Sábado, 15 de Agosto de 2020
DEPOIMENTOS

Filhos de Parintins contam o que lembram quando pensam na Ilha Tupinambarana

Confiram depoimentos de parintinenses ilustres à revista "A CRÍTICA - Parintins 2019", que circula com a edição deste domingo (23)



soul_F82D89A0-92D1-48E8-A6F4-B566304485FC.jpg Egreen, Andrea, Chico, Lene, Delmo, Wilson e Elaize: a alma de Parintins traduzida em palavras
22/06/2019 às 14:27

Complete a frase: "Parintins me lembra..." Foi com essa provocação que A CRÍTICA procurou figuras ilustres nascidas na Ilha Tupinambarana para falar de sua terra, que a maioria deixou ainda na adolescência. Trechos destes depoimentos estão na revista encartada no jornal de domingo, 23 de junho. Confira, aqui, a íntegra do que eles disseram: 

Chico da Silva, 74, sambista



“Não tem como pensar em Parintins sem lembrar de minha mãe. Me desliguei da cidade muito jovem, dos meus 74 anos de vida, se vivi 20 anos lá foi muito. Mas sempre que penso na cidade, me vem à cabeça também o folclore, a cultura que é tão forte em Parintins. Artista é o que não falta nessa terra, e sou só mais um deles. A diferença é que busquei outro caminho, o do samba”

Egreen Baranda, radioterapeuta e empresária

“Sai de Parintins com quase 15 anos, para fazer o ensino médio em Manaus. Uma das coisas que sinto falta é da tranquilidade que havia na cidade. Parintins era uma cidade pacata, a gente brincava na frente de casa e era amigo de todo mundo da rua, coisa que eu não tive na minha adolescência na capital. Sinto muita saudade disso e sei que hoje é difícil encontrar até no interior. E sinto falta da minha família, que mora lá até hoje. Adoro voltar para curtir todos eles e fazer ‘coisas de antigamente’: comer o famoso sanduíche do Luiz e ir o ensaio da marujada no curral do Caprichoso”

Elaíze Farias, jornalista

“A Parintins que gosto de lembrar é a Parintins das árvores e das águas. Do tucumã-piranga, do vinho de bacaba e do piracuí.  Das viagens anuais da minha família ao Miriti para celebrar o início de um novo ano. Do ruído do motor dos barcos e dos cochilos nas redes durante as viagens pelo rio. Também tenho a lembrança marcante de uma árvore imponente que ficava quase pendurada à beira da ribanceira em frente ao Colégio Nossa Senhora do Carmo, onde estudei na infância e adolescência. Neste local, havia um trapiche tão pequeno abaixo da ribanceira que apenas uma embarcação por vez podia atracar. Quando retornei, adulta, aquela árvore não existia mais. Permaneceu apenas nos registros do Milton Hatoum, em sua criação literária 'Órfãos do Eldorado' Muitos anos depois da tristeza pelo desaparecimento desta árvore, retornei e reencontrei outras duas no lugar. Substitutas dignas. Sinto falta de mais verde em Parintins. É preciso transportar para a realidade da cidade o que é exaltado nas letras das toadas.”

Andrea Medeiros, juíza

“Eu me mudei de Parintins há mais de 30 anos, mas é impossível me desligar da cidade. Minha família mora na cidade, para onde volto sempre que posso. A identidade de ilhéu está em mim, está na minha pavulagem, no meu sotaque (quando digo‘farinha’, quando digo ‘maninha’, não há como negar que sou de Parintins). Minha cidade me lembra boi bumbá. Não tem como separar uma coisa da outra. Me lembro dos meus vestidos quando me apresentava no boi mirim Mineirinho e das tantas e tantas vezes que o Caprichoso dançou na frente de casa. É uma saudade grande”

Delmo Arcângelo, jogador de futebol

“Quando penso em Parintins lembro da minha infância, quando podíamos jogar bola na rua ou no quintal na chuva, soltar papagaio no campo da Aviação, contar histórias e piadas na frente da casa do vizinho. Não esqueço o Festival Folclórico onde brinquei na Marujada do touro negro Caprichoso. E foi em Parintins que comecei a carreira no futebol no CRCC, depois Canarinho, Arcal, AM Esporte Clube. Foi um bonito caminho até Manaus, onde me tornei o maior artilheiro de todos os campeonatos amazonenses”

