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Parintins
LIÇÕES

Bumbódromo de Parintins: a narrativa de quem está por trás e vive além do Festival

Segurança, cozinheira, visitante que monta estrutura, lixeiro e carpinteiros ganham voz para contar o que têm para contar. São eles que fazem o Bumbódromo acontecer, conhece? 29/06/2018 às 19:25
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Foto: Euzivaldo Queiroz
Isabella Pina e Amanda Guimarães Parintins (AM)

O cenário é o Bumbódromo. É ali, naquela arena cercada por arquibancadas vermelhas e azuis, que um dos maiores festivais da terra toma conta da isolada Parintins. E dizer quem faz isso acontecer seria missão fácil ao apontar para diretores de bois, itens ou até mesmo à torcida. Não dessa vez. Quem são esses que "não-são"? Esses que percorrem corredores, subsolos, ou se penduram nas alturas? Quem dá vida ao que precede o show? À esta altura, às vésperas do festival, todos correm. Poucos querem falar. Mas, quando falam, abrem o coração. A missão é dar voz a quem muito faz e pouco recebe em troca. São os homens e mulheres que fazem a operação girar. Muito mais que isso. São humanos por trás dos títulos e crachás que carregam dentro da arena.

Sem delongas, são dez pessoas nesta série. Oito homens, duas mulheres. Proporção que retrata bem a realidade do que se vê dentro da Arena quando o assunto é trabalho. E eles poderiam até falar de trabalho. Mas querem mais que isso. Cada um tem sua história, sua lição, sua moral ou culpa. O microfone só ficou ligado.

Francisco Pererira Farias, 52, carpinteiro

(Isabella Pina)

"Eu me criei no interior. Fui até os 16 anos. Saí, andei no meu Estado, fui para o Pará, trabalhei lá, e vi que era em Parintins que eu devia estar. Sou filho daqui. Nascido e criado. Respiro isso. Essa festa, esse povo é igual eu. Eu sou carpinteiro, eu carrego madeira debaixo do sol mesmo. Uso até um chapéuzinho. E eu tenho orgulho. Orgulho de receber gente, de ver as pessoas se divertindo quando a festa está pronta. Meu coração alivia. Eu sinto que cumpri meu dever com o meu povo. É o que eu posso dar. É pouco, mas é o que eu tenho. Eu tento levar felicidade e fazer parte dessa alegria do jeito que eu posso. Se é assim, carregando madeira, pregando chão, dentro dessa arena, então assim é o meu jeito de oferecer o que eu tenho de volta para Parintins".

"Eu não tenho muito. Eu só faço os camarotes. Cuido da minha família, passeio às vezes. E tenho meu boi Garantido. Eu sou assim. Franciso Pereira, mas pode usar só Farias".

Lourival Matos da Silva, 55, lixeiro

(Isabella Pina)

"Meu pai era tão rígido comigo e meus irmãos - não de bater, de ensinar a linha fina do certo e errado - que eu aprendi, desde cedo, a aceitar a realidade. A verdade. Esse é meu ponto seguro de vida. Minha base. A verdade que eu carrego. A nossa batalha é pesada. A batalha, que eu falo, assim, não é a batalha dentro da arena. Não falo daqui. Falo do trabalho no dia a dia, no trabalho e batalha para viver. É quase como um trabalho braçal. A vida da gente é essa".

"Agora, aqui no trabalho, eu comecei como segurança, depois passei para a limpeza. E é assim há anos. Quase todo dia venho para o Bumbódromo. Essa é a minha verdade. O trabalho não é só esse, trabalho com gado, sou pescador. Como disse: batalho. Com 55 anos, o que eu faço é: respeito o pequeno e o maior. Eu respeito porque quero ser respeitado. É essa a minha criação." 

"Era dessa batalha assim que você tava falando ou daqui do trabalho?". "Era essa mesmo, seu Lourival". 

Fábila Pereira, 35, cozinheira

(Isabella Pina)

"O sustento da minha família é o que me mantém em movimento. Eu não trabalho só para colocar dinheiro em casa. Eu trabalho para que as minhas filhas não se prostituam. Para que meus filhos não se envolvam com droga. O que acontece na nossa cidade é isso. Eu faço de tudo. A minha vida gira em torno disso. E eu morreria se falhasse. E eu tenho o meu sonho - a razão de tudo isso. Eu quero entregar, na mão de cada um dos cinco, um diploma na mão. E eu vou conseguir". 

"Por isso estou aqui no Bumbódromo trabalhando. Trabalho no buffet, fui bater na porta da minha patroa sem nada. Desempregada e desesperada. Ela me estendeu a mão. Eu, por isso, sou muito grata. Aqui de dentro fico perto do meu boi, da minha cultura. Contribuo. Eu estaria sem chão não fosse por essa oportunidade de trabalho."

