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Parintins
CONSAGRAÇÃO

Compositor Ronaldo Barbosa comemora 100 músicas lançadas pelo boi bumbá Caprichoso

Em atividade no Caprichoso desde o final dos anos 80, o compositor terá suas músicas representadas em lendas indígenas no 53ª Festival Folclórico de Parintins 29/06/2018 às 14:04 - Atualizado em 30/06/2018 às 10:56
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Ronaldo Barbosa é pai dos hits 'Pesadelo dos Navegantes', 'Gene', 'Réquiem: Prece aos Espíritos'. Foto: Márcio Silva
Alexandre Pequeno Parintins (AM)

"Alçar as velas, desaportar as caravelas, esquadras do Velho Mundo, do oceano ao rio-mar". É unânime: todos os amantes da cultura popular do município de Parintins já ouviram e ensaiaram alguns passos da canção "Pesadelo dos Navegantes", do boi Caprichoso. Lançada em 1996 no disco "Criação Cabocla", a música é de autoria do antropólogo, filósofo e compositor Ronaldo Barbosa, conhecido por diversas outras canções populares. Em 2018, no 53º Festival Folclórico de Parintins, Ronaldo comemora 100 toadas emplacadas em discos do boi azul.

"Traidor" é a centésima canção composta por Ronaldo e está presente no disco "Sabedoria Popular: Uma Revolução Ancestral". Ao lado dela, outras composições do artista também foram inseridas, como as músicas "Terror das Noites", "Azulou", "Boto romanceiro" e "Sissa: Uma história de Amor", sendo as três últimas em parceria com o compositor Simão Assayag.

De acordo com o Ronaldo, suas canções não são elaboradas a toque de caixa e ele não segue a temática estipulada pelo bumbá. "Cada compositor tem uma metodologia de trabalho. No meu caso é um lance de inspiração. Não vou pelo tema e sim pela inspiração. Não faço música por encomenda, minha música é voltada ao caráter de inspiração poética", explica.

Na mitologia indígena, a lenda por trás da centésima toada, como o próprio nome sugere, fala sobre um episódio de traição. "Ualri era o discípulo amado de Jurupari, que o ensinou todos os segredos das flautas. Ele ensinou esse segredo aos não iniciados e às mulheres. Por isso, ele recebeu a condenação que a própria canção revela 'Do teu pó serás, serás, répteis a rastejar'”, explica o compositor

O ritual folclórico está programado para ser encenado na primeira noite do festival, que ocorrerá em 29 e 30 de junho, 01 de julho de 2018. Além de “Traidor”, o Caprichoso irá encenar as lendas "Sissa: Uma história de Amor" e "Boto romanceiro" nas noites posteriores.

Memórias que inspiram

No ano passado, o Boi Caprichoso iniciou suas apresentações no Centro Cultural Bumbódromo ao som de "Saga de um canoeiro", canção composta por Ronaldo e presente no disco de 1994. "Essa foi uma música que fiz pro meu pai e diz 'Já vai canoeiro, o porto distante, o teu descansar...'. Imaginei essa canoa que nós da Amazônia vamos navegar em nossas remadas eternas. Me emocionei muito", lembra o compositor.

Neste ano, o artista também completa 32 anos de história no Caprichoso e, para ele, a maior gratificação é estar em atividade na associação. "A recompensa disso é o respeito dos colegas, do boi executar algo que você imaginou. É de uma alegria muito grande", complementa. Ronaldo também assina canções clássicas como "Vale do Javari", "Gene", "Réquiem Prece aos Espíritos", "Amazônia Quaternária", dentre outras.

Legado azul

De acordo com Ronaldo Barbosa, sua história no Boi Caprichoso começou no final dos anos 80. "Nesse período, comecei a apresentar meus trabalhos ao boi, pois eu era da Fundação Nacional do Índio (Funai) e viajava por diversas aldeias da Amazônia", conta o artista que é odontólogo por formação.

"Mesmo com esse trabalho na Funai, na época, tenho um trabalho de antropologia muito forte. Aprendi, convivi e vivi por 20 anos nas tribos. Não existe nenhuma região da Amazônia que eu não tenha ido", revela.

De uma época onde as composições e produções musicais eram simples, Ronaldo se orgulha de ter ajudado a inserir efeitos mais elaborados, novas sonoridades e instrumentos diferenciados nas canções. "No começo dos anos 90, trouxe uma batida de ritual que não existia, fui o pioneiro. Vi como os índios faziam e trouxe para o Caprichoso", lembra.

Além disso, de acordo com Ronaldo, o bumbá azul inseriu pela primeira vez um teclado numa canção sua autoria "Fibras de arumã", de 1994. Sobrevivente, ele relembra ainda de seus mestres compositores: "Minha geração de compositores como Horácio, Heliomar Conceição, já partiram pro além e aprendi com esses poetas antigos do boi".

Com a marca, Ronaldo se consagra definitivamente como o compositor que mais emplacou canções na história do Boi Caprichoso e ele garante que seguirá representando a cultura regional nos próximos anos, uma vez que ele respira sua fonte de inspiração. "Sempre digo assim: a própria Amazônia é inspiradora", finaliza.

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