Lene Medeiros, presidente da Amazonastur

“Lembro ds passeios de bicicleta que eu fazia todos os dias, no fim da tarde. Essa é minha minha maior saudade de Parintins. Sempre parava para tomar tacacá na esquina do Basa e terminava o passeio na 
na rua da frente, onde hoje fica o boteco do Verçosa, mas que então era apenas mais uma 'curva' da cidade. Era ali que eu terminava o dia, contemplando o pôr do sol que não tem igual. Meus pais moram na cidade e vou pra lá sempre que posso. Ali me sinto acolhida, me sinto em casa”

Wilson Nogueira, cientista social

"Lembro-me dos meus pais, Adolfo e Júlia (ambos moram hoje entre as estrelas). Vida dura! Oito crianças à mesa nem sempre farta. Porém, feliz! 

Lembro-me da Baixa da Xanda na cheia, o abrigo dos meninos e meninas a mergulharem nas águas barrentas todas as manhãs e tardes, para tomar banho, para disputar manja, para comprar peixes frescos vendidos antes da atracação das canoas. Vida feliz! Corpos líquidos.

Lembro-me das noites juninas. O boi Garantido a bailar as toadas do velho Lindolfo Monteverde. Certo dia Lindolfo partiu, mas a sua voz, de tão maviosa e potente, ecoou mundo afora, e até hoje encanta os mais belos e mais distantes cantos. Vida lúdica! Brincadeira plena, para além dos acoites da realidade.

E assim se ia junho, boi no curral, boi na rua; fogueiras, balões, rojões, mingau de arroz, canjica de milho, quentões, namorações...

E lá um dia, por ali aparecia a dona Aurora seguindo o Caprichoso. A bonecona, desengonçada, arrastava a criançada.

Lembro-me da rapaziada nas peladas do curral do Garantido, no campo do Pastor Lessa. Saúde! Trança de papagaio de papel. Jogo de pião de goiabeira. Barra-bandeira, trinta e um alerta!

Lembro-me do Circo do Nigó e do Fifi, filhos do Argentino (Pai Francisco do Garantido) e da Dona Tatá. Éramos todos artistas: equilibristas, mágicos, malabaristas, engolidores de fogo, trapezistas, palhaços da melhor palhaçada.

Lembro-me dos arraiais dos santos e santas. Devoções. A disputa musical entre calouros. Os recadinhos do aparelho de som do palanque. O teatro de rua: Du Sagrado, o Cristo; Zaca, o soldado romano implacável.

Lembro-me do mercadão! Fartura. Jaraqui das Lages no balde! Bamburrada para vender e doar. Valia a pena esperar um pouquinho mais, e voltar para casa com uma cambada na mão. Via-me, lá adiante [que é o agora], jogando conversa para os ares, com outros velhos sabedores das coisas, dividindo os bancos da praça, de cara para o mercadão, para o riozão Amazonas.

Lembro-me do Grupo Escolar Waldemar Pedrosa, da Escola São José Operário, do Colégio Batista. Eu, irrequieto! Os números do meu Boletim escolar? Só pra mim.

Lembro-me das histórias contadas pelo Piquichito, marido da dona Sabá, pai do Gudu e do Ladico. Fantástico-maravilhoso. Viajei com ele na canoa Paquita, que cruzava os ares nas asasdos aviões. Sempre de carona.

Lembro-me do pôr do sol. Boniteza. Só merecidos olhos veem a bola de fogo mergulhar nas águas amarelas.

Lembro-me da partida. Dor sentida. Olhei para o cais, para a Baixa da Xanda, até perder de vista a cidade que se encolhia,e vislumbrar a metrópole que se espichava à minha frente. Para trás, a saudade, a lembrança doída; para frente, a dureza do desconhecido, o desafio das novas conquistas.

Lembro-me, assim, da Parintins que nunca saiu de mim."

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