco.

“O nosso primeiro ano foi marcante porque o Garantido apresentou aquele boi espetacular que jogava cagila aromática na galera, o famoso banho de cheiro, o Belezão, que entrava e deixava aquele aroma de patchouli, de cumaru, de jasmin. Eu tenho certeza que aquilo ajudou muito o Garantido, pois foi um momento emocionante. Outro grande momento foi a Tribo das Tupinambás, que era coordenada pela minha irmã, Graça Faria e dava um grande show. Foi também o último ano da Miss do Boi, item que foi extinto e passou a ser Cunhã Poranga”, disse ele.

O Boi Garantido foi o campeão no primeiro ano da nova arena e no ano seguinte também, lembra Paulinho. “Esse primeiro ano foi um dos títulos mais importantes para o Garantido pois foi o primeiro da nova arena”, conta o ex-apresentador.

Sobre as diferenças dos bois de 1988 para agora, ele disse que antes as associações folclóricas se apresentavam com 150 a 200 integrantes, e com figuras como pai Francisco e Mãe Catirina, tuxauas, poucos vaqueiros e com lança de papel crepom. “Hoje é uma grandiosidade devido à divulgação da festa, os grandes patrocinadores vêm pra cá e foi preciso melhorar as alegorias. O Festival hoje é grandioso e fantástico pois é uma festa que vale a pena vir para assistir porquê é uma verdadeira ópera a céu aberto.Um dos melhores espetáculos do Brasil com certeza”, analisa Paulinho Faria.

Vaqueira

Nessa época o boi Garantido trazia para o Bumbóromo o ítem não-concorrente do vaqueiro, que em 1988 foi interpretado pelos irmãos  Simone Valente e Franklin Valente. À época Simone tinha 16 anos, hoje tem 46 anos, é autônoma e chefe de cozinha e lembra do primeiro dia da arena com brilho nos olhos. Eles foram as pessoas seguintes a a entrar na arena após o o ex-apresentador Paulinho Faria, que abriu a festa vermelha e branca. “Foi emocionante demais. Me arrepiei todinha quando entrei na Arena e vendo a galera contar 1, 2, 3. Toquei o berrante junto ao meu irmão, para a entrada do Boi Garantido. O Bumbódromo,pra mim é muita paixão e amor: é o Festival de Parintins”,conta ela,que também coreografava setores do boi e que esteve nos Estados Unidos durante cinco anos levando a cultura do Festival para os gringos.

Discípulo do Mestre

Em 1988, o conselheiro tutelar Markinho Azêvedo, consagrado ex-tripa do Boi Caprichoso, nascido na rua Cordovil, um dos redutos do Azul, era ajudante do mestre Jair Mendes (que foi o artista que criou os movimentos robóricos para os bois-bumbás e que atualmente defende o Garantido).

“A partir de 1986 comecei a fazer parte da equipe do maior e mais respeitado artista dessa terra, Jair Mendes. Me tornei braço-direito dele, pai e filho na arte, e hoje tenho um legado dessa época. Em 1988, tínhamos a tourada, que era uma cena com vários toureiros, como na Espanha, e o seu Jair era quem fazia o boi-bumbá evolução. Ele confiava em mim para assumir o boi nos momentos em que descansava. A partir daí fui tripa oficial do Boi Caprichoso”, explica ele. Em 1994 e 1995, Markinho  defendeu o Garantido, e foi responsável por evoluções como fazer o coração do boi pulsar na testa. E por resgatar a estrela na testa do Caprichoso, além de espelhar o símbolo em questão.

“As lembranças são muito grandes pois nós viemos de um bumbódromo tão pequeno e no momento que começaram a construir esse novo nós ficamos impressionados . Houve muitas críticas como ‘pra quê um Bumbódromo desse tamanho para um festival tão pequeno em uma ilha do Amazonas?’. Mas, se você for olhar para a proporção de outros países, vejamos a Torre Eiffel,em Paris: ela foi achada como um exagero, e hoje é o que é. O Bumbódromo se tornou uma arena respeitada em todo o mundo, uma arena respeitada em todo o mundo”, analisa ele, que segue no Caprichoso como confeccionador do boi oficial e é tripa reserva do filho, Alexandre Azevêdo, que é o titular.