Douglas Nascimento, 36, soldador

(Isabella Pina)

"Eu trabalho na montagem da estrutura, fico pendurado aqui em cima todo dia. Nunca tinha vindo em Parintins, moro em Manaus. Sou visitante e nunca passei tanto tempo longe da minha família. Já foram 15 dias e ainda tenho cinco pela frente. É o maior tempo que passei longe deles. Dói demais. Se você me pergunta: o que eu gosto de fazer? Curtir minha família. O momento mais feliz da minha vida? Foram três: o nascimento dos meus filhos. Dificuldade? Eu não tenho dificuldade. Eu tenho saúde e uma família. O resto eu corro atrás, como estou fazendo agora".

"Não bebo, não fumo. Estou aqui trabalhando para isso. Para ter certeza que estou dando o melhor para o que mais importa para mim. Fica até repetido, né? Mas é tudo pela minha família. Eu me coloco em último lugar. Estou gostando muito de trabalhar aqui e viver essa experiência, mas é o pior momento da minha vida. Não tenho eles comigo".

Ailton Simas Bentes, 42, segurança de alegorias

(Isabella Pina)

"Eu quase morri quando tinha cinco anos. Não tem nada pior que tenha acontecido na minha vida em todos esses 42 anos. Eu estava correndo com uma garrafa na mão, escorreguei e caí em cima do "gogó", que entrou no meu peito. Passei quase dois meses no hospital. Eu lembro de tudo, muito bem. Mas não cresci com medo da vida. Se eu tivesse medo da vida, não estaria aqui hoje. Lutei muito, tive - e tenho uma segunda chance. É nela que me apego para viver com vontade, para trabalhar, para rodar por esse Bumbódromo, para proteger as alegorias, me divertir com meu boi".

"Eu já construí minha família e já deixei ela desmoronar. Mas eu vou sempre em frente. Não pode reclamar da vida. Isso eu aprendi: não posso, nunca, dizer que está ruim.Eu sei o que é estar ruim. Não é isso. Eu me recupero todo dia, acordo e vou".

Eduardo Nascimento, 36, decorador

(Amanda Guimarães)

“Trabalho na Arena há dois anos. A primeira vez que vim aqui foi em 1996. Na época era torcedor do Garantido, mas me apaixonei pelo Caprichoso de forma doente. Gosto muito de trabalhar aqui. É divertido, mas trabalhoso”.

“É uma emoção diferente. Estamos por trás dos bastidores. Enquanto o público vem ver o que acontece, já sabemos o que vai acontecer. Eu atuo na preparação de um camarote”.

Miranda Tavares, 43, serviços gerais

(Amanda Guimarães)

“Eu procurei trabalho há 10 anos e consegui. Até hoje atuo no Bumbódromo durante o Festival. Tem noites que fico até tarde trabalhando e fico olhando para essa Arena. Todo parintinense tem um Boi do coração. O meu coração é Garantido”.

“Aquela coisa, trabalho ou brinco. Como tomo conta da minha família, preciso trabalhar no Bumbódromo. Mas queria mesmo era sair pelo Garantido. Sinto uma emoção incrível ao trabalhar aqui. Garantido vai ser campeão este ano”.

Herval Cordeiro, 53, pintor

(Amanda Guimarães)

“Desde 1991 trabalho aqui no Bumbódromo. Participei de todas as reformas que acontecerão até o momento. Gosto muito de trabalhar neste local, porque sentimos a emoção por trás deste grande evento".

“Acredito que o Garantido vai ser campeão este ano. Tenho uma emoção diferente, porque queria participar da apresentação do meu Boi do Povão. Mas infelizmente não posso participar, porque trabalho. “

Luzinara de Souza, 27, secretária

(Amanda Guimarães)

“Eu faço a saída e entrada dos materiais da parte elétrica. Tudo que entra e sai preciso anotar. O meu boi é o Garantido. Trabalhar aqui é muito legal e tem sido uma experiência incrível neste meu primeiro ano. Fico olhando a estrutura toda e é algo que me emociona realmente”.

“Este é o meu primeiro ano trabalhando aqui. No dia do Festival não sei se estarei presente, porque fazemos uma escala. Mas quero muito presenciar este Festival. Fico sentindo esse clima de preparativos e bate realmente uma ansiedade para que começe logo”.

Alessandro Prestes, 31, ambulante

(Amanda Guimarães)

“Atuo no Bumbódromo há 10 anos. Esta profissão passou pelos meus pais e chegou até mim. Eles pararam, mas eu precisei continuar, porque constitui família. Trabalho na arquibancada ao lado do Caprichoso. A emoção lá dentro é gigantesca, não tem como não se emocionar, mesmo sendo do Boi Contrário."

“Na hora estou nas arquibancadas sinto uma grande emoção. Tem gente do Caprichoso que trabalha no lado do Garantido, é a mesma coisa. É muito gostoso trabalhar aqui. Somos credenciados por uma empresa todos os anos. Já é certo a gente trabalhar nas arquibancadas”.

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