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Parintins
Brincando de boi

Ítens dos bois-bumbás voltam no tempo e relembram infância em Parintins

Personagens de Garantido e Caprichoso mostram como eram as suas brincadeiras preferidas: tem de bicicleta a amarelinha passando por pião, bolinha de gude e, claro, os tradicionais boizinhos de caixa de papelão ou pano 01/07/2018 às 11:09
Show edilene
A porta-estandarte do Boi Garantido, parintinense Edilene Tavares, jogava amarelinha na infância / Fotos:Euzivaldo Queiroz
Paulo André Nunes Parintins (AM)

Ser criança em Parintins, terra do boi-bumbá, é conviver com a natureza e o exotismo dos bois Caprichoso e Garantido, que são brinquedo de criança e gente grande. Mas é também jogar bola na rua, brincar de manja, andar de bicicleta, pular amarelinha e muito mais. Como diz o mestre parintinense Chico da Silva, na música “Tempo Bom”, “Daquele tempo de menino ainda tenho no meu tempo muita saudade/Rodar pião, estilingue no pescoço e papagaio pra soltar”.

O tripa do Boi Garantido, Denildo Piçanã, tem 46 anos e cresceu e vive até hoje na avenida Lindolfo Monteverde, próximo ao antigo Curral da associação folclórica. Assim como toda criança, ele curtiu muito a infância parintinense.

“Eu tinha muitas formas de brincadeiras na infância. Gostava de bolinha de gude, pião e papagaio de papel que gosto até hoje e onde brincamos no nosso quintal lá na Baixa do São José. Tô fazendo pros meus netos e brincando também. Eu mesmo faço meus papagaios. Se cortarem o meu eu faço de novo e continuo brincando”, disse ele, que tem quatro filhos e três netos.

“Minha infância foi muito humilde. Meus pais, David de Souza Ribeiro e Nazaré Matos Ribeiro, que Deus os tenha, não tinham condições de dar as coisas pra nós. Foi sofrido, mas a criação foi muito boa. Nasci aqui em Parintins na rua Lindolfo Monteverde, bem do lado do curralzinho, quando não havia nem barro nem nada, só caminho. Mas também moramos no interior vivendo em uma cultura”, garante o famoso tripa.  

No último domingo, ele se apresentou pelo lado vermelho da Ilha Tupinambarana nas ruas de Parintins na celebração da Ladainha em homenagem a São João Batista.

Boizinho de criança

Aos 35 anos, o artista e estudante de contabilidade, Alexandre Azevêdo, vive o que é o melhor momento da sua vida: em seu segundo ano de tripa do Boi Caprichoso, ele se consolida como um dos mais importantes itens do azul e branco. A infância foi marcada pelas brincadeiras com boizinhos que eram confeccionados pelo seu pai, Markinho Azevedo, que durante 26 anos foi tripa do Caprichoso e que até hoje é o responsável por criar o boi propriamente dito.

“Uma das minhas brincadeiras preferidas era brincar com o boi mesmo, porquê desde que eu me entendo de gente o meu pai, Markinho Azevêdo, já era ítem oficial. Ele passou 26 anos defendendo o ítem Boi-Bumbá Evolução pelo Caprichoso e sempre o admirei muito. Ele mandava fazer boizinhos do meu tamanho e me dava. E eu brincava com eles na rua Cordovil, reduto do Caprichoso, na rua que dá para a frente do Bumbódromo, disputando com o pessoal de outra rua, a Senador Álvaro Maia. Eles faziam lá o boizinho contrário e nós o Caprichoso. Fazíamos igual um festival mesmo, e ia para a disputa. Era muito legal”, conta ele.

Segundo Alexandre, sua infância em Parintins foi muito boa. “Foi a melhor de todas para mim. A cidade de Parintins é boa, pacata, pequena, onde você pode brincar na rua com teus amigos, jogar bola, eu ia pra banhos, andar de bicicleta. Eu brincava com o boizinho”, relembra .

O pai de Alexandre ainda mora na Cordovil. Já o tripa oficial transferiu-se para Manaus, onde faz trabalhos artísticos e, quando vem a Parintins, fica instalado em pousadas. Como sempre andou com seu pai para as apresentações do Caprichoso e do grupo Azul e Branco, ele aprendeu a cantar muitas toadas antológicas.   

Ser tripa oficial do Caprichoso nunca foi a pretensão de Alexandre. Foi como se a vida automaticamente lhe encaminhasse para um dos postos mais cobiçados do Festival Folclórico de Parintins. “O pessoal  me pergunta se o papai me ensinou, e eu digo que aprendi olhando ele. Aprendi a dançar no estilo dele, que é próprio. E estou aí no segundo ano. No primeiro ano comecei com o pé direito graças a Deus, veio o título e a nota máxima dos jurados. Fui o único ítem que ganhou nota máxima dos jurados, e como as pessoas falam: o difícil não é chegar ao topo; o difícil é manter. Então, tenho que manter as notas máximas e estou lutando pra isso”, analisa ele.  

“Vamos entrar na concentração. Nós finalizamos nosso ensaio técnico das três noites e agora é esperar a apresentação no Bumbódromo. As expectativas são as melhores possíveis”.

Amarelinha vermelha

A parintinense Edilene Tavares, porta-estandarte do Boi Garantido, tem 31 anos de idade, mas até hoje lembra com muito carinho dos tempos em que brincava nos becos e na rua Carvalho Leal, no bairro São José,  reduto vermelho e branco da Ilha Tupinambarana.

