Publicidade
Parintins
ARTE VERMELHA E BRANCA

Garantido trabalha com o subtema ‘Diversidade e Resistência’ na 2ª noite

A resistência e a diversidade cultural serão exaltadas no primeiro momento por meio da luta de várias etnias em defesa de suas identidades 30/06/2018 às 13:10
Show garantido
Fotos: Antonio Lima
Laynna Feitoza Parintins (AM)

A segunda noite de apresentações do Boi Garantido virá com o subtema “Diversidade e Resistência”, que retratará a identidade construída de forma miscigenada. “A primeira alegoria da segunda noite vem com a Celebração Folclórica ‘As Cores da Fé’, falando de sincretismo religioso, que acredita que por sermos um povo só não temos que ter diferenças”, coloca Edwan Oliveira, coordenador da Comissão de Artes do Garantido. A alegoria traz uma ênfase nas religiões afro, como a umbanda e o candomblé, com a figura central de Deus, sob a ideia de que ele é o mesmo para todas as religiões.

Nos oito módulos alegóricos estão representadas a figura de Deus na parte central da alegoria, acompanhada das figuras dos caboclos e pretos-velhos, tradicionais da umbanda. No lado direito de Deus aparece Xangô, que na religiosidade afro é o orixá da justiça. Há um véu sob o seu rosto, para remeter a imagem central de que a justiça é para todos. Abaixo da figura de Deus, há a imagem da Catedral de Nossa Senhora do Carmo centralizada, bem como a imagem de ocas indígenas, e dos animais transmutados do xamanismo indígena.

Sob a mesma estrutura alegórica será representado, como Figura Típica Regional, o caboclo sacaca, figura amazônica que representa as diferentes crenças da identidade cultural dos povos da floresta. O sacaca não é pajé e nem pai de santo, mas um humilde curador popular, com o dom de curar através de forças espirituais e ervas medicinais. O sacaca é escolhido para incorporar espíritos ancestrais de antigos pajés, que conhecem múltiplos mundos e são a chave dos bens de cura e dos males da doença, vida e morte.

Logo após, haverá um tributo a Lindolfo Monteverde, fundador do boi Garantido, que, por ser filho de negros maranhenses, reafirmou a resistência na Baixa de São José, território que antigamente abrigava os índios e negros marginalizados. A alegoria traz sete módulos. O principal carrega a imagem de Jesus Cristo, uma pomba branca simbolizando a paz e, na parte inferior do módulo, a imagem de Dona Alexandrina, mais conhecida como Dona Xanda. Ela é mãe de Lindolfo Monteverde e é símbolo da resistência de negros e índios na Baixa de São José. Ainda na alegoria, aparecem esculturas da vaqueirada do Garantido, da Catirina e do Pai Francisco, como símbolos da representação folclórica popular.

“Em 1913, na Baixa da Xanda, estavam negros e índios que não tinham vez e voz, e que vieram para Parintins resistir. A família Monteverde veio do Maranhão para fugir do cativeiro da escravidão que imperava na época. É nesse amálgama cultural de negros, índios e pobres que Dona Xanda, mãe de Lindolfo que batizou essa área, vai botar Lindolfo no colo e permear o imaginário dele de bumba-meu boi”, conta Allan Rodrigues, membro da Comissão de Artes do boi Garantido. Descendente de negros vindos do Maranhão, Lindolfo Monteverde foi um humilde pescador que dedicou sua vida à arte de brincar de boi e de manter viva as festas, danças e folguedos, tradições oriundas de suas origens ancestrais.

Rasga-mortalha

Em seguida, entrará na arena a Lenda Amazônica da Matintaperê, que fala sobre a bruxa que se transforma em rasga-mortalha, coruja de assobio assustador que traz presságios de morte para as pessoas pelas quais ela sobrevoa os lares. A gigantesca alegoria traz a imagem de pequenas casas na floresta sobrevoadas pela imagem da bruxa transmutada em corujas, por vezes segurando cajados de esqueleto, representando o tão temido prenúncio do fim da vida que elas trazem. É possível ver também, na alegoria, imagens de mulheres com cabeças de falcão, cujo corpo do quadril para baixo é ornado em escamas de répteis e troncos de árvores.

De assobio assustador e arrepiante, a Matintaperê causa medo, assombração e pavor, sobretudo nas crianças que vivem nas palafitas ribeirinhas ou nos tapiris das comunidades rurais. Com conhecimentos repassados por velhos curandeiros, para quebrar o encanto da Matintaperê recomenda-se enterrar uma tesoura, um crucifixo e uma chave por onde ela passa. Em Parintins, a lenda da Matintaperê é conhecida como Matin e acabou se mantendo nas comunidades rurais.

Logo após, vem a Celebração Indígena Puraçi-Çáua, que aborda a celebração dos povos indígenas do Brasil. O momento simboliza as 305 etnias falantes de 274 línguas indígenas ainda existentes no País, que juntas representam a grande diversidade que faz do Brasil uma nação pluricultural, com visão de mundo, cosmologia, ritos, língua e identidades específicas.

No momento da Celebração Indígena, onde os núcleos de dança do boi vermelha simbolizam as performances das tribos, serão festejadas as identidades que caracterizam a diversidade dos povos nativos e a resistência de seus antepassados ao processo de homogeneização. O Puraci-Çauá é uma grande festa em que todos os índios dançam com toda a alegria que caracteriza a autoestima de todos os povos indígenas do Brasil, apesar de todas as violências e opressões sofridas desde o início da colonização.

Iniciação de guerreiro

A segunda noite do boi Garantido encerra, então, com o Ritual Indígena da Iniciação Marupiara. Trata-se de um ritual Munduruku de passagem, conduzido pelo pajé da tribo, para iniciação de menino em guerreiro. Para isso, o menino iniciado é obrigado a enfrentar sete provas físicas, intelectuais e psicológicas. Com quatro módulos, a alegoria carrega as imagens de camaleões gigantes com braços de cobras, formigas tucandeiras gigantes, um covil gigante de jaguares e rios cercados por jacarés e piranhas.

Durante dois meses o menino é levado para a mata, onde é submetido às provas, tendo que enfrentar sete caminhos mortais da floresta: a maloca dos espíritos, o temido serpentário, a toca da tucandeira, o nicho do jaguar, a cachoeira do inferno, a praia do jacaré e o remanso das piranhas. Durante o rito, ele recebe orientações dos anciãos da aldeia para vencer os desafios. São ensinamentos ancestrais deixados por Kairu-Sakaibu, herói cultural do povo Munduruku.

Publicidade
Publicidade