Domingo, 09 de Agosto de 2020
SEGUNDA NOITE

Caprichoso promete ritual dançante ao som de Waiá-Toré

Toada de ritual que virou sucesso entre a galera azulada vai fechar a segunda apresentação do bumbá, com alegoria de Kennedy Prata



ACE_EQ.-1073_F4C10C53-61C3-417E-8E1A-2FF09E395550.JPG (Foto: Euzivaldo Queiroz)
29/06/2019 às 17:26

Em tupi-guarani, Waiá-Toré significa a cerimônia da dança sagrada realizada por diversos povos indígenas. No Boi Caprichoso, o termo se transformou em toada oficial este ano pela autoria de  Ronaldo Barbosa Júnior, filho de Ronaldo Barbosa, um dos maiores compositores do Boi Caprichoso, e é uma das alegorias de ritual mais esperadas da temporada deste 54º Festival Folclórico de Parintins, sendo assinada pelo talentoso e jovem artista Kennedy Prata Moraes, 33.

Gigantesca, a alegoria do ritual que vai encerrar a segunda noite do Caprichoso no Festival Folclórico, dia 29, terá aproximadamente 15 metros de altura, 32m de frente e 20m de profundidade. Colossal, ela vai retratar um ritual afro-indígena que une dança, religião, luta e brincadeira.



“Ele será um ritual dançante, onde a tribo indígena faz seu ritual dançando, no encontro do negro com o índio, na mata. O índio o acolheu, e ambos juntaram as suas crenças formando o grande Waiá-Toré, trazendo como destaque a Jurema, que se transformará em uma grande onça e se revelará trazendo o pajé. E a alegoria em geral vai trazer transformações”, informa ele, sobre a estrutura que levou três meses de trabalhos, fora a concepção de desenhos. E concluímos uma semana antes”, disse o artista, que coordena uma equipe composta por 17 pessoas entre ferreiros, soldadores, pintores, escultor e serviço em geral.

Segundo Kennedy Prata, dar vida a uma alegoria como a Waiá-Toré “é uma honra muito grande independente da toada dele (Ronaldo Barbosa Júnior) , que está fazendo o maior sucesso”. Conforme Prata, ter essa parceria é motivo de felicidade, “sendo ótimo para esse grande trabalho que será desenvolvido na Arena do Bumbódromo”.

Em sua sensibilidade, o artista diz ter noção da expectativa que sua alegoria gera no público azul e branco: “Todo mundo chega comigo e fala que quer ver o Waiá-Toré, é ela que gera essa sensação e tenho fé em Deus que vou representar bem essa toada na arena. Fazer novamente um ritual no Caprichoso é a realização de um sonho dentro do Boi que eu torço. Minhas primeiras alegorias foram de “Celebração do Momento Folclórico” e tive a oportunidade de me destacar até o ponto de me ‘darem’ o ritual”.

O desafio maior, segundo ele, foi fazer algo que pudesse surpreender. A cada ano que se passa você tem que se surpreender. Neste ano, também foi preciso adaptar materiais que estavam escassos este ano, como a juta, por exemplo. E foi preciso ver outros materiais para o ritual, como tecido, que é mais utilizado em lendas e figura típica, como faiulete, TNT, organza e outros diversos, pontua o artista de ritual. 

Hit azul

Sobre a toada Waiá-Toré, Kennedy Prata conta que ela, curiosamente, se destaca em meio a um mundo de composições no qual nem sempre músicas de lenda e ritual se destacam. “O público se encanta com as toadas que são de galera, e ritual e lenda amazônica é mais coisa alegórica de arena. Um ritual ‘pegar’, e cair na ‘boca do povo’ e viralizar, com todo mundo cantando e girando, é muito bom. É uma toada que está sendo esperada e bastante divulgada e do qual as pessoas perguntam quando vai ser o ritual. Pra mim é uma satisfação enorme”, destaca ele, sobre o hit azul.     

Jovem talento

Oriundo da Escolinha de Artes do Boi Caprichoso, onde entrou aos 12 anos e saiu aos 15, o então garoto foi trabalhar com setores como tribos, de lá foi fazer trabalhos cada vez mais complexos como pintura de tuchauas. Isso até Juarez Lima gostar do seu trabalho e o chamar para fazer um trabalho no barracão do próprio Caprichoso, em 2003. Cinco anos depois surgiu a oportunidade de viajar para fora do Estado e se destacar no Carnaval do Rio de Janeiro, onde passou dez anos na Beija-Flor de Nilópolis e na qual foi tetracampeão até deixar a agremiação e seguir para a Acadêmicos do Salgueiro onde está até hoje.

O destaque que ele teve fora do Estado, inclusive sendo personagem de matérias para redes de TV nacionais pelo talento na pintura, o fez voltar para o Boi Caprichoso já como artista de ponta e de alegoria há cerca de seis anos.    

Drama e vitória

No ano passado, Kennedy Prata protagonizou um dos maiores dramas do Festival de Parintins: sua alegoria, “Ritual de Transcendência Yanomami” pegou fogo às vésperas da apresentação, gerando uma comoção tão grande que não apenas operários do galpão do Caprichoso, mas também do Boi Garantido, se uniram para apagar o sinistro. À época, a toada que embalou a alegoria na arena era de autoria de Geovane Bastos.

Daquela época, ele conta ter tirado lições importantes. “Tive vários ensinamentos, e um deles foi o ego de ter feito um trabalho grandioso em 2017 , e ter me destacado no meio de grandes artistas que têm nome. E por ter feito um nome devido grandes trabalhos o ego sumiu. Quando aconteceu aqueles acidentes e você vê seus amigos lhe ajudando, do próprio ‘contrário’. Outro aprendizado foi a questão de soldas na concentração, que causou o incêndio. Nesse ano vim para não usar mais solda, e sim braçadeira e encaixe, por exemplo. É até um conselho aos novos artistas dessa geração, como forma de se precaver”.

Ano passado, durante os momentos dramáticos do incêndio, Kennedy Prata  falou uma frase que, até hoje, ainda é impactante, e que na época soou premonitória. “Ontem foi o choro, hoje a alegria, amanhã a vitória”, resumiu o artista. Após a apuração, veio realmente a vitória. E agora? “Tem mal que vem para o bem, não é? Apesar de tudo não foi a alegoria que queríamos, mas entramos para a arena com o apoio da nação azul e branca e conseguimos. Papai do Céu maravilhoso coloca palavras na nossa boca e falamos isso. E tenho certeza que esse ano vai ser a mesma coisa, mas sem choro, só alegria dessa vez!” 

GLOSSÁRIO 

TROCANO: instrumento de percussão usado para comunicação entre as tribos. Os sons produzidos com os golpes dos trocanos podem alcançar uma distância de 10Km
 

Repórter de A Crítica

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