Servindo ao Bumbódromo

O fotógrafo Paulo Sérgio Sicsú dos Santos, de 48 anos, atua como instrutor de fotografia no Liceu de Artes Parintins, que vai completar 5 anos dentro do próprio Bumbódromo. Em 1988, aos 17 anos, ele ajudou literalmente a construir o centro cultural: era servente de pedreiro. “Como todo jovem eu era curioso e estava empolgado com a construção. Foi divertido, eu não sabia fazer nada, mas disse que aprenderia rápido. Cavei buraco, quebrei concreto e carreguei cimento na cabeça. Não foi fácil, e eu levava a sério porque senão me machucava. O fim do meu contrato, que era de três meses, foi 29 de junho”, relembra ele.

Ajudar na construção faz Sicsú voltar no tempo e se emocionar. “Foi um marco. Olho pra isso aqui, não só pela edificação, mas pelo que ele representa pra cidade. Tem um pedacinho nosso aqui. Das brincadeiras que se tirava no meio dos ‘peões’. Ficaram muitas lições. Isso foi um passo importante que eu dei na vida, de valorizar o trabalho, independente de qual seja. É a responsabilidade de fazer bem feito. Trabalhar aqui foi como um laboratório para mim quando a fotografia entrou na minha vida. Costumo dizer que eu sou fotógrafo de nascimento, pois meus pais eram fotógrafos. E o Festival veio na época em que eu precisei trabalhar, quando meu pai adoeceu. No início foi necessidade; depois virou prazer.

Odinea Andrade, historiadora, conta como surgiu a ideia

“O Bumbódromo é fruto de uma conversa entre Gláucio Bentes Gonçalves e Amazonino Mendes, num palco simples,onde estavam acontecendo o Festival. E o Amazonino perguntou ao Gláucio: ‘Vamos fazer um palco para esta festa?  Fiquei sabendo dessa conversa e pensei: ‘Jesus, mais uma promessa, mais um elefante branco’. Coloquei nas mãos de Jesus pois era natural que estávamos precisando de uma obra dessas, de um local onde pudéssemos colocar nosso espetáculo. Quando a obra começou a ser erguida, bonita, que surpreendeu  a todos, com a cara de um boi, eu me questionava se daria certo. E deu tão certo que eu hoje digo obrigado Amazonino Mendes. Hoje temos instalado o Liceu Cláudio Santoro onde funcionam várias oficinas. Me sinto feliz pois dentro do boi eu achava que estávamos mutilando alguns pedaços da geografia de Parintins. Fiquei tão feliz que até hoje, quando entro no Bumbódromo, eu respiro fundo e digo que sou uma atriz dentro desse palco. E eu represento muito bem meu papel seja onde me coloquem”.

Arquitetura em cabeça de boi

A arquitetura da arena é ao mesmo tempo curiosa e excêntrica: ela foi concebida no formato de uma cabeça de boi literalmente. Construído em formato de arena muito antes da Fifa adotar um padrão para os estádios de futebol, o Bumbódromo possui capacidade para 17.500 espectadores.

Sua concepção iniciou em 1987, quando o então governador Amazonino Mendes foi assistir o festival e prometeu construir um local do tamanho que o festival merecia. A promessa foi feita ao então prefeito de Parintins, Gláucio Gonçalves, durante uma conversa. No ano seguinte foi inaugurado o Bumbódromo.

O festival propriamente dito começou em 1965, e o evento foi sediado em outros locais antes de, em definitivo, o Sambódromo ser seu espaço maior: as quadras da catedral de Nossa Senhora do Carmo, a da extinta CCE e o estádio Tupy Cantanhede.

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