Quinta-feira, 06 de Agosto de 2020
TRABALHO

Kaçauerés finalizam transporte das alegorias da primeira noite do Garantido

O traslado das alegorias, que partem da Cidade Garantido até os arredores da Praça dos Bois, possui 3 km e reúne cerca de 130 homens



ACE_EQ-0898_7F128C3D-F0B5-4549-9C2E-8BAB097149E0.JPG (Foto: Euzivaldo Queiroz)
24/06/2019 às 18:12

Antes do espetáculo folclórico ser exibido no Bumbódromo de Parintins, ele "desfila", aos poucos, pelas ruas da Ilha Tupinambarana. Do lado do boi Garantido, os kaçauerés - como são chamados os empurradores de alegorias - são responsáveis pelos momentos iniciais de impacto entre os brincantes, quando estes têm o primeiro contato com a forma das criaturas narradas pela toadas. É ali, nas ruas, conduzido por uma série de homens que as lendas, rituais e figuras folclóricas são expostas à apreciação - e ao êxtase - do público.

Edjander Mota é o coordenador de concentração do boi - e quem lidera os kaçauerés. O touro branco iniciou o translado das alegorias da sua primeira noite de apresentação no festival às 7h30 do último domingo (23) e vai finalizar na noite desta segunda (24). "Tivemos um pouco de dificuldade, porque as alegorias estão muito próximas uma da outra, por conta do projeto grandioso do boi neste ano", conta o coordenador dos kaçauerés.



O traslado das alegorias, que partem da Cidade Garantido até os arredores da Praça dos Bois, possui 3 km e reúne cerca de 130 homens. Os desafios, segundo ele, são inúmeros. "Às vezes quebra algo e temos que parar, colocar outra roldana (peça mecânica que transfere força e energia cinética)", complementa o coordenador.

Por ser faixa preta de jiu-jitsu, Edjander alega possuir boa resistência física para a tarefa. Mas para ser kaçaweré é um pouco diferente, sendo necessário muito além da força. "Fazemos um planejamento gerencial para tirar a alegoria do galpão e reforço com palestras de segurança do trabalho para conduzí-las de forma segura. Orientamos que os kaçauerés não podem fumar e beber antes e durante a atividade. Depois do terceiro dia em diante eles pegam o ritmo", declara Mota.

Apoio

 Em alegorias com módulos maiores e mais pesados, se faz necessário ir e voltar por várias vezes até que alegoria completa chegue à Praça dos Bois. "É difícil até pra nós mesmos, chegamos a fazer até 9 km por dia. Alguns módulos possuem 4 ou 5 toneladas", coloca ele. Em módulos deste porte, o translado se utiliza de reforços como desfiladeiras, trator e caminhões. "Puxamos os módulos com a empilhadeira, para que fiquei do nosso lado direito e não 'corram' de um lado pro outro. Módulos menores são conduzidos integralmente por kaçauerés", pondera Edjander.

Até o momento, as alegorias de lenda e celebração folclórica do Garantido foram as que chegaram próximo às imediações do Bumbódromo. E, de acordo com Mota, alegorias de lendas e rituais são as mais difíceis de transportar. "Porque geralmente elas englobam mais módulos, mais altura e mais peso", confessa ele. Mas, segundo Edjander, não necessariamente os módulos mais difíceis são transportados primeiro. "Os que vêm primeiro são os módulos da primeira noite. Fazemos isso porque é feito um mapeamento para que tudo corra bem", pondera ele.

 As alegorias são resistentes à chuva. "Até para que o povo veja a obra de arte que está sendo transportada. Os dois bois investiram em tintas à prova d'água, e se qualquer coisa acontecer, retocamos tudo antes de entrarmos na arena", declara ele, lembrando que é na arena que se desenrola a segunda parte da missão dos kaçauerés: empurrar, posicionar e retirar os módulos da arena.

"Essa atividade que fazemos com certeza pode ser acoplada em uma espécie de guerra. Afinal, temos um percurso de 3 km com ladeiras, sol de 40 graus. Não é qualquer um que aguenta trabalhar aqui. Tem que gostar do que faz. Até porque nós não vemos o festival. Passei 35 anos vendo meu boi de costas. Vi agora em 2018, porque foi o único dos 25 anos de trabalho em que trabalhei fora dessa função. Essa primeira fase é fundamental, porque a movimentação e a montagem do boi dentro da arena fica por nossa conta", desabafa ele, orgulhoso de ser condutor de uma procissão de mãos vermelha e branca.

 

Subeditora de A Crítica

Mais de Acritica.com

Sobre Portal A Crítica

No Portal A Crítica, você encontra as últimas notícias do Amazonas, colunistas exclusivos, esportes, entretenimento, interior, economia, política, cultura e mais.