Sábado, 17 de Agosto de 2019
FOCADO

Com a cabeça no Caprichoso, David quer manter aproveitamento

Levantador de toadas diz que boatos sobre sua saída são feitos para desarticular o Boi e relembra grandes momentos vividos nos dez anos defendendo a cor azul



ACE_EQ-0992_FE76FC4A-63D3-4B56-8FB7-16FE34DD109D.JPG (Foto: Euzivaldo Queiroz)
28/06/2019 às 12:56

David Assayag, 50, tem metade da sua vida – 25 anos – dedicada ao Festival Folclórico de Parintins, sendo 15 pelo Boi Garantido e completando, este ano, 10 de Boi Caprichoso. E a “Voz que Vem da Floresta” e “Rei David” não pensa em deixar o Touro Negro da Ilha Tupinambarana.

“Os contratos no Caprichoso são anuais, ou seja, fechados por temporada, e o Boi nos deixa bem à vontade para escolher os rumos. Mas minha intenção é permanecer aqui no Azul e Branco onde sou feliz e vou completar 10 anos”, disse o levantador de toadas oficial da associação folclórica.

Em todos os anos surgem notícias de que o artista poderá voltar ao Garantido. No entanto, sobre essa “fábrica de boatos”, David comentou que “isso é criado para desarticular o boi”. “O Babá (Tupinambá, presidente do Caprichoso) fica muito louco com esse negócio, e inclusive me manda gravar vídeos desmentindo essas coisas. Mas isso é bom pro Festival, é salutar”, brinca ele. 

David foi fundamental nas conquistas do Caprichoso, sendo que desde o seu retorno ao boi integra a ala musical não apenas como levantador de toadas, mas também como membro da equipe técnica que escolhe as toadas oficiais junto com o Conselho de Arte. Ou seja: a toada com seu crivo é certeza de aprovação. E sucesso, como nos últimos tempos.

“Estamos nestes 10 anos com 70% de aproveitamento, com seis títulos, e isso é uma vitória imensa para todos nós. E realmente estamos desenvolvendo esse trabalho há muito tempo. Já temos experiência de vários festivais e temos tranquilidade absoluta e felicidade por estarmos, ainda, colaborando com o Festival Folclórico de Parintins”, conta o levantador de toadas.

No Festival ele já passou por várias emoções. Mas, foi o 2012 que ele guarda com recordação após uma “surpresa das alturas”.

"Houve muita coisa legal que aconteceu no Bumbódromo, mas uma coisa marcante foi no ano de 2012 quando eu, dentro do camarim, fui avisado da chegada de bombeiros com cintos de segurança e eu não sabia de nada, mas já haviam testado o guindaste. E eu perguntei pra quê tudo aquilo e eles me disseram que era pra mim sair no guindaste. Eu perguntei se era seguro. Mas o parintinense é radical, e eu sempre fui na minha vida e, então, aceitei o desafio. Foi maravilhoso, entrei no Bumbódromo içado há 70 metros de altura; o momento da minha entrada foi cantando a toada “Sensibilidade”, uma loucura, a galera veio abaixo. Foi o ápice do Festival à época”, relembra ele.  

A voz potente, celebrada antes nos tempos do Canto da Mata – uma das bandas mais icônicas do Caprichoso - passando pelo Garantido e agora novamente no azul e branco é um dom divino, para o levantador.

“Graças a Deus meu dom de cantar vem desde criança. E vamos fazendo todos esses anos esse trabalho de excelência, graças a Deus. É um dom divino, vem Dele, que fez”, contou.

Por falar em Deus, David Assayag desmentiu que tenha virado evangélico: “Eu sempre fui em todas as igrejas, sou de Deus e gosto de Deus. Vou na igreja Católica, nas evangélicas. Acho que buscar a Deus não é outra coisa, não: tem que acreditar, só”.

Segundo ele, uma das receitas para manter a voz saudável é não ter vícios. Neste ano, ele teve um problema sério de refluxo, não cuidou bem da alimentação e isso acarretou dele ter ficado de fora dos ensaios técnicos do Caprichoso, visando resguardar a voz. “Mas já estou em tratamento, já consigo cantar. Faço preparação e muito exercício vocal. Uma coisa que é incrível é que eu não consigo tomar nada quente, só gelado, o que contraria a ordem da minha fonoaudióloga. Acho que é uma coisa que minha corda vocal já se acostumou”.

