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Parintins
GRAFITTTI

Imersão politizada a céu aberto: movimento artístico usa arte de rua para contar histórias

Há um ano artistas se propuseram tornar as ruas de Parintins em galeria. Manifestações e coletânea de arte visual ganha espaço e retrata a cultura local 24/06/2018 às 15:48 - Atualizado em 24/06/2018 às 15:53
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Josinaldo trabalha em exposição aberta que leva o nome "Ancestralidade" (Arquivo pessoal)
Isabella Pina Parintins (AM)

"Eu decreto que a minha galeria vai ser os muros da cidade". Simples, direto. Poético. É assim traduzida a arte de rua que tem tomado conta das ruas de Parintins. São manifestações políticas, uma mistura de militância, memórias, cultura e ancestralidade. 

Um dos homens do "front" no processo de implementação da street art na Ilha é Josinaldo Matos. Ele narra, com precisão, o início da missão, amparado por outros grandes artistas locais. Foi no dia 15 de outubro de 2017, aniversário de Parintins. Ele, que sempre trabalhou com telas, decidiu fazer um stencil - técnica que usa um molde vazado para preencher com pintura. Foi à uma esquina na Praça do Japonês e pintou dois meninos carregando peixes. Simples, direto. Poético. Lembram?

"Eu acordei uma manhã, depois de perceber que, em muito tempo não conseguia terminar uma tela, e fui pesquisar a imagem de um índio no computador. Achei, editei, fiz o corte e fui à rua. E ali eu vi que, além de gostar do que eu estava fazendo, eu tinha ideias que não paravam de chegar. Vi, ali, que essa seria minha missão. Decorar Parintins", conta Josinaldo.

O seu projeto mais recente, que tem cerca de seis meses, chama "Ancestralidade". Num estilo painel, com cores super saturadas e fundo negro, ele retrata faces da cultura do amazônida.    


Mas nem só disso vive o artista. Há uma - quase inerente - necessidade de protestar politicamente. Por isso, e também por sua espontaneidade, deixou uma de suas maiores obras estampada na Casa da Cultura. A figura do Presidente Temer, com uma paleta de cores quentes e vívidas que quase desfiguram o personagem. Perto dali, um painel com um rosto pintado nas cores da bandeira nacional e um "vergonha", em negrito e gritante, rasgando a imagem. Ele também não foge de uma boa e velha obra à lá Banksy.
 
"A minha bandeira é a minha expressão. Eu falo do que está dentro de mim. Na tela eu ficava preso. Na rua, comecei a colocar lembranças, memórias, protestos políticos. Sou crítico. Como artista, não posso ficar calado sobre o que acontece no meu país".



A imersão

Na contramão do estilo do companheiro de missão, Arildo Mendes é outro grande artista das ruas e pinturas de Parintins. Ele sim tem suas raízes fundamentadas no grafitti. Old school, começou lá pelos seus 15 anos. Fez cursos em Manaus e, aí, amadureceu. Foi, aos poucos, moldando seu estilo. Hoje ele faz obras de hiper-realismo retratando a cultura da Amazônia. 

Arildo é um dos principais representantes da arte visual em Parintins. Ele lidera os movimentos pró-arte e tem Josinaldo como grande aliado. Os dois, hoje, investem todo o tempo e trabalho na terceira edição da exposição "Parintins em Cores", que inicia nesta terça-feira e segue até o dia 3 de julho. No evento, diversos artistas ganham espaço para mostrar o que ainda não foi "publicado" nos muros. 

"Eu faço minha arte baseada no que sinto, no que vejo. Começamos há um ano a missão de transformar as ruas de Parintins. Queremos que, assim como em Manaus há demonstração pública em pontos importantes, possamos espalhar pela nossa cidade o trabalho e a cultura que envolve o street art" conta Arildo.

Casa da Cultura

Basta atravessar a rua do Bumbódromo, um pouco à direita, que é possível ver uma casa abandonada. A entrada tem entulhos que quase tiram a vontade de chegar perto. Mas é pura construção de um contexto muito maior. É a Casa da Cultura. É onde todo e qualquer artista de Parintins vai para protestar, deixar sua marca.

É uma galeria a céu aberto. É para se perder e mergulhar no universo da arte de rua, na cultura do grafitti. Na expressão poética e politizada de quem tem muito a desenhar. 

*Fotos Márcio Silva

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