Antes de ser item oficial ela era dançarina do grupo Garantido Show, fez várias participações na Arena do Bumbódromo em cênica, com tribo, ritual, lenda, bailado, lamparineiros e outras. E na infância ela já participava na galera vermelha e branca levada pelos seus pais nos três dias de Festival Folclórico, em uma época na qual as crianças ainda podiam entrar no Bumbódromo. Depois, passou para a arena e hoje, ítem, arranca aplausos pelos lugares onde vai pela simplicidade, desenvoltura no dançar e garra.

Da infância na Baixa, ela só tem lembranças boas. “Minha infância foi simples, mas maravilhosa aqui mesmo na Baixa do São José, na rua Carvalho Leal. Brincávamos com os vizinhos, primos e primas, amigos próximos de casa. Como eu era filha única eles eram quem brincavam comigo. E meus pais também me levavam pro antigo Curralzinho da Baixa. Como era próximo nós frequentávamos lá”, contou a morena bela.

“Não tínhamos brinquedos, nem bonecas. Meus pais não tinham condições. O que nós podíamos pegar um pouquinho para transformar em brinquedo a gente fazia. Por exemplo: eu fazia bonecas de vidros de perfume. Eu também corria na rua e jogava bola, pulava corda, jogava amarelinha, bole-bole com pedrinhas de seixo. Nunca fui paradinha. Era maravilhoso. Foi uma infância muito boa. Foram boas lembranças que eu guardo até hoje no coração.

Entre 8 e 10 anos, Edilene conta que no fundo do quintal em que morava na Carvalho Leal ela, parentes e amigos inventaram um boizinho improvisado a partir de uma caixa de papelão, onde todos dançavam ao redor. “Mas eu não era ítem, e sim de tribo, na marcação”, relembra.

“Eu já havia participado há alguns em encenações como a do Boto com o levantador de toadas Sebastião Júnior. Ano passado eu estava nas tribos e na primeira. E ano passado passar a defender um ítem oficial foi muito maravilhoso mesmo”, disse a ítem.

Ensaiando várias horas por dia, ela aguarda com ansiedade a chegada dos 29 e 30 deste mês de junho e 1º e julho para sua apresentação pelo Boi do Povão. “Minha expectativa é ser campeã na Arena. Uma porta-estandarte campeã”, comentou.

Sinhazinha de bike

Não faz muito tempo a Sinhazinha da Fazenda do Boi Caprichoso, Valentina Cid, 18, brincava pelas ruas do Conjunto Macurani alegremente e de várias formas, conta a própria.

“Passei até os meus 14, 15 anos aqui em Parintins e depois fui para Manaus morar pra lá. E até os 10, 11 anos eu brinquei na rua praticamente todos os dias com os vizinhos e amigos de infância que eu tenho até hoje. Brincávamos na rua de manja, de manja-esconde, à noite, e andando de bicicleta também pela cidade. Como Parintins é uma cidade pequena, de interior, dá pra andar de bicicleta, pra ir bem alí. Eu andava todos os dias pela cidade, fazendo misura. Todo mundo me conhece assim no conjunto Mas eu não era muito ‘danada’,  não. Era bem comportada, e meus amigos que eram mais agitados ”, fala ela.

Valentina Cid,a Sinhazinha do Caprichoso, brincou muito de bicicleta pelas ruas da Ilha Tupinambarana 

Hoje, Valentina mora em Manaus, mas quando vai a Parintins ela fica na rua dos avós, Carmem e Humberto, na rua Cupuaçú, mas antes também residiu na rua Mari-Mari, no conjunto Macurani. Ela é filha de Karina Cid, que também foi Sinhazinha do Boi Azul.

“Aqui nós sempre tivemos liberdade para brincar livremente e correr na rua, diferente de Manaus”, acrescenta a graciosa Valentina Cid.

Ela fala que todas às vezes que retorna a Parintins relembra dos bons momentos de infância. “Claro que eu relembro. Tenho até duas melhores amigas de infância, a Ana Paula e a Larissa, que cresceram comigo, e toda noite, após as brincadeiras, eu ia pra casa delas. Todo dia. E hoje quando venho a Parintins faço a mesma coisa, é tradição, não posso deixar de ir”, conta a “filha do dono da fazenda e do boi”.

“O Caprichoso, pra mim, é brincadeira de criança. O boi pra mim é todos os dias. Toda minha família é do boi e praticamente nasci nisso, todo dia escutando as toadas, indo pro curral. Morar aqui é boi constantemente. Morar aqui é uma brincadeira que eu levo a sério, com responsabilidade. Pra mim é a minha brincadeira e que eu levo com gosto”, contou ela, para a reportagem de A CRÍTICA, enquanto pedalava próximo à concentração onde estão as alegorias do Caprichoso. “Já caí muito: não sabia andar muito direito. Aí depois veio a bicicleta elétrica e aí que eu caí mesmo”, disse, voltando há alguns anos.

A importância da família foi fundamental na infância, relata a bela. “O apoio da família é fundamental, é a minha base. Pra me apresentar no boi, ficar lá dentro, eu preciso dessa base emocional e eles, pra mim, são tudo. Minha mãe, que já participou, sempre está comigo, e já sabe como é todo o esquema, e meu também: é ele que me ajuda em tudo. Ambos, meu irmão, minha avó, minha família toda do boi. São muito importantes, nós crescemos nisso”, comentou.

Ela conta as horas para a apresentação na Arena do Bumbódromo.  “A expectativa é de ver um Festival muito grande, muito grandioso. O  Caprichoso está vindo com muitas surpresas. Estou muito ansiosa e a expectativa é a melhor possível. A minha apresentação e evolução está toda linda, e eu vejo que a cada ano a gente evolui mais, o Festival está ganhando uma proporção enorme. Acho que esse vai ser um dos maiores festivais que já tivemos”, explica Valentina Cid.

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