Acidente

Ter o dom da voz vem desde os tempos em que David enxergava. E foi apurado nas aulas do conservatório para adquirir técnica mesmo. Num acidente aos 16 anos, ele bateu a cabeça e descolou a retina, perdendo gradativamente a visão e completamente aos 19 anos com a atrofia do nervo ótico. Mas nadfa está perdido, anuncia o levantador do Boi da Estrela.

 “Naquela época infelizmente não havia toda essa evolução da oftalmologia. Mas sempre buscamos (a cura) e estamos sabendo que existe um médico que está revolucionando essa área em Coimbra (Portugal), já marquei consulta para setembro. Ainda vamos divulgar isso melhor e precisar da ajuda de muita gente. Sempre busco voltar a enxergar, que é maravilhoso. Mas nem por causa da cegueira deixei de ser um cara extrovertido, sou sempre alegre, conto piadas, sempre brincando. Sempre tenho esse lado bacana, de gostar de estar do lado do povo. Sou parintinense nato”, diz o artista.  

O jeitão irreverente fez, com o passar dos anos, Assayag passar a ser fashion: ele tatuou em seu braço esquerdo a Estrela de Davi, marcando em seu corpo o amor pelo Boi Caprichoso. Há alguns dias, inovou ainda mais ao cortar o cabelo mais curto e o colorir de azul. “Esse cabelo azul é só pra tirar onda. A ideia foi minha mesmo”, confessa o levantador, dizendo que vai ficar ainda mais azul para as três noites de 28, 29 e 30 do Festival. 

Ser amado

David é quase uma unanimidade no mundo bovino, sendo um item que é amado no Festival Folclórico de Parintins, o que faz se emocionar.

“Pôxa, isso é maravilhoso, até porquê eu sempre fui contra a política dentro do boi, que causou minha saída do Boi Garantido, praticamente. Mas eu sempre gostei muito e respeitei muito a galera do Garantido. Tem aquelas brincadeiras do Festival, mas isso é supernormal e eu sempre respeitei. E a galera do Caprichoso realmente me acolheu muito nessa volta pro Caprichoso. Tenho um carinho muito grande pelas duas galeras e pelos dois bois. E esse carinho maravilhoso vem por sermos amados pelas duas galeras. Fiz um trabalho maravilhoso no Garantido e agora 10 anos no Caprichoso”, destaca.

Hoje, relata o cantor e compositor, não existem mais as críticas ferozes de há 10 anos quando ele deixou o Garantido: “Na época tive uma falha na qual não justifiquei a minha saída, mas hoje as críticas já não existem mais”.  

Ritual

Para ele, o ritual antes de entrar para se apresentar nas três noites é orar, pedir proteção. “No mais é isso mesmo, e confiar no boi que foi feito. Nos últimos anos o Babá (Tupinambá, presidente do Caprichoso), vem fazendo um Caprichoso muito bonito, e esse ano não vai ser diferente. Segundo ele vai superar o do ano passado. Esperamos coisas maravilhosas”, declara.

Realmente, diz David, o “Caprichoso está bonito e vai trazer esse tricampeonato para o nosso Curral Zeca Xibelão, se Deus quiser”.

"A galera pode esperar de mim muita garra, muita voz que realmente a gente vai precisar muito. O repertório vai estar bem intenso e vai ser muito bacana, gente. Pode esperar um grande Festival do Caprichoso” .

Segundo o artista, a expectativa é ser tricampeonato, com as responsabilidades dobradas: “Vivemos um ano de tricampeonato, faz muito tempo que o Caprichoso não leva o tri, e a última vez foi em 94-95-96. As responsabilidades são dobradas e acho que foi muito benéfica a escolha das três noites. Está nas mãos dos jurados”. David quer quebrar o tabu e buscar, em 2020, um inédito tetra pelo Azul: pelo vermelho, ele foi tetracampeão em 1999, 2000, 2001 e 2002.

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