Quarta-feira, 17 de Julho de 2019
RESILIÊNCIA

Jair Mendes usa o amor pelo Garantido como cura para a saudade

O homem que deu vida e movimento ao boi-bumbá agora busca, no trabalho, as forças para superar a perda da esposa, com quem viveu por mais de 50 anos



WhatsApp_Image_2019-06-26_at_10.41.02_90A3C2DE-2732-4C17-9F38-700430A9AE3B.jpeg (Foto: Euzivaldo Queiroz)
26/06/2019 às 11:09

O sorriso segue o mesmo, discreto, mas contagiante, convidativo a conversar. O passo cada vez mais cadenciado, mas firme, que nem as mãos, talentosas, dignas de um gênio criativo da arte, um artista na acepção da palavra. Seja no galpão de alegorias da Cidade Garantido, seja em sua residência, é assim que Jair Mendes, o Mestre (sem aspas mesmo) recebe quem fala com ele. Aos 77 anos, essa lenda viva do Festival Folclórico de Parintins não pensa em parar mesmo após tantas emoções.

Seo Jair” ou Mestre Jair, enfrenta a saudade da esposa Ana Maria da Silva Mendes, falecida aos 69 anos de idade há cerca de três meses, após um matrimônio de 52 anos. Por ela, ele já teria deixado o boi há anos. No entanto, por essas ironias que ninguém explica, quem deu vida ao boi, hoje, é que busca a vida no boi! É o trabalho como artista de ponta e membro da Comissão de Arte do Boi Garantido que o Mestre usar como terapia manter a mente ocupada e amenizar a dor pela perda da amada.

“Minha esposa que morreu era torcedora do Caprichoso e havia me pedido pra deixar de trabalhar pro boi, pois eu não precisava mais. Mas eu não sei fazer outra coisa, tive que ser contra ela. Ainda mais agora que ela morreu, eu não posso ficar parado. Eu fico entretido”, conta Mendes.

Outra forma que o artista genial criou para manter a mente ocupada é esculpir, em sua própria casa, um busto dele quase em tamanho real. A obra está passando pelos últimos retoques e prestes a ser finalizada.

Mestre é mestre

Nunca é demais falar, para estas e as próximas gerações, que é invenção de Jair Mendes os inovadores movimentos reais do boi na arena e das gigantescas alegorias ainda na década de 1970, quando a brincadeira ainda engatinhava.

“Em 1976 eu comecei a ser padrinho do Garantido, e depois passei a ser o tripa do boi, mas ele era pesado demais, “pau duro”, ‘cara fina’. A cabeça e o chifre eram de boi mesmo, e o espinhaço de perna-manca. Pesava aproximadamente 25 quilos. Aí, em 1978, eu fiz o ‘boi biônico’, para mim poder dançar melhor. E fiz também no Caprichoso”, destaca o artista. Antes de deixar de ser tripa, ele ensinou o atual tripa do Garantido, Denildo Piçanã, que segue até hoje ocupando o importante posto. “Quando fui pro Caprichoso também ensinei o Markinho Azevedo”, fala ele, sobre outro pupilo tripa (que por sua vez passou o posto há dois anos para o filho, Alexandre Azevedo.

Jair Mendes é tão inovador que também é co-criador há mais de 30 anos, junto com os irmãos Paulinho (ex-apresentador lendário do Boi Garantido) e Zezinho Faria, da tradicional “Alvorada do Garantido”, que é realizada anualmente de 30 para 1º de maio pelas ruas da cidade de Parintins abrindo os trabalhos de ensaios da associação folclórica para o Festival da Ilha Tupinambarana.

“Quando os bois nem mexiam a cabeça, ainda, e nem passava pela nossa ideia o boi ter movimentos, o Jair foi de madrugada lá em casa, e fomos pra estrada pra ele desenhar a cara de um boi de verdade olhando para o animal em um terreno. A ideia dele era fazer um boi com a cara de verdade e com movimentos”, relembra Paulinho Faria, o imortal “Garotinho de Ouro” do Garantido.

Para Jair, a expectativa para este Festival de Parintins é “muito boa”. “O Boi Garantido está diferente. Estamos diferentes e vamos trazer inovação. Mas não posso falar o que é. Acabou a mesmice, vamos fazer diferente, mudar”, decreta o Mestre. E alguém ousa desmentir quem tanto fez pelo Festival de Parintins? Claro que não!   

Máscaras de gesso e histórias da famosa ‘Cobra Grande’ do alcação

Irriquieto, Jair Mendes nunca foi de mesmices no Festival Folclórico de Parintins, sempre procurou inovar, mesmo que isso vez por outra lhe provocasse percalços.

Certa vez, fez uma máscara de gesso para improvisar um desaparecimento durante uma apresentação do Garantido. No entanto, como ele não tinha experiência com o processo, o artefato secou, grudou em seu rosto e ele teve dificuldade para respirar. Foi um “Deus nos acuda”.

Noutro fato, este muito folclórico do Festival de 1982, ainda nos tempos do tabladão do estádio Tupy Cantanhede, conta-se que membros do Boi Caprichoso fecharam o alçapão de onde ficariam as tribos que seriam engolidas pela famosa “Cobra Grande” de papelão criada por ele. Mendes estava no interior do alcapão e comandando os olhos de farol da serpente, e acabou ficando preso dentro. De improviso, o então apresentador Paulinho Faria disse que a cobra estava “vomitando índios”.

No entanto, poucos sabem que o Mestre chegou a ficar desmaiado e teve que ser removido para o Hospital Padre Colombo, onde recebeu cuidados médicos e acabou recebendo alta horas depois.